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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Meu Filho é Um Craque" chega aos cinemas mirando nos fãs de futebol


Théo (Maleaume Paquin) é um prodígio do futebol. Seu talento costuma salvar o seu time e é celebrado por todos, principalmente por seu pai Laurent (François Damiens), cuja única alegria na vida parece ser acompanhar o filho. Alcóolatra, ele passa longe de ser o pai perfeito, esquecendo de buscar Théo na escola e arrumando brigas durante seus jogos. Até que um dia, um olheiro do Arsenal, tradicional clube inglês, vai assistir a um jogo do time de Théo e se interessa pelas habilidades do menino, mas acaba desistindo da ideia de contratá-lo em virtude de sua baixa estatura.


No entanto, Théo vê a situação como a oportunidade perfeita para fazer seu pai mudar, pois devido ao fato de somente ele poder acompanhá-lo numa eventual carreira em Londres, devendo colocar sua vida nos eixos, especialmente abandonando a bebida. Théo, então, decide mentir, contando a todos que foi selecionado pelo olheiro, o que de fato acaba provocando uma série de mudanças em seu pai, orgulhoso do filho. Mas conforme a situação avança, o garoto passa a ter cada vez mais dificuldades para manter a farsa, dependendo da ajuda de um amigo hacker (Pierre Gommé) para falsificar e-mails do Arsenal, provocando uma bola de neve que coloca em xeque a capacidade de Théo em levar sua mentira adiante.

Convencional por natureza, o roteiro escrito pelo diretor Julien Rappeneau (em seu segundo longa-metragem), adaptado dos quadrinhos de Artur Laperla e Mario Torrecillas, adota uma estrutura esquemática que se apoia em clichês e convenções para construir o típico feel good movie, dependendo do carisma de seus personagens para conquistar o espectador. Ao final do primeiro ato, aliás, é possível prever todos os beats que se seguirão, pois Rappeneau não demonstra a menor intenção de fugir do básico.

Sua sorte é contar com atores extremamente simpáticos, especialmente Maleaume Paquin, que compõe Théo como um menino doce e cujo amor pelo pai é simplesmente irresistível, fazendo com que torçamos pelo sucesso de seu plano, mesmo sabendo os rumos que a história tomará a seguir. Enquanto isso, François Damiens, que brilhou no tocante A Família Bélier, comprova mais uma vez seu talento, encarnando o típico pai irresponsável, mas que não mede esforços para apoiar o filho. Confortável no papel, ele não tem dificuldades para retratar a forte ligação que Laurent possui com Théo, beneficiando-se também de uma química deliciosa com Paquin.

Com um elenco de apoio que inclui o sempre ótimo André Dussolier (Caixa Preta), o destaque fica por conta do jovem Pierre Gommé (A Chance de Fahim), que interpreta o hacker Max, personagem mais fascinante da produção em virtude de sua aparente agorafobia. É uma pena que o realizador não demonstre interesse em se aprofundar no drama de Max, limitando-se a referências superficiais (aquela envolvendo seu terapeuta) e sequências deslocadas (sua relutância em deixar o quarto).

Ademais, Meu Filho é um Craque possui o equilíbrio perfeito entre humor e drama, mesmo que as gargalhadas sejam mais esporádicas: contando com a direção confiante de Julien Rappeneau, que acertadamente foge do melodrama ao não pesar a mão nas cenas com maior potencial emotivo, a produção jamais deixa de oferecer uma experiência agradável. E mesmo que invista numa parcela problemática de diálogos expositivos, o que enfraquece irremediavelmente o final, por exemplo, graças a sequências artificialmente didáticas que mastigam várias informações para o espectador, os problemas de seu roteiro também são contornados por uma montagem que mantém o ritmo sempre ágil.


Causando estranheza por marcar presença num festival famoso pelo vanguardismo de sua curadoria, Meu Filho é um Craque esforça-se para se manter fiel a um público pouco exigente, conservador até, contentando-se com uma história feita sob medida para abrilhantar futuras sessões vespertinas.


* Crítica publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2022


NOTA 6

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