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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Operação Hunt" traz astro de "Round 6" em trama de espionagem


Desde que surgiu pela primeira vez no essencial O Gabinete do Doutor Caligari em 1920, o plot twist vem seduzindo plateias ao redor do mundo. Traduzido como “reviravolta”, trata-se de uma revelação tão impactante que acaba por representar uma mudança drástica numa trama. Como exemplo, muitos devem se lembrar de O Sexto Sentido, cujo plot twist envolvendo a condição do psicólogo vivido por Bruce Willis era tão marcante que simplesmente ressignificava tudo o que havíamos assistido até então. Não à toa, o efeito foi tão espetacularmente construído e apresentado que catapultou a carreira do então promissor cineasta M. Night Shyamalan. Que ele tenha sido engolido pelas próprias pretensões (e pelas expectativas do público), sabotando-se através da necessidade de sempre incluir reviravoltas em seus filmes, é pauta para uma outra conversa. Outros cineastas souberam lidar melhor com o conceito e o britânico Alfred Hitchcock talvez tenha sido quem mais soube capitalizar em cima disso, presenteando o público com algumas das mais deliciosas reviravoltas da História do Cinema (quem não se lembra de Psicose?).

Seguindo os passos de Intriga Internacional, thriller hitchcockiano que colocou Cary Grant para sobreviver ao fogo cruzado do mundo da espionagem, Operação Hunt tem todas as características do subgênero que consagrou a obra supracitada: traições, perseguições, muita ação e uma atmosfera de suspense que provocaria um largo sorriso no rosto rotundo do mestre do suspense. Mais do que isso, Heon-teu (no original) possui não apenas uma, mas várias reviravoltas em seu enredo, revelando que seus roteiristas gostaram tanto do conceito que praticamente estruturaram toda a história sobre ele.

Ambientado na década de 80, quando as Coreias do Sul e do Norte travavam uma guerra fria pautada pela paranoia, o longa começa com centenas de estudantes sul-coreanos protestando contra a lei marcial, resultando num massacre impiedoso pelas mãos da polícia, que representava os interesses de um governo opressor e desesperado, algo que era refletido pela agência de inteligência do país, preocupada com o crescimento da probabilidade de haver um agente duplo infiltrado na organização. Tudo piora quando é descoberto um complô para assassinar o presidente, dando início a uma caça às bruxas que coloca dois experientes agentes em rota de colisão.

Protagonizando, escrevendo e dirigindo (pela primeira vez), Lee Jung-jae, astro do fenômeno da Netflix Round 6 (série pela qual venceu o Emmy esse ano) tem sido peça-chave na divulgação de Operação Hunt, o que poderá levar desavisados aos cinemas esperando por um longa-metragem orientado para as massas, quando o próprio roteiro vai na contramão das tendências comerciais. Não pela falta de ação ou conteúdo, mas pelo excesso num modo geral, especialmente se tratando das já citadas reviravoltas.

Espetacular em seus trinta minutos iniciais, Jung-jae mostra suas credenciais como diretor de ação, mantendo a câmera na mão e sempre próxima dos personagens (e consequentemente da ação), ele revela um olhar apurado para as sequências mais explosivas, imprimindo energia e surpreendendo com ângulos arrojados (como quando uma granada estoura na frente do protagonista). Os enquadramentos inquietos, reforçados pela fotografia de tons azulados, mas sempre suja, contribuem para essa sensação de ansiedade que permeia toda a narrativa.

Tendo comprovado o seu talento como ator, Lee Jung-jae surge extremamente carismático num papel que tem tudo para consolidá-lo como o astro internacional que Round 6 já projetava, saindo-se admiravelmente bem ao acumular funções, especialmente quando lembramos que ele está dirigindo a própria performance. Seguro, ele convence como herói de ação, mas sofre com um personagem opaco em termos dramáticos, mesmo contando com uma história secundária que tenta explorar seu lado mais humano (detalhes adiante).

Já como roteirista, o sul-coreano revela ter sucumbido aos encantos do plot twist ao adicionar uma série deles. A narrativa já inchada pelo excesso de subtramas (aquela envolvendo um relacionamento do protagonista com uma jovem poderia ser descartada facilmente), torna-se difícil de acompanhar à medida em que o script vai adicionando camadas aos jogos estratégicos dos espiões. Confuso, o público tenderá a se concentrar nas várias sequências de ação, que além de bem coreografadas, mantém a trama em constante movimento, com pouquíssimo tempo de respiro (uma proeza se tratando de uma projeção que supera as duas horas de duração).

Assim, em sua obsessão com as reviravoltas, Operação Hunt faz de tudo para se sabotar em seu terço final, quando enfileira plot twists até os últimos segundos (literalmente), fazendo com que a trama, já rocambolesca, se entregue ao ridículo. Em seus ziguezagues narrativos, porém, nunca deixa de ser agradável ver Lee Jung-jae com total domínio da cena, seja na frente ou por trás das câmeras.


NOTA 6,5


* Filme visto durante o Festival do Rio 2022

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