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CRÍTICA | "O Fim da Rua"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
12 de ago.
4 min de leitura

Ao longo de dezesseis anos de carreira, David Robert Mitchell lançou apenas três filmes, entretanto, todos seguindo um conjunto de elementos temáticos, narrativos e visuais. O fato de ter crescido em Michigan, por exemplo, influenciou sua filmografia ao ponto de todas as suas obras se passarem naqueles típicos subúrbios estadunidenses, geralmente o símbolo do sonho americano. Por outro lado, essa ambientação funciona como uma espécie de “geografia emocional”, uma forma encontrada pelo cineasta de encontrar alguma familiaridade, buscando uma conexão com suas raízes da mesma forma com que estimula o público a analisar meticulosamente as imagens que concebe.

 

Afinal, aos olhos de Mitchell, um subúrbio nunca é apenas um subúrbio, mas sim um espaço no qual o julgamento é contínuo, seja da parte dos moradores ou mesmo do espectador. Seus personagens são observadores contumazes, ganhando contornos literais em O Mistério de Silver Lake (2018), com um Andrew Garfield literalmente usando um binóculo para participar da vida alheia. Em Corrente do Mal (2014), é a vida sexual que passa pelo escrutínio da vizinhança. Por trás desses espaços familiares pasteurizados, sempre existe algo a ser observado. Corrente, nos instiga a descobrir do que se trata. Silver Lake, o que representa.

O Fim da Rua vai por um caminho quase autoparódico ao já iniciar investindo em todos os estereótipos possíveis, algo facilitado pela época (a década de oitenta) na qual a história se insere. Os figurinos característicos (shorts diminutos, regatas, cores fortes), o “churrasco” no quintal, a rivalidade entre os colegas de escola e, claro, a hipocrisia de um segmento da sociedade que costumava aparecer com frequência nas produções de Spielberg, como E.T. (1982) e Os Goonies (1985) e que é desmascarada sem dó nem piedade por Mitchell, dessa vez usando e abusando da ironia.

Não por acaso, logo vemos um grupo de crianças percorrendo as ruas do bairro com suas bicicletas antes de testemunharem algo fantástico ao som de uma fanfarra bem ao estilo John Williams, mimetizado com perfeição pelocompositor Michael Giacchino. Contudo, é o tipo de ironia que talvez seja sutil demais para um público pouco versado nas tradições spielberguianas, especialmente as gerações mais acostumadas ao frenesi multitarefa autoexplicativo. 

 

Explicação, aliás, é o que não falta e justamente o único ponto dissonante entre The End of Oak Street (no original) e os demais trabalhos de David Robert Mitchell.


*** O restante desse texto pode conter spoilers ***

*** (infelizmente presentes nos trailers e pôsteres) ***


Até o título, uma alusão em duplo sentido, é mastigada em algum momento. Talvez uma tentativa dos produtores em diminuir a distância do Cinema desenvolvido pelo diretor, para o entretenimento escapista que coloca astros competentes como Anne Hathaway e Ewan McGregor fugindo de animais pré-históricos. Felizmente, nem momentos como esse escapam do deboche de Mitchell (você nunca veria dinossauros copulando ou defecando em Jurassic Park). Quando o discurso descamba para o didatismo hollywoodiano, o diretor busca alternativas como essa para manter o arquétipo da família moderna nessa via crucis expressionista.

Assim como fez em projetos anteriores e na contramão do que é encontrado na Indústria, David Robert Mitchell não precisa esconder elementos para alimentar o suspense, pelo contrário. É justamente ao abrir os planos, deixando absolutamente tudo à vista, que o incômodo é provocado, como nos vários momentos em que os personagens estão distraídos enquanto algo se aproxima pelo fundo do quadro. Nos desesperamos pelo perigo iminente e a prova cabal do domínio do cineasta sobre o espectador está precisamente nos instantes em que ele usa nosso desespero para investir num jump scare. Não é tarefa fácil imaginar um realizador da atualidade tão eficiente quanto Mitchell na arte de provocar sustos. Um teste cardíaco dos bons, vindo de várias formas inesperadas: durante uma fuga frenética, na tranquilidade de uma reunião entre quatro paredes ou até mesmo preparando o café da manhã.

Dessa forma, é praticamente impossível ficar indiferente numa sessão de O Fim da Rua, pois mesmo que consideremos a remota possibilidade de Mitchell fracassar em suas provocações sacanas, sempre teremos Hathaway e McGregor incorporando com facilidade o casal suburbano em crise. Surgindo nas telonas pela terceira vez em menos de quatromeses, ela mostra porque jamais deve interromper a carreira, demonstrando compreensão absoluta do tom do projeto. De escritora frustrada à Sarah Connor do período Cretáceo, ela se entrega sem reservas a gritos, olhos arregalados e corridas a la Tom Cruise, subindo o tom junto com a trilha sonora e o próprio filme. McGregor, talento que merecia ser apreciado com a mesma frequência, encarna o papel do marido beta com um misto improvável de inocência e bravura. O fato de ter encontrado equilíbrio nessa composição representa uma proeza por si só.

Curiosamente, o ímpeto de explicar é quase sempre inversamente proporcional à intenção de soar convincente, o que faz da reviravolta final um inesperado presente oferecido por um cineasta cujo estilo sobreviveu à primeira empreitada sob as rédeas de um grande estúdio. Com danos, é verdade, mas pronto para a próxima. Que ele siga o exemplo de sua protagonista e passe a lançar filmes com mais frequência.


NOTA 7

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