CRÍTICA | "Backrooms: Um Não-Lugar"
- Guilherme Cândido

- 27 de mai.
- 3 min de leitura

É fascinante perceber a evolução de Backrooms até se tornar o longa-metragem que chega aos cinemas nesse final de semana. Tudo começou com uma foto prosaica, compartilhada numa comunidade virtual para atender o pedido de um usuário por uma imagem que gerasse desconforto por parecer “errada”.
A famosa sala amarelada, então, passou a percorrer os confins da internet até explodir em popularidade no reddit, já como um destaque das creepypastas (lendas urbanas disseminadas em fóruns virtuais). O ambiente, agora um suposto plano de uma dimensão onde é possível “cair” quando alguém “sai” da realidade, ganhou “níveis”, camadas habitadas por criaturas difíceis de descrever, mas não de retratar, como fez o cineasta Kane Parsons (ou Pixels, como assinava as produções da época) ao escrever, dirigir e desenvolver uma série de curtas-metragens baseados em Backrooms que rapidamente viralizou.

A estética emulada era o das fitas VHS, como se fossem filmagens feitas nos anos 90 e só encontradas agora. Um conceito nada original, convenhamos, mas que dava respaldo aos “relatos” compartilhados mundo afora justamente por reforçar o caráter caseiro e, consequentemente, crível do que era visto. Com mais de 80 milhões de visualizações só no YouTube, era questão de tempo até despertar o interesse de alguma produtora hollywoodiana sedenta por um fenômeno sobre o qual capitalizar. E foi a A24 quem se prontificou a dar vida à imaginação de Parsons, contratado para capitanear uma versão capaz de cativar multidões no mundo todo da mesma forma com que engajou os internautas.

O jovem realizador manteve o estilo que o tornou célebre, mas dessa vez trabalhou com um roteiro escrito por Will Soodik que apesar da experiência com séries de sucesso do quilate de Homeland e Westworld, demonstra certa insegurança ao navegar pelo conceito idealizado por Parsons.

Soodik se sai bem ao montar a premissa: em 1990, um arquiteto infeliz recorre a uma terapeuta para tentar salvar seu casamento. O problema é que ele acaba descobrindo um lugar estranho o bastante a ponto de parecer fora da realidade, mas familiar o suficiente para gerar pontos de identificação. Quando ele desaparece, é a própria analista quem se encarrega de procurá-lo, mas ela também luta contra os próprios demônios.

Logo de início, o texto sugere que o tal “não-lugar” tem relação com a psique de quem o adentra. A ideia de os Backrooms serem, na verdade, uma metáfora para o colapso psicológico funciona e até aponta um caminho para Soodik seguir. Não chega a ser inovador, mas esse ponto de partida ganha pathos com a atuação do sempre intenso Chiwetel Ejiofor (indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão). Os acessos de fúria acompanhados pelo olhar entristecido fazem do protagonista a vítima perfeita para uma armadilha mental. Se a sala amarelada é uma projeção de sua mente ou se de fato trata-se de um ambiente que atrai indivíduos psicologicamente instáveis, caberia ao espectador decifrar.

Por outro lado, nem chegamos a ter essa chance, uma vez que o roteirista solta a mão da plausibilidade do primeiro ato, para abraçar uma tentativa de amarrar a narrativa à realidade, entregando-se a explicações que remetem à volúpia de Christopher Nolan por justificativas, mas que passam longe por soarem tão frágeis quanto tolas. Aliás, nem Soodik sente firmeza no que escreve, pois sequer permite o personagem de Mark Duplass concluir as explanações que deveriam dar algum sentido lógico ao que já estava subentendido de forma análoga. Renate Reinsve (indicada ao Oscar pelo recente Valor Sentimental), habitualmente brilhante e um ímã de grandes filmes, tropeça numa abordagem monocórdica e reativa, enquanto é lançada à deriva pelas inseguranças do texto.

Os sustos são esporádicos e geralmente derivados da estratégia anterior de Kane Parsons em movimentar a câmera de forma como se estivesse prestes a revelar algo aterrorizante a qualquer momento (note as alternâncias entre esquerda e direita). Em contrapartida, a grande ameaça presente no terceiro ato pode ser interpretada como um gigantesco deboche para quem se acostumou com criaturas disformes. Tal “personagem” tende a provocar risos involuntários ao invés de assustar.

No geral, o que sobra mesmo é a atmosfera de estranheza que prospera no mistério, mas não encontra sustentação narrativa. Depois do patético Slender Man - Pesadelo Sem Rosto, talvez as creepypastas devam permanecer no ambiente virtual…
NOTA 3,5









