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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Narrativa em tempo real é o principal atrativo de "90 Minutos"


Quando penso num exemplo de filme que segue um motorista dirigindo e telefonando durante toda ou grande parte da projeção, Locke, com Tom Hardy, me vem imediatamente à cabeça. E após assistir a Nightride (no original), Locke continuará vindo.


Na trama, o irlandês Moe Dunford (da série Vikings) interpreta um

traficante de drogas executando um engenhoso plano para finalmente deixar a vida do crime e formar sua própria família, mas algo dá errado e transforma sua noite num inferno.


Gravado em tomada única, estilo que recentemente consagrou Birdman e 1917 (ambos vencedores do Oscar), 90 Minutos tem início no interior da casa do protagonista e, a partir daí, o segue ininterruptamente em todas as ações. O que, na prática, significa acompanhá-lo no interior do carro efetuando e recebendo telefonemas pelo sistema do veículo, um tipo de narrativa cujo sucesso é determinado especialmente pela performance do protagonista.

E Moe Dunford, que ano passado também esteve em O Massacre da Serra Elétrica, é bastante esforçado e exibe algum carisma, mas está anos-luz atrás de Hardy, que carregou o supracitado Locke nas costas. Além disso, o cineasta Stephen Fingleton (indicado ao BAFTA por The Survivalist) até possui boas inspirações (as referências a Michael Mann comprovam isso), mas seu filme perde força a cada vez que o motorista precisa sair do carro, chegando ao ápice na artificial sequência em que confronta um perseguidor.

O ritmo é ótimo durante o primeiro ato, lembrando a tensão provocada por Locke e envolvendo ao trabalhar bem com as expectativas que cria (o silêncio de cada chamada não atendida aumenta a ansiedade). Ao superar o primeiro plot point, porém, 90 Minutos começa a perder força, entregando-se a artifícios que prolongam a narrativa e diluem o suspense, como toda a sequência envolvendo um colega do protagonista, que por sua vez resolve ganhar tempo dentro e fora da narrativa.

O espectador deixa de roer as unhas, para franzir a testa diante de percalços que se avolumam, mas desviam do foco inicial, desajeitadamente desenvolvido pelo roteiro, que esquece também de fornecer motivos para nos importarmos com os coadjuvantes. Apesar de fotografado com relativa desenvoltura (aproveitando o contraste da iluminação amarelada das ruas com o brilho branco no interior do carro), o filme carece de um design de som mais cru e a opção clean se mostra um equívoco ao nos lembrarmos do ótimo Drive e suas inquietantes sequências noturnas.

Recupera-se, no entanto, durante o terceiro ato, quando resgata um pouco da tensão construída no início ao elevar os riscos encarados pelo protagonista, beneficiando-se também de um final recompensador, mas que ratifica o primeiro parágrafo: 90 Minutos passa longe de ser um Locke ou de alcançar o brilhantismo técnico de Drive, servindo como um exercício de estilo moderadamente instigante e nada mais.


NOTA 5,5

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