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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Novo "Predador" recomeça a franquia com olhar feminino e ação visceral

Atualizado: 31 de ago. de 2022

Na última sexta-feira (5), o Star+ lançou O Predador – A Caçada (Prey, no título original) mais novo filme do Predador, celebrado monstro do Cinema cujo espetacular primeiro filme estreou em 1987 e iniciou uma franquia que até hoje não foi capaz de gerar uma produção à altura de sua estreia.


O “feioso filho da mãe” além de estrelar três continuações (a mais recente em 2018) ainda saiu no braço com o Alien em dois crossovers: o primeiro em 2004 (o divertido Alien vs. Predador) e o segundo em 2007 (o atroz Alien vs. Predador 2).

O CONTEXTO


Um ano antes de presentear o mundo com o melhor filme natalino de todos os tempos (Duro de Matar, é claro), e um ano após estrear no Cinema com o obscuro Delírios Mortais, John McTiernan foi o escolhido para dirigir um longa-metragem que viria a ser estrelado por ninguém menos que Arnold Schwarzenegger, astro cuja carreira em Hollywood já incluía sucessos como Conan – O Bárbaro (e sua continuação), O Exterminador do Futuro e Comando Para Matar.


Numa época em que brucutus anabolizados arrastavam multidões aos cinemas para vê-los exalando masculinidade (e frases de efeito) enquanto dizimavam vilões e figurantes, O Predador chegava às telonas com a incomum proposta de oferecer um inimigo à altura de seu tradicionalmente robusto protagonista. Indo na contramão da Indústria, dessa vez os machões seriam as vítimas.


Isso porque o vilão da vez, na verdade, era de outro mundo. Altamente inteligente e dotado de equipamentos extremamente avançados, o Predador parecia estar na Terra apenas para caçar e a pequena tropa liderada pelo Major Dutch (Schwarzenegger) teve a infelicidade de cruzar o seu caminho. Desbravando uma selva sul-americana em missão de resgate, os militares eram brutalmente mortos em sequências que abusavam de sangue e criatividade. O Predador dava cabo de um por um, fazendo referência às táticas de guerrilha responsáveis pela derrota do exército estadunidense na Guerra do Vietnã.


O final, ponto alto da narrativa, apresentava um embate que fazia jus a toda expectativa criada durante o desenvolvimento da história, com uma caçada que empolgava por envolver muito mais inteligência do que força bruta e os ótimos efeitos especiais davam um show à parte.


HISTÓRIA


Ignorando completamente os eventos do fraco filme anterior, O Predador – A Caçada se passa em 1719, com as Grandes Planícies do Norte servindo de cenário. O roteiro, desde o início, reverbera a mitologia da franquia, que ao longo de suas produções estabeleceu que o Predador visita a Terra desde a antiguidade. Aqui, a lenda do alienígena caçador é contada do ponto de vista de uma tribo comanche, mais precisamente de uma jovem aspirante a guerreira chamada Naru.


PERSONAGENS


Atriz com papéis recorrentes em séries menos badaladas como Legião e Roswell, New Mexico, Amber Midthunder, que também é membro da tribo Sioux, localizada na reserva Fort Peck, nos Estados Unidos, foi selecionada para interpretar a destemida protagonista. Carismática e repleta de energia, ela surge confortável empunhando armas brancas e se move com impressionante agilidade, características que trazem credibilidade ao papel e que transformam Naru numa personagem forte não apenas dramaticamente, como também fisicamente.


Assim como acontece em outros filmes do gênero, incluindo os da franquia Predador, os demais personagens jamais são desenvolvidos pelo roteiro, que claramente está mais interessado em criar vítimas para o implacável alienígena. Mas o espectador não tem muitos motivos para lamentar as várias mortes envolvendo os membros da tribo de Naru, pois a maioria torce o nariz para a garota.

DISCURSO POLÊMICO


O roteiro escrito por Patrick Aison (outro vindo de modestas séries de TV) a partir de uma ideia concebida ao lado do diretor Dan Trachtenberg, substitui o contexto machão tão presente no primeiro filme por um ambiente mais condizente com a atualidade (ainda que historicamente fiel), onde a masculinidade tóxica é palpável e a misoginia é sentida na pele através de Naru, uma jovem mulher tentando ser respeitada num mundo de homens.


Em sua tribo, somente homens caçam, cabendo às mulheres tarefas mais caseiras e sem riscos. Claro que Naru não aceita essa função pré-estabelecida e luta (literalmente em alguns casos), para conquistar seu espaço junto aos homens. Ela quer ser caçadora, afinal. Porém, não importa o quanto Naru treine ou se prepare, ela é sempre preterida pelos outros. Como convencê-los de que ela é capaz?


O sonho de caçar deve ser chancelado por um ritual onde o aspirante encara um forte nêmeses, geralmente um animal de grande porte que deve ser derrotado para mostrar que se está pronto para o ofício. E enquanto seus semelhantes caçam lobos, leões e ursos, a pobre Naru terá de enfrentar justamente... um Predador! Nada é fácil na vida da moça...

O PREDADOR DOS PREDADORES


O roteiro estabelece uma motivação particular para reger o Predador. Assim como no filme de 1987, o Predador está na Terra à procura da presa mais forte, caçando os humanos até encontrar alguém que se revele um oponente à altura. Para ilustrar, o filme faz questão de apresentar uma sequência em que um roedor surge na tela por poucos segundos antes de ser devorado por uma imensa cobra que, imediatamente, é morta pelo Predador.


Assim, A Caçada demonstra ainda no primeiro ato e com perfeição o papel que o alienígena desempenhará na trama, colocando-se como o maior predador do território. A produção, porém, acaba sendo redundante ao apostar em outra sequência como essa, num momento descartável com o monstro encarando um lobo.

VISUAL


O predador que desembarca na América do Norte é ligeiramente diferente daqueles vistos nos filmes anteriores da franquia. Ele não utiliza seu característico capacete metálico, por exemplo, adotando um visual mais primitivo. O que, aliás, é refletido em seus aparatos que, embora ainda letais, estão muito longe da modernidade exibida no primeiro filme. Aqui, o Predador usa um capacete feito por um material semelhante a um osso, dispõe de um inédito escudo retrátil e até a sua famosa bomba possui um aspecto diferente.


Méritos para o design de produção que, diante dos desafios impostos pela presença de uma civilização que ainda usa arco e flecha, opta acertadamente por impedir que a diferença tecnológica seja tão discrepante. A Caçada também exibe um ótimo e surpreendente trabalho de ambientação, mesmo dispondo de poucos recursos. O acampamento comanche preza pela verossimilhança, com tendas, cabanas e armas brancas recriadas em detalhes.


Já Jeff Cutter (da série The Boys) é obrigado a compor a fotografia exagerando na neblina em alguns momentos para esconder as limitações do departamento de efeitos visuais. Há uma sequência de ação específica na segunda metade da projeção em que os movimentos pouco fluidos do Predador denunciam sua natureza digital, soando como um boneco pulando pelas árvores.

A SONORIDADE


Em contrapartida, a trilha sonora de Sarah Schachner (conhecida pelos trabalhos na série de games Assassin’s Creed) é fantástica justamente por ater-se à simplicidade. Os fãs do primeiro filme talvez fiquem um pouco desapontados com a ausência de referências ao tema do grande Alan Silvestri, mas a ruptura completa que a compositora promove traz um frescor muito bem-vindo à série, ao mesmo tempo em que os sons tribais (graças à incorporação de tambores) ecoam elementos narrativos.


Já o design de som entrega exatamente o que se espera, resgatando todos os efeitos sonoros clássicos: estão no filme a textura sonora dos momentos em que a câmera assume a perspectiva da visão de calor do Predador, os ruídos do monstro e, claro, seu urro indefectível.


CONEXÕES COM OS ANTERIORES


Se o decepcionante filme anterior é solenemente ignorado, A Caçada promove uma homenagem aos dois primeiros filmes, ao colocar um dos personagens para proferir uma clássica frase do personagem de Schwarzenegger e também ao trazer a mesma pistola rudimentar vista em O Predador 2 – A Caçada Continua (repare no nome presente na arma). No entanto, a produção felizmente busca trilhar seu próprio caminho.

A AÇÃO


Mais intenso até mesmo do que o primeiro filme, que dependia demais da trilha sonora e do choque visual para manter o espectador apreensivo, o diretor Dan Trachtenberg (acostumado ao suspense depois de comandar o bom Rua Cloverfield, 10) elabora sequências de ação viscerais, com planos abertos que valorizam as coreografias de combate, com destaque para o plano longo que retrata o ataque de Naru a inimigos humanos (comentarei mais adiante), mostrando a agilidade com que a moça executa seus precisos golpes.


Ao manter o Predador quase sempre invisível (sua primeira aparição completamente nítida só acontece aos 50 minutos de projeção), a produção economiza com efeitos visuais, mas abusa da tensão, gerando uma atmosfera de perigo que permeia toda a narrativa. A Caçada também é a continuação mais violenta da franquia, resgatando a brutalidade presente no primeiro filme através de decapitações, membros decepados e uma infinidade de animais mortos.


Infelizmente, o desejo desesperado da produção em replicar o confronto final do filme de 1987 resulta numa sequência frustrante ao trair a inteligência do Predador. Sem entrar em detalhes, ao lembrar das dificuldades enfrentadas por Dutch para vencer o alienígena, o embate, tão aguardado em virtude da sensação de antecipação gerada pelo roteiro, acontece de forma pouco convincente, não apenas em função da evolução meteórica de Naru, mas também por um detalhe (não darei spoiler) que enfraquece o vilão.

INIMIGOS HUMANOS


O Predador não é o único adversário de Naru, pois comerciantes de pele franceses dão as caras no segundo ato. E seus efeitos na natureza são tão hediondos quanto os provocados pelo vilão alienígena, levantando um questionamento fascinante sobre quem seria o verdadeiro predador naquela situação. Truculentos, gananciosos e deixando um rastro de destruição, os franceses vistos em O Predador - A Caçada são tão perigosos para a tribo comanche quanto o monstro.


PREDADOR MACHISTA?


Há várias situações que mostram os indígenas tentando entender os métodos de caça do alienígena. Em uma conversa, Naru ouve que o Predador não a enxerga como uma ameaça, o que acaba se concretizando mais a frente. Assim como aconteceu em Alien vs. Predador, quando o caçador mostrou-se misericordioso ao poupar a vida de um inimigo visivelmente doente, A Caçada volta a incrementar seu arcabouço moral, adicionando uma camada controversa, mas que corrobora o discurso igualitário da obra.


BRECHA PARA CONTINUAÇÃO


Fique atento, pois os créditos finais, embutidos numa sequência animada que resgata vários momentos do filme, guardam uma breve (e sutil) surpresa ao final.


RESUMO DA ÓPERA


O Predador – A Caçada é eficaz como filme de ação, proporcionando uma experiência tensa e com sequências de ação quase sempre cruas e viscerais. Mesmo que derrape em sua conclusão, quando o conflito com o Predador acaba por não compensar toda a expectativa criada, o filme se apresenta facilmente como a melhor continuação já produzida com o personagem, mesmo que isso não seja grande coisa.


A pauta feminista, assumindo o risco de afastar os fãs mais conservadores e apegados à época do primeiro filme, representa um frescor narrativo surpreendente ao trazer a mulher para o centro da franquia, gerando uma protagonista forte e com potencial para ser explorado numa possível continuação.


NOTA 7


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