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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Culpa" eletriza espectador usando pouquíssimos recursos

Atualizado: 28 de jul. de 2022

Filmes que se passam numa única locação não são nenhuma novidade. Hitckcock já havia feito um em 1948, o clássico Festim Diabólico. Ainda tivemos o seminal 12 Homens e uma Sentença e produções mais recentes, como Por um Fio, Enterrado Vivo e Locke. Este último guarda algumas semelhanças com Culpa, representante dinamarquês no Oscar. Se naquela produção acompanhávamos o personagem de Tom Hardy efetuando incontáveis ligações durante uma viagem de carro, em Den Skyldige (no original) vemos um dia da vida de um telefonista da polícia.


De Asger (Jakob Cedergren), o telefonista, só sabemos que é um policial afastado das ruas por algum problema recente. De resto, temos as mesmas informações que ele, e somos convidados a embarcar em sua rotina que, após emergências pouco importantes, é sacudida pela ligação de uma mulher que está sendo sequestrada pelo marido. Contar mais que isso estragaria a experiência. O forte de Culpa é justamente o mistério.


Claro que grande parte da eficácia do projeto depende da performance de Jakob Cedergren, que praticamente passa o filme todo sozinho ao telefone. De frente para o computador de monitor duplo e usando fones de ouvido, ele gradualmente vai substituindo a dicção mecânica típica de seu trabalho por um tom de voz que mal esconde sua ansiedade crescente. E Cedergren é brilhante ao transmitir todo o turbilhão de emoções pelo qual Asger passa em sua epopeia solitária.


E a direção precisa do estreante Gustav Möller não deixa a peteca cair, mantendo o ritmo sempre acelerado sem precisar recorrer aos cortes frenéticos e dedicando sua lente ao expressivo rosto de Cedergren. O cineasta também permite que pequenos gestos do ator sejam notados, ilustrando inquietação, nervosismo e até dispersão. O êxito é tamanho que não duvido que Möller seja convidado em pouco tempo para comandar alguma produção hollywoodiana.


Entretanto, o que salta aos olhos mesmo é a capacidade ímpar de Culpa em provocar tensão e manter o interesse do espectador com uma trama movimentada apenas por alguém sentado num escritório ouvindo ações por telefone. Aqui cabe mais uma citação ao mestre Alfred Hitchcock que costumava dizer que o melhor amigo do suspense é a imaginação. “Não há nada mais aterrorizante para o espectador do que sua própria imaginação”, dizia ele. E Gustav Möller segue isso à risca, com um roteiro que deixa absolutamente toda a ação apenas na mente do espectador.


Carros capotam, batidas policiais são efetuadas, perseguições acontecem… Tudo isso ilustrado pelo irrepreensível design de som que confere credibilidade às conversas de Asger. Essa falta de informação visual é a chave para a tensão e a ansiedade do espectador, que à essa altura do campeonato está agarrado à poltrona do cinema à espera do desfecho, que vale todo o investimento.


Pois o roteiro (também de Möller) trabalha bem o fato de que naquela situação não conhecemos as pessoas com quem falamos e nem sabemos suas intenções. Como julgar o caráter de alguém pela voz? Ela está falando a verdade ou está mentindo? O que está realmente acontecendo? Perguntas, perguntas e mais perguntas que são respondidas paulatinamente e em grande estilo.


Contando também com um ótimo design de produção, o longa utiliza as cores frias para construir o ambiente de trabalho de Asger, adotando uma agradável fotografia de tons azulados que acompanha a narrativa até o início do terceiro ato, quando cede espaço para o vermelho numa cena chave tão orgânica quanto bem construída.


Pecando apenas com uma implausível sequência onde ninguém do escritório parece escutar o que acontece numa determinada cena (ou são surdos ou simplesmente ignoraram), Culpa é pura magia cinematográfica, extraindo emoções genuínas com um material limitadíssimo, mas brilhantemente usufruído.


NOTA 8,5


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