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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Inspirado por "Corra!", "Convite Maldito" tropeça em roteiro superficial


Uma pessoa negra é convidada por uma pessoa branca para conhecer sua rica família (só de brancos) que vive isolada numa opulente mansão. Lá, sofre todos os tipos de preconceitos até descobrir um terrível segredo e temer por sua vida. Essa poderia ser a sinopse de Corra!, premiada obra de Jordan Peele, mas é na verdade a premissa de Convite Maldito, estreia da cineasta australiana Jessica M. Thompson em Hollywood.


No entanto, as semelhanças param por aí, pois o roteiro assinado por Blair Butler (Parque do Inferno) está longe de possuir o mesmo nível de inteligência e sofisticação exibidos pelo filme vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original. Apesar de escancarar suas intenções de servir como uma alegoria para críticas sociais e até flertar com comentários sobre luta de classes (comprovando a influência de Jordan Peele), Convite Maldito é um terror que se revela dos mais banais, o que dilui suas pretensões.

Afinal, uma obra que investe em diálogos rasteiros como “você é mais forte do que pensa” e “encontre a si mesmo” ou nada sutis como “os ricos agem como se fossem donos das pessoas” e “você é uma mestiça!”, soa até mais juvenil do que sua protagonista, que em pleno 2022 é inocente o bastante para acreditar ter encontrado um primo distante pela internet, aceitando encontrá-lo pessoalmente mesmo diante dos alertas feitos por sua melhor amiga. Como se não bastasse, a moça ainda topa viajar com o rapaz para o outro lado do mundo a fim de conhecer seus familiares recém-descobertos e que, claro, estão "ansiosos" por recebê-la.

Não ajuda o fato de o tal “primo” ser vivido por um Hugh Skinner (o Harry da série Fleabag) no auge de sua canastrice, abusando de caretas e investindo numa entonação afetadíssima que torna todas as suas cenas extremamente artificiais, contrastando com a performance carismática e segura de Nathalie Emmanuel que após surgir em Velozes e Furiosos 7 e roubar a cena nos dois últimos filmes da franquia Maze Runner, segue em ascensão em Hollywood, comprovando ser talentosa o bastante para protagonizar seu próprio filme.

Já o escocês Thomas Doherty dá mais um passo para longe dos papéis infantis desempenhados nos longas televisivos Descendentes (sucessos do Disney Channel), mas esbarra num personagem que exige pouco mais do que charme, sorrisos e declarações repentinas de amor, visto que não vai além do típico rico solitário que ostenta uma fachada sofrida enquanto, ironicamente, leva uma vida de excessos. O rosto de Doherty, aliás, parece uma inusitada combinação dos traços de Richard Madden (o Ikaris de Eternos) e Rami Malek (vilão do mais recente 007), o que não deixa de ser curioso.

Preguiçoso em suas tentativas de assustar o espectador, Convite Maldito é o tipo de terror que não vai além do básico, apostando em uma série de clichês que são facilmente antecipáveis. Estão lá a mão monstruosa que toca o ombro de algum desavisado, as velas que se apagam para sugerir a presença de algo sobrenatural e, claro, os vultos que atravessam a tela sem serem notados. Tudo acompanhado de acordes estridentes e súbitos da trilha sonora pouco inspirada de Dara Taylor (Bar Doce Lar).

Demonstrando alguma habilidade na construção da atmosfera, quase sempre sinistra e sugerindo que algo está prestes a acontecer, a diretora Jessica M. Thompson também faz bom uso das tomadas internas, aproveitando com relativa competência os cantos obscuros do velho casarão que serve de cenário. É uma pena que ela não exiba o mesmo virtuosismo ao filmar a ação, especialmente no terceiro ato, quando a produção sofre com sua incapacidade de construir combates corporais minimamente interessantes ou até mesmo compreensíveis, transformando a ação num amontoado de planos fechados e picotados pela montagem.

Assim, nem mesmo a reviravolta final, que para funcionar depende de algumas concessões relacionadas ao vilão e sua inspiração num clássico da cultura popular, redime Convite Maldito de seus fracassos como filme de gênero e também como crítica social, soando como uma tentativa atrapalhada de reproduzir a mistura que fez de Corra! uma das obras mais influentes dos últimos anos.


NOTA 4


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