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CRÍTICA | "Herança de Narcisa"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 8 de jul.
  • 2 min de leitura

Uma mulher sozinha numa mansão envelhecida onde eventos estranhos acontecem. É um tropo clássico de filme de terror, mas que não é fortemente abraçado por Clarissa Appelt e Daniel Dias, parceiros de roteiro e direção deste Herança de Narcisa, longa-metragem que passou pelo Festival do Rio 2025 e chega aos cinemas impulsionado por uma força motriz chamada Paolla Oliveira.

 

Ela interpreta Ana, que resolve passar uns dias na antiga casa de infância para fazer uma limpeza completa antes de colocar à venda, após a morte da mãe, última moradora e com quem possuía forte conexão.

 

O roteiro deixa claro logo de início, que o verdadeiro terror não provém do sobrenatural, mas do conceito por trás da reminiscência de um passado que pode ser doloroso demais para quem faz uma revisita. Sustos e arrepios estão presentes, mas apenas esporadicamente, pois são trocados por uma atmosfera de estranheza decorrente dos mistérios guardados a sete chaves pela velha residência.

E esse deslocamento para o drama também rende bons frutos, especialmente nos momentos mais sutis, como aquele em que Ana e o irmão decidem escutar um disco da mãe. Diego, aliás, torna-se uma peça tão importante da engrenagem dramática, com uma presença marcante de Pedro Henrique Müller, que sua participação fugaz deixa um vazio inexaurível.

Felizmente, os diretores arrancam uma atuação tão forte e eloquente de Paolla Oliveira que aqueles que a conhecem apenas pelo trabalho em novelas deverão se surpreender (note a mudança no sotaque). Não é fácil carregar nas costas um filme tão imbuído de simbolismos e ela transita com habilidade pelos extremos que o papel e as reviravoltas exigem.

Não que a narrativa reserve grandes surpresas, pois as revelações podem ser telegrafadas sem muito esforço e Appelt e Dias sequer demonstram interesse em fisgar o público pelo choque. O trunfo da narrativa, muito bem sabido pela dupla, é dramático, enveredando para o chamado “mommy issues” a fim de se conectar a termos da moda, principalmente “ancestralidade”, rendendo uma conclusão que dividirá opiniões por não oferecer o tipo de recompensa que o fã de terror talvez possa esperar. Verdade seja dita, quem for ao cinema para se alimentar do horror, passará fome.

Em contrapartida, quem tiver a mente aberta, desfrutará de um longa-metragem brasileiro de gênero com um apuro estético digno de aplausos, passando por cenários bem construídos (a casa é um personagem por si só), figurinos que agregam à construção de personagens e culmina numa fotografia que começa priorizando quadros milimetricamente planejados e posteriormente transmite a loucura do texto através de planos inclinados e o uso ostensivo de sombras.

Em outras palavras, uma produção que alia predicados técnicos e narrativos num gênero que normalmente é sabotado pelo mercado exibidor, notoriamente fanático por chanchadas que fazem plim-plim, induzindo o público ao erro de achar que nossa produção é limitada a dois tipos narrativos. Herança de Narcisa pode não alçar voos espetaculares, mas é bom o bastante para renovar a fé em nossa diversidade cinematográfica, mas só para quem estiver disposto a acreditar. E nesse caso, é ver para crer.


NOTA 6,5

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