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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

História engessada de "A Mulher na Janela" desperdiça elenco talentoso

Homenagens (leia-se: imitações) à Janela Indiscreta surgem de tempos em tempos no Cinema. Já tivemos até mesmo Shia LaBeouf protagonizando sua própria versão (Paranoia, de 2007) enquanto curtia a fama (e os dólares) de sua época como estrela de Transformers. Agora, que esse ponto de partida tenha atraído tanta gente talentosa, realmente me foge à compreensão.


Amy Adams (de obras como A Chegada, Animais Noturnos e Trapaça), dona de seis indicações ao Oscar, surge perdida, deslocada num papel que fica à mercê do roteiro rocambólico do normalmente competente dramaturgo e ator Tracy Letts (Ford vs. Ferrari). O vai-e-vem aborrecido das intrigas parece sempre antecipar algo que ajude a evoluir a personagem de Adams, que no final das contas é mais um peão a ser usado pelo roteiro para manipular o espectador. Logicamente, nada vai para frente, a não ser o plano de manter o espectador iludido em suspense.


A trama, adaptada do romance homônimo escrito por A.J. Finn, conta a história de Anna Fox (Adams), que vive sozinha na mesma casa que um dia abrigou sua família. Solitária e sofrendo com uma fobia que a mantém reclusa, seus dias são regados a muito vinho enquanto alterna sua rotina entre assistir a filmes clássicos e conversar com estranhos na internet. Tudo muda quando uma nova família se muda para a casa do outro lado da rua, atraindo Anna ao ponto desta ficar obcecada. Certa noite, porém, enquanto utiliza sua câmera para espionar os vizinhos, ela testemunha algo perturbador.


O diretor Joe Wright, conhecido tanto pelo formalismo rígido das adaptações de Jane Austen que comandou, como pelo estilo com que conduziu O Destino de Uma Nação, passa o filme todo ansiando pelo momento onde conseguirá finalmente se desgarrar das amarras que a forma narrativa (engessada) lhe impõe. Nem mesmo a boa direção de arte, que faz do imenso apartamento um ambiente simultaneamente aconchegante e sem vida, salva a produção do marasmo.


Mas quando chega o momento de se libertar, Wright, sem medo do ridículo, abraça o kitsch e transforma A Mulher na Janela no legítimo filme B que por tanto tempo se recusou a ser. A deliciosa sequência em que uma facada fatal é desferida, por exemplo, reflete o efeito dominó que o diretor provoca, com a câmera procurando a reação estridente de Amy Adams em close up, a fotografia recorrendo a cores fortes e Danny Elfman enlouquecendo na trilha sonora, num daqueles instantes em que o espectador se pergunta ao que diabos está assistindo.


Essa curta passagem durante o terceiro ato simboliza uma ideia muito melhor escondida no projeto, mas que infelizmente foi descartada em prol de uma tolice que surfa na onda negra da pandemia. Argumentos soltos a respeito da depressão são jogados com o mesmo desleixo com que a produção aproveita seu ótimo elenco.


Se tivesse a coragem de se assumir, lá no início, como o filme B que inegavelmente é, essa "homenagem" escancarada a Janela Indiscreta (que surge no próprio filme em determinado momento) certamente seria muito mais divertida.


NOTA 4


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