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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Mesmo irregular, Até o Último Homem é um belo retorno de Mel Gibson

À primeira vista, Desmond Doss é um homem comum. Carinhoso com a família e extremamente devotado à esposa, Doss é um sujeito afável e trabalhador, mas que se vê obrigado a lutar na guerra depois de acompanhar os acontecimentos de Pearl Harbor e “levar para o lado pessoal” (segundo o próprio). Ao chegar à base norte-americana, não demora até que Doss se destaque entre os demais soldados, cumprindo com notável distinção seus deveres militares.


Porém, é na última etapa do treinamento militar que descobrimos quem Desmond Doss realmente é. Ao recusar-se a tocar numa arma, ele não só bate de frente com seus superiores e irmãos de guerra, como também desafia a lógica da Guerra. Doss acaba num conflito aparentemente paradoxal, mas que na realidade é muito simples. O fato é que Desmond é um cristão do tipo mais raro. O tipo de cristão que despreza hipocrisia, que segue seus princípios com convicção (ou fé) inabalável, não permitindo que seus ideais sejam moldados pelas circunstâncias e, o mais importante, que vai à guerra não para tirar vidas, mas sim para salvá-las.


É uma pena, portanto, que essa incrível história tenha sido adaptada pelos medianos Robert Schenkkan (O Americano Tranquilo) e Andrew Knight (Promessas de Guerra), que transformam Até o Último Homem numa experiência irregular, entrando em conflito com o tradicional estilo de direção de Mel Gibson (e que comentarei mais adiante).


Assim, o filme começa mergulhado numa densa camada de sentimentalismo barato, que fica ainda mais evidente ao observarmos até mesmo a composição de Andrew Garfield, que confere a Desmond uma aura de inocência absoluta enquanto emula um peculiar sotaque caipira. Além disso, a narrativa demora a se recuperar do constrangimento causado pelas cenas que ilustram a vida do protagonista antes da guerra, em momentos tão piegas que quase nos esquecemos que estamos assistindo a uma produção dirigida por Mel Gibson.


O cineasta, aliás, usa todo o seu talento para tentar recuperar o problemático primeiro ato, como ao conseguir chocar o espectador através da acertada aposta numa abordagem mais simples na hora de focar uma briga entre duas crianças. Infelizmente, Até o Último Homem só engrena mesmo quando Doss finalmente encontra seus colegas de farda, quando Gibson mostra-se mais confortável e comanda com segurança as sequências de treinamento. Nesses momentos, aliás, vale destacar a curiosa presença de Vince Vaughn como o comandante do pelotão, e se sua persona cômica ajuda durante as cenas que se passam na base, acaba atrapalhando irremediavelmente no restante da narrativa.


Já Luke Bracey finalmente tem a oportunidade de se redimir da fraquíssima refilmagem de Caçadores de Emoção, encarnando o soldado Smitty com competência similar à de Sam Worthington (o eterno Jake Sully de Avatar), que não decepciona mesmo tendo pouco tempo de tela. O destaque do elenco secundário, por sua vez, fica com Hugo Weaving (o eterno Agente Smith de Matrix), que confere profundidade a um personagem que poderia facilmente cair na caricatura caso fosse mal trabalhado.


Mas Até o Último Homem não teria sucesso se fosse protagonizado por um ator medíocre, e por isso tem a sorte de contar com Andrew Garfield, cuja entrega ao papel comove e inspira, investindo numa performance firme, carismática e sem se entregar ao exagero, mesmo que durante o primeiro ato seja induzido ao erro pelo roteiro.


Adotando a tradicional “câmera na mão” para mostrar a batalha, o filme tem seus melhores momentos quando a tropa finalmente chega à cordilheira Hacksaw do título original, causando impacto desde a escalada dos soldados (quando são surpreendidos por uma chuva de sangue) até os chocantes planos que exibem vísceras expostas e corpos mutilados no campo de batalha, quando Mel Gibson enfim pode se entregar à sua famigerada violência. E por falar nela, o trabalho de maquiagem da produção é louvável, sendo espantoso o grau de realismo atingido, transformando o filme numa experiência recomendada apenas para os mais tolerantes.


O excesso de computação gráfica também incomoda em alguns momentos, principalmente nos planos abertos e na natureza artificial de determinadas explosões. Mas no geral, a batalha principal é brilhantemente executada por Mel Gibson e o montador John Gilbert, chegando ao ápice nos instantes em que a trilha sonora deixa de ser genérica para ajudar a criar uma impressionante atmosfera de tensão. Assinada pelo fraco Rupert Gregson-Williams, a trilha sonora insiste num tom grandioso que só ressalta a natureza clichê dos seus acordes.


Tratando as mulheres como meros apoios, Até o Último Homem também é maniqueísta ao contar sua história do exclusivo ponto de vista estadunidense, convertendo os japoneses em monstros cruéis e impiedosos que sequer possuem falas, uma postura que não encontra reflexo em outras obras mais eficazes como Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood.


A impressão que fica, ao final, é que Até o Último Homem será mais lembrado pelo bem-vindo retorno de Mel Gibson à cadeira de diretor do que pela qualidade do filme em si, que apesar de estar longe de ser considerado ruim, também está muito aquém do potencial de sua extraordinária história.


NOTA 6,5

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