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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Italiano "Entre Tempos" colapsa após início promissor

Em Roma, Lui é um sujeito depressivo e que anda pelos cantos procurando alguém para ouvir seus lamentos. Lei é uma mulher vibrante, de sorriso fácil e que mal consegue lembrar de um momento ruim de sua vida. Num belo dia, os dois acabam se conhecendo numa festa e, no melhor estilo “os opostos se atraem”, se apaixonam.


Essa história nós já vimos um milhão de vezes, é verdade. Algumas obras, mesmo com uma premissa tão superficial como essa, conseguem resultado acima da média, graças a abordagem que é adotada. Não se trata do assunto a ser abordado, mas como ele é abordado. O Cinema sempre foi assim. O primeiro diferencial de Entre Tempos, no entanto, é utilizar esse clássico ponto de partida para construir uma história sobre a natureza das lembranças.


Inicialmente, esse elemento rende pontos positivos, como a ideia de estruturar todo o filme em cima das lembranças, estabelecendo uma lógica de montagem que segue de perto uma simulação do fluxo de lembranças. Assim, quando Lui observa sua casa antiga e lembra de sua infância, o filme de Valerio Mieli imediatamente corta para uma passagem da infância do personagem. Há vezes que o ato de lembrar pode levar mais que um minuto, mas às vezes, pode levar uma fração de segundo, gerando apenas um flash na tela.


Esse artifício engenhoso de montagem rende bons frutos no primeiro ato, quando ainda estamos conhecendo Lui e Lei e mal nos importamos com suas divagações sobre a natureza das lembranças e seus reflexos na vida. Lui, por sinal, é completamente dominado por suas lembranças, o que o leva a uma verdadeira obsessão, adotando um modo de viver que se guia justamente por elas.


Não é à toa que o sujeito passa o tempo todo falando da memória e o quanto isso impactou na sua vida. E quando escrevo “o tempo todo”, não é exagero, já que nem mesmo durante o ato sexual o rapaz é capaz de se permitir um momento livre de seus pensamentos nostálgicos. “As coisas são bonitas porque acabam”, diz ele em certo momento, apenas para ser rebatido por Lei, “Não, elas são menos bonitas porque acabam”.


Lei, por sua vez, demora a perceber o relacionamento cáustico que possui com Lui, que aos poucos vai contaminando-a com seu ar triste e melancólico. Nesse aspecto, as performances do casal soam acertadas: enquanto o astro italiano Luca Marinelli (Meu Nome é Jeeg Robot) investe numa composição que se aproveita do visual desgrenhado, com direito a olheiras e roupas negras para criar um homem que desperdiça a vida dando importância demasiada a recordações, Linda Caridi não tem dificuldades para usar sua simpatia a favor de Lei, concebendo uma mulher radiante, mas que não deixa de usar sua inteligência para rebater as afirmações do namorado.


Infelizmente, tudo o que Entre Tempos tem a oferecer se esgota ainda no primeiro ato, evidenciando que o roteiro não se sustenta num longa-metragem. A montagem, que certamente demandou um trabalho hercúleo, cansa, assim como a química do casal vai se diluindo com a dinâmica previsível e sem nuances. Para piorar, o diretor Valerio Mieli tenta incluir passagens supostamente artísticas, mas falha em atribuir significados, resultando num esforço que soa apenas pretensioso.


O destaque fica por conta da fotografia, belíssima ao retratar uma Itália de múltiplas paisagens, desde campos enevoados até praias paradisíacas. A trilha sonora, embora nada fora do normal, não compromete a narrativa, complementando as imagens com extrema graça em seus melhores momentos. Uma pena que o filme dure intermináveis 106 minutos. Como curta-metragem tinha tudo para ser magnífico.


NOTA 4,5

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