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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Ela Disse" | Roteiro irregular é obstáculo para produção importante


Após uma longa e exaustiva investigação, em 2017, as jornalistas Megan Twohey e Jodi Kantor ousaram expor através de uma série de artigos publicados no New York Times, décadas de crimes sexuais cometidos por Harvey Weinstein, nome e sobrenome que devem passar batidos por quem não acompanhou o caso na época, famoso por dar início ao #MeToo, movimento que até hoje visa dar voz às vítimas de abusos sexuais no ambiente de trabalho. Weinstein era um dos mais poderosos e prestigiados produtores de Hollywood, fazendo da Miramax, companhia que fundou ao lado do irmão, Bob, lar de obras como Pulp Fiction: Tempo de Violência, Gênio Indomável, O Talentoso Ripley, Pânico, entre muitas outras. O Paciente Inglês, Shakespeare Apaixonado, Chicago e Onde os Fracos Não Têm Vez (todos vencedores do Oscar de Melhor Filme), também foram produzidos por ele.


Harvey Weinstein, no entanto, escolheu utilizar o poder que adquiriu e a influência que exercia para se aproveitar de moças que sonhavam com o estrelato na Meca do Cinema. Com o tempo, entretanto, até estrelas viraram alvos do criminoso, caso de Gwyneth Paltrow, por exemplo, que chegou a ganhar o Oscar de Melhor Atriz por Shakespeare Apaixonado. Temendo por sua carreira, frequentemente ameaçada por Weinstein em nome do silêncio, ela não teve a mesma atitude de Ashley Judd (Risco Duplo, Fogo Contra Fogo), que após surgir de forma promissora, estranhamente passou a ser ignorada pelos estúdios, até desaparecer quase completamente dos holofotes. O motivo? Recusar as investidas do produtor e enfrentá-lo publicamente.


Diante de intenções tão nobres como a de adaptar o livro contendo a reportagem vencedora do Pullitzer por Twohey e Kantor, torna-se um exercício desconfortável constatar os problemas que transformam Ela Disse numa produção que jamais faz jus ao seu potencial.

Roteirizado por Rebecca Lenkiewicz (do bom Colette), o filme, logo após um eficiente prólogo, segue de forma auspiciosa ao apresentar Twohey (Carey Mulligan, de Drive e Bela Vingança) num embate por telefone com ninguém menos do que Donald Trump. Com uma admirável economia narrativa, a câmera passeia pela aconchegante casa da jornalista, mergulhada numa fotografia de tons quentes enquanto ouvimos algo pela televisão sobre um senador republicano (futuro partido de Trump). Os modos casuais de Twohey (comendo em frente ao computador e na presença do marido), contrastam com a postura profissional com que conduz a conversa com o então bilionário, que por sua vez vocifera insultos e ameaças contra a mulher. Essa breve passagem serve não apenas para mostrar como tudo pode ter começado (em termos de #MeToo), mas também como cartão de visitas de Megan Twohey.

O problema é que, a partir daí, Ela Disse se desdobra em duas frentes: aquela que acompanha a investigação e a outra, que abarca o lado humano das repórteres. Não que a humanização de Kantor e Twohey não seja bem-vinda, mas são momentos pouco articulados (os maridos são figuras decorativas e os filhos utilizados como meros instrumentos dramáticos) e que interrompem a trama principal. Diante de uma história com vítimas de abuso sexual e relatos escabrosos, resta a dúvida se o apego à intimidade das protagonistas era de fato necessário. Afinal, as entrevistas são o ponto alto da narrativa, pois fica evidente o talento da cineasta alemã Maria Schrader (autora do ótimo O Homem Ideal), inteligente ao investir na seriedade das repórteres, mesmo diante de depoimentos fortes, para se esquivar do melodrama barato.

Outro ponto positivo do projeto é o cuidado com que retrata o ambiente jornalístico, dando atenção a detalhes que podem parecer triviais, mas que conferem credibilidade, como ao mostrar, repetidas vezes, a preocupação da editora vivida por Patricia Clarkson (À Espera de um Milagre) em conseguir provas concretas que solidifiquem o artigo (um alívio em tempos de fake news), ou na ética exibida pelo editor-chefe interpretado por Andre Braugher (o Capitão Holt da série Brooklyn Nine-Nine) de conceder sempre um prazo para os envolvidos se defenderem. A transparência que rege a relação das repórteres com suas fontes também chama atenção (“o Times não poderá dar apoio jurídico”) e só não é mais elogiável do que o respeito demonstrado pelo jornal, sempre fazendo questão de valorizar a vítima, a quem pertence a decisão de depor ou não.

E se elogiei o ângulo jornalístico do roteiro, o mesmo não posso fazer em relação a outras escolhas feitas, a começar por uma armadilha auto imposta pela produção: ao optar por trazer Ahsley Judd interpretando a si mesma (uma decisão até certo ponto compreensível, dada a importância da atriz para o contexto retratado), num dissonante flerte com o documental, Ela Disse sacrifica a possibilidade de explorar as figuras de Gwyneth Paltrow e, claro, Harvey Weinstein. Não bastasse a estranheza de exibir Judd, como personagem, conversando com Carey Mulligan, como atriz, a produção investe num embaraçoso artifício para trazer Paltrow e Weinstein à vida, que surgem através de dublês e sempre de costas.

Algo semelhante acontece com as reconstituições, que ficam num meio-termo entre uma edição do finado Linha Direta com um episódio de podcast. Tente não ficar constrangido com as sequências em que a câmera acompanha os corredores de um hotel enquanto ouvimos gravações dos crimes cometidos. Aliás, é clara a impressão de que Ela Disse seria infinitamente mais eficiente caso fosse realizado como um documentário, pois além de eliminar a necessidade de uma trama, poderia se aprofundar na investigação sem reservas.

Para piorar, o roteiro exagera nos diálogos expositivos, exibindo conversas claramente concebidas para levar informações diretamente ao público (a maioria das interações entre Megan e Jodi), mas que não chegam aos pés de passagens redundantes e artificiais como aquela em que as jornalistas, no meio da escurecida e esvaziada redação do jornal, ouvem da editora: “já é meia-noite, vão para casa descansar!”. Ou a patética forçada de barra da produção ao tentar enfatizar o trabalho em equipe do jornal (depois de meses de apuração, era necessário revisar novamente o artigo?), com todos os envolvidos na frente do computador antes da câmera cortar para um plano-detalhe da seta clicando em “publicar”.

Tecnicamente, a produção também não vai muito bem, com o montador Hansjörg Weißbrich (Amor e Revolução) tendo dificuldades para ilustrar a passagem do tempo (repare como uma reunião de uma hora e meia dura apenas cinco minutos). Já o elenco se sai relativamente melhor: se Carey Mulligan acaba tendo pouco o que fazer, visto que é Zoe Kazan (Doentes de Amor) quem possui a maior parte das cenas dramáticas, Samantha Morton (Animais Fantásticos e Onde Habitam) e Jennifer Ehle (O Mau Exemplo de Cameron Post) se destacam entre os coadjuvantes, como vítimas que lidam de formas diferentes com o trauma.

Causando estranheza por não mostrar o sistema que permitia Harvey Weinstein agir (ele é tratado como se fosse o único culpado, quando sabemos da existência de outros, como John Lasseter, Louis C.K., entre outros), Ela Disse esquece que apesar dos esforços de suas corajosas repórteres, cujas ações melhoraram as condições de trabalho e jogaram luz sobre as vítimas, antes soterradas por complexos esquemas jurídicos e acordos milionários de confidencialidade, infelizmente ainda há muito o que ser feito.

Mirando no excepcional Spotlight: Segredos Revelados, o máximo que Ela Disse consegue, na verdade, é se aproximar do irregular O Escândalo, ficando abaixo até mesmo de A Assistente, longa-metragem que retratou melhor os abusos cometidos por executivos hollywoodianos.


NOTA 5


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