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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Brasileiro "Cano Serrado" escorrega na paródia involuntária

Toda vez que o Cinema Brasileiro vira pauta numa conversa, seja ela formal ou informal, comenta-se sobre a falta de investimento, criativo e/ou financeiro, em filmes de gênero. O terror, por exemplo é pouco explorado, assim como os filmes de ação, normalmente acomodados no famigerado subgênero dos filmes de favela. Ultimamente, temos visto avanços nesse sentido, com obras como O Rastro e o recente Morto Não Fala tentando recuperar o horror nacional. Cano Serrado até representa uma legítima tentativa de reinvenção do cinema de ação nacional, mas assim como em seu Federal em 2010, o cineasta Erik de Castro passa a impressão de estar longe de ser a pessoa certa para conduzir essa renovação.


Abordando a violência constante nas estradas tupiniquins, Erik esboça um comentário sobre a crescente sensação de insegurança por parte de quem faz viagens interestaduais, especialmente caminhoneiros e motoristas de ônibus de turismo. Aproveitando esse contexto, a história acompanha Lucas (Jonathan Haagensen) e Manuel (Paulo Miklos) uma dupla de policiais que viaja à paisana escoltando um ônibus rumo a uma igreja evangélica. Problemas surgem no meio do caminho e Lucas se vê numa emboscada, levando um tiro e sendo levado por policiais que o confundem com um bandido local.


Apostando preguiçosamente em estereótipos, o roteiro mostra Lucas como o clássico policial do bem, ostentando valores nobres que frequentemente o colocam em rota de colisão com os colegas corruptos e gananciosos. Manuel é a personificação do típico malandro politicamente incorreto, do tipo que trai a esposa com orgulho e se vê à vontade com a corrupção. A boa dinâmica entre os dois, fruto do carisma e do talento de ambos (principalmente Haagensen) poderia render um filme inteiro, mas Erik de Castro torce o nariz para isso.


Sua intenção é clara: fazer um filme de ação protagonizado por homens e para homens. Com isso, o roteiro não economiza ao pintar as figuras do filme como seres machistas e misóginos, que andam de nariz empinado e sempre prontos para sacar uma arma carregada. Cuspes e palavrões estão inclusos no pacote.


O diretor investe tão pesadamente nessa embalagem machona que Cano Serrado ganha ares de paródia, ficando difícil conter o riso sempre que o personagem de Milhem Cortaz entra em cena, por exemplo. Com a obrigação de colocar um cigarro (apagado) na boca toda vez que surge em cena, Cortaz faz questão de frisar a virilidade de Rico, incluindo caras de mau e uma inexplicável ideia de dobrar uma das mangas (curtas) de sua camisa, exibindo os músculos.


Outro exemplo de caricatura é o Sargento Sebastião, encarnado por Rubens Caribé como um aspirante a Capitão Nascimento, mas sem a força, o carisma e a complexidade do mais recente ícone do Cinema Nacional. Misógino e com uma moral flexível (para dizer o mínimo), Sebastião é adepto também da tortura. E o que dizer do delegado Raimundo, encarado como um nordestino incapaz de fugir do alívio cômico (consciente ou não) e que ainda protagoniza um chilique absolutamente inacreditável?


Esse chilique, vale ressaltar, é o momento menos embaraçoso de Cano Serrado e, acredite, são vários. Por exemplo, uma moça toca o interfone de uma casa e a estranheza já começa com o som de campainha que ecoa. Para piorar, a dona da casa surge implacavelmente já abrindo o portão para a desconhecida e ignorando até mesmo seu cachorro de estimação, cuja fuga parece não importar. Em outra sequência, temos o clássico waterboarding, técnica de tortura que consiste em simular afogamento. O problema é que no filme, a quantidade ínfima de água jamais desperta, sequer, a ilusão de eficiência, além de podermos ver que grande parte é desperdiçada.


Já em relação aos personagens, há o policial que fecha os olhos ao atirar, o outro que não suporta o coice da arma e, meu favorito, aquele que atende o celular com uma truculenta dedada no centro do aparelho. Todo esse material já seria suficiente para a produção de um bom trash ou uma paródia mordaz, mas Erik de Castro insiste em se levar a sério, o que pode ser evidenciado, também, através da trilha sonora, que consiste num rock pesado quase ininterrupto, intrusivo em vários momentos e sem nuances.


Porém, há passagens em que fica difícil de entender a intenção do cineasta. Traços ambíguos impossíveis de determinar se foram introduzidos conscientemente, como ao construir Sebastião proclamando-se como um “homem de fé”, citando a bíblia e justificando a inversão de valores como “até papa nazista já tivemos”. O mesmo pode se dizer a respeito da falta de inteligência dos policiais coadjuvantes, que chega ao ápice numa sequência onde decidem se reunir no meio de um local público para tratar de um assunto claramente ilegal. E quanto à decisão de inverter certas nomenclaturas, como em “Polícia Municipal” e “Guarda Militar”?


Falando sobre a direção, Erik de Castro demonstra um apego quase obsessivo a planos aéreos, adotando-os sem a menor justificativa (e confesso que passei todo a projeção tentando adivinhar o momento em que a câmera iria ‘subir’). Além disso, ele toma decisões questionáveis quanto ao posicionamento de câmera, tornando algumas cenas incômodas, como ao fixar a lente no capô de um carro (gerando trepidação) ou ao dispensar o tripé em determinados diálogos. Isso para não mencionar os péssimos close ups supostamente dramáticos.


O único ponto genuinamente positivo de Cano Serrado, porém, reside somente no terceiro ato, quando um confronto de grandes proporções é filmado no melhor estilo faroeste, com direito a plano-detalhe nos olhos, plano americano enfatizando a arma na cintura, travellings circulares e a irresistível expectativa de quem vai atirar primeiro. Infelizmente, essa sequência é rápida e seguida de um plano onde uma professora do ensino fundamental escreve as palavras “ética” e “moral” num quadro negro (acredite se quiser), literalmente explicando para o público sobre as consequências de determinadas subtramas.


Honestamente é difícil de acreditar que Erik de Castro seja tão tolo ao tomar algumas das decisões descritas acima. Por isso, prefiro crer que seu maior erro foi não abraçar completamente a autoparódia.


NOTA 1


Crítica originalmente publicada durante o Festival do Rio 2018

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