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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Hipnotizante e poético, 'Sem Coração' mostra a força do Cinema Brasileiro


Escrito e dirigido por Nara Normande e Tião, Sem Coração primeiro foi um curta-metragem lançado em 2014, voltando agora como um conto de amadurecimento ambientado no nordeste brasileiro em 1996. Tamara é a responsável por começar os trabalhos, uma jovem de espírito livre e que aproveita o tempo com seus amigos antes de partir para Brasília, onde sua família imagina uma vida mais promissora em termos de estudos e trabalho. Aos poucos, porém, ela se apequena perante os demais personagens, que crescem exponencialmente e dividem o protagonismo. É impressionante como cada membro do jovem elenco agarra com unhas e dentes a oportunidade de brilhar em cena.


A galeria é vasta: Galego (Alaylson Emanuel, carismático), o mais velho e malandro do grupo, acaba de sair da FEBEM, onde foi parar por motivos jamais esclarecidos pelo roteiro e que se tornam ainda mais misteriosos quando percebemos sua personalidade afável e responsável (repare como ele repreende uma criança que encontra uma arma). Sua relação com o pai só não é mais cáustica do que aquela com que o personagem do influenciador Kaique Brito (estreante no Cinema) possui com praticamente todos os jovens fora de seu grupo. É vítima de uma sociedade homofóbica, do tipo que torna impraticável uma mera demonstração de afeto em público para com alguém do mesmo sexo. Os desabafos que faz com os amigos representam os pontos mais sensíveis de uma história que ainda inclui a enigmática moça conhecida apenas como “Sem Coração” (há boatos dando conta de que possui “uma máquina” no peito), interpretada por Eduarda Samara.

Enquanto Tamara habita um espectro mais cômodo e repleto de calor humano, Sem Coração vive uma realidade oposta: alvo de provocações das outras crianças (incluindo os protagonistas), ela parece se importar apenas com o pai, com quem tem uma relação de altos e baixos. Assim como é capaz de rompantes de agressividade, talvez um reflexo do tratamento que recebe em casa, não esconde a felicidade ao ver o pai sendo fitado por uma senhora durante uma festa. A perda da mãe ainda jovem, é sugerida sutilmente como a causa para o lar da menina ser diametralmente oposto ao de Tamara (repare a diferença das cores e da iluminação).

Apesar de se encaixar confortavelmente no arquétipo desse tipo de filme, a relação entre a protagonista e os pais passa muito longe de possuir fissuras, algo comum em narrativas como essa. Pelo contrário, pois a liberdade que eles concedem à moça para perambular com os amigos jamais é sequer questionada. Fruto também da mente aberta de um casal culto e amoroso que se beneficia das performances calorosas de Maeve Jinkings (Aquarius) e Erom Cordeiro (A Divisão).

Sem luxos, as crianças de Guaxuma aproveitam as belezas locais, dividindo-se entre atividades ao ar livre e explorações de casas de veraneio desocupadas. Essas invasões, diga-se de passagem, correspondem aos melhores momentos da projeção, com destaque para a divertidíssima sequência em que os meninos do grupo descobrem uma coleção de filmes adultos.

A fotografia merece elogios por aproveitar as belas paisagens de Guaxuma, pequena cidade-natal da co-diretora Nara Normande. Entre rios, mangues e praias, a geografia local serve como palco para os simbolismos do roteiro, em especial um momento onírico envolvendo uma baleia encalhada. Alguns enquadramentos também poderiam facilmente ser emoldurados, como o beijo que acontece abaixo de uma soleira e com o litoral ao fundo.

Exibido sob elogios na Berlinale, Sem Coração também arrancou demorados e efusivos aplausos em sua sessão de estreia no Festival do Rio, evidenciando que o Cinema Brasileiro continua encantando. Divertido, emocionante e extremamente envolvente, o filme deixa um sabor agridoce justamente por inevitavelmente chegar ao fim, já que não é fácil deixar aqueles personagens tão queridos. Agora sabemos a sensação de Tamara ao deixar Guaxuma...


NOTA 8,5


*Filme visto originalmente no Festival do Rio 2023

1 Comment


Jnei Cândido
Jnei Cândido
Apr 20

Parabéns pela crítica. Sensacional.

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