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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Oscar 2023 | Previsível, Academia segue em busca do público jovem

No último domingo aconteceu a tradicional cerimônia de entrega do Oscar, encerrando uma temporada de premiações marcada pela presença de grandes sucessos de bilheteria, como “Avatar: O Caminho da Água” e “Top Gun: Maverick”. Sem muitas surpresas, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, no entanto, optou por consagrar “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, produção de orçamento modesto e que dividiu o público. Ao todo foram sete estatuetas: Filme, Direção (para Dan Kwan e Daniel Scheinert), Atriz (Michelle Yeoh), Roteiro Original (também para os Daniels), Atriz Coadjuvante (Jamie Lee Curtis), Ator Coadjuvante (Ke Huy Quan) e Montagem (Paul Rogers). Outro que se saiu bem foi o remake alemão “Nada de Novo no Front”, vencedor em quatro categorias (Filme Internacional, Fotografia, Trilha Sonora e Design de Produção). Por outro lado, chamou atenção o número de produções badaladas que saíram de mãos vazias como “Os Fabelmans”, de Steven Spielberg, “Elvis”, “Tár” e “Os Banshees de Inisherin”, este último perdendo em todas as nove categorias nas quais concorreu.

Numa cerimônia mais sóbria e sem sobressaltos, Jimmy Kimmel, anfitrião pela terceira vez, chegou ao palco de paraquedas após uma divertida montagem colocá-lo ao lado de Tom Cruise num caça de “Top Gun: Maverick” e logo tratou de tirar o elefante da sala ao fazer troça do infame episódio envolvendo o tapa de Will Smith em Chris Rock, que na edição passada ofuscou a vitória do fraco “No Ritmo do Coração”. Num monólogo mais ácido que o de costume, o comediante brincou com a quantidade de irlandeses indicados “aumentando os riscos de haver uma nova briga no palco” e alfinetou a indústria hollywoodiana cuja “crise de criatividade é tão grave, com tantas continuações e refilmagens, que até Steven Spielberg acabou fazendo um filme sobre ele mesmo”. Mas Kimmel parece ter gasto todo o seu arsenal já em sua abertura, passando o restante da noite sem muito brilho ao adotar um tom mais ameno e complacente, com exceção feita para o momento em que levou ao palco o simpático burrinho que contracenou com Colin Farrell em “Os Banshees de Inisherin”. Faltou coragem para seguir na linha ousada de suas primeiras intervenções.

Os prêmios também não ajudaram muito, pois não houve espaço para o inesperado. Ciente dessa possibilidade, a organização acertou ao colocar as barbadas para iniciarem os trabalhos, com “Pinóquio por Guillermo Del Toro” confirmando seu favoritismo em Animação e “Ke Huy Quan” coroando uma trajetória quase invicta na temporada de premiações. O vietnamita, Melhor Ator Coadjuvante por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” foi um dos grandes personagens da noite, demonstrando empolgação ainda na plateia e fazendo um belo e emocionado discurso ao receber a estatueta, quando lembrou das décadas afastado das telona. Em tom semelhante, sua colega de elenco Jamie Lee Curtis, filha dos lendários Janet Leigh (“Psicose”) e Tony Curtis (“Quanto Mais Quente Melhor”) agradeceu a celebração de quarenta anos de carreira dedicados a filmes de gênero (ela é a estrela da franquia de terror “Halloween”) ao aceitar o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante.

Claro que a Academia não deixaria de homenagear os dois maiores sucessos de bilheteria do último ano, reservando a categoria de Som para “Top Gun: Maverick” e a de Efeitos Visuais para “Avatar: O Caminho da Água”. Curiosamente, Tom Cruise e James Cameron não compareceram à cerimônia e a ausência da dupla, como não poderia deixar de ser, foi ironizada por Jimmy Kimmel (“os dois caras que insistem que você vá ao cinema, não foram ao cinema”). Enquanto Cruise já havia sido apontado pelo cineasta Steven Spielberg como o “salvador da Indústria” durante o almoço dos indicados, Cameron foi lembrado por Kimmel como o realizador de três das quatro maiores bilheterias de todos os tempos (“Avatar”, “Avatar: O Caminho da Água” e “Titanic”).

Para se apresentar no tradicional segmento “In Memoriam”, destinado a homenagear os artistas falecidos desde a última premiação, a organização escolheu o cantor Lenny Kravitz, quatro vezes vencedor do Grammy e que recentemente apareceu na comédia “Casamento Armado”. Trata-se de uma bem-vinda tentativa de fugir da pieguice que normalmente toma conta desse momento da cerimônia, com “Calling All Angels” substituindo as desgastadas “Over the Rainbow” e “Hallelujah”. Apesar de incluir nomes como Jean-Luc Godard, Angela Lansbury, Ray Liotta e Gina Lollobrigida, algumas ausências foram sentidas, como as de Anne Heche (“Seis Dias, Sete Noites”) e Tom Sizemore (“O Resgate do Soldado Ryan”), porém, a mais estranha foi a de Charlbi Dean, que esteve no elenco de “Triângulo da Tristeza”, um dos indicados a Melhor Filme na noite e que faleceu poucos meses após a estreia mundial do filme.

Por falar em apresentação musical, uma das pouquíssimas surpresas da noite foi justamente a reviravolta envolvendo Lady Gaga, indicada em Melhor Canção Original: Sua presença tinha sido descartada por conta das gravações de seu novo filme (a continuação de “Coringa”), mas poucas horas antes do início da cerimônia, noticiou-se que ela havia conseguido uma brecha em sua agenda e cantaria ao vivo “Hold My Hand”, que compôs para “Top Gun: Maverick”. Surgindo sem maquiagem e com figurino casual (camisa básica, calça jeans rasgada e tênis), a atriz e cantora vencedora da categoria em 2019 pelo hit “Shallow” de “Nasce Uma Estrela”, surpreendeu ao optar por uma apresentação mais intimista, com poucos instrumentos e sem adereços cênicos, indo na contramão de suas colegas ao apostar apenas em seu talento vocal, arrancando aplausos no Dolby Theatre, mas dividindo os telespectadores que esperavam um show bombástico ao invés da versão acústica apresentada. No entanto, a balada romântica da cantora estadunidense acabou preterida pela dançante “Naatu Naatu”, da extravagante produção indiana “RRR”, que seduziu a Academia com uma coreografia irreverente e talhada para viralizar.

Embora tenha negado uma participação em vídeo do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, a Academia não resistiu em premiar “Navalny”, Documentário em Longa-Metragem sobre a tentativa de assassinato sofrida pelo maior rival político do presidente russo Vladimir Putin (e que está preso sob alegações controversas), enquanto “Nada de Novo no Front” foi além da vitória como Filme Internacional e também abocanhou os prêmios de Fotografia (que com a derrota de Mandy Walker por “Elvis” permanece como única categoria jamais vencida por uma mulher) e Trilha Sonora, derrotando de quebra o favorito “Babilônia” em Design de Produção. E se a performance de “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” ficou aquém de seu antecessor, que faturou três estatuetas em 2019, ao menos marcou época com o único prêmio que ganhou (Melhor Figurino), fazendo de Ruth E. Carter a primeira mulher negra a conquistar dois Oscars.

Melhor Atriz por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, Michelle Yeoh foi outra a escrever seu nome na história ao se tornar a primeira atriz asiática a ser premiada pela Academia, impedindo a australiana Cate Blanchett (pela brilhante performance em “Tár”) de levar para casa sua terceira estatueta, igualando-se a Meryl Streep como segunda maior vencedora (atrás apenas de Katherine Hepburn, com quatro). Aplaudida de pé, Yeoh fez uma ode às mães (“Sem elas, não existiríamos. Minha mãe sempre me deu muita confiança”) e encorajou atores mais velhos, vítimas de preconceito na Indústria (“Depois de 40 anos, estou aqui. (...) Não deixe ninguém te colocar numa caixinha e não acredite que seu auge já foi.”)

Assim como vem acontecendo nos últimos anos, o Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo acabou antecipando o de Melhor Ator, com ambos os prêmios indo para o mesmo filme. Por “A Baleia”, Brendan Fraser teve sua performance escolhida como a melhor do ano, sacramentando a retomada de sua carreira após anos na obscuridade em função de problemas psicológicos (frutos de um episódio de assédio sofrido durante uma cerimônia de entrega do Globo de Ouro). Aos prantos, o astro da trilogia “A Múmia” agradeceu ao diretor Darren Aronofsky (“Eu comecei na indústria há 30 anos e nem sempre foi fácil, mas eu só reconheci quando acabou (...) obrigado por jogar uma isca e me içar de volta para Hollywood”).

Nem Spielberg, nem Tom Cruise, foram os “Daniels” (Kwan e Scheinert) que acabaram subindo mais vezes ao palco. Vencedores dos prêmios de Melhor Roteiro Original, Melhor Direção e Melhor Filme por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, eles fizeram discursos bem humorados e sinceros. Enquanto Kwan admitiu que seu filme é “maluco”, Scheinert preferiu relembrar seus tempos escolares, citando os nomes de seus professores (“eles mudaram minha vida, a maioria professores de escola pública”) ao agradecer a “escolha ousada” da Academia.

O anúncio do Oscar de Melhor Filme coube a Harrison Ford, que pausadamente confirmou o sétimo prêmio de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, definindo-o como o maior vencedor desde 2014, quando “Gravidade” ganhou o mesmo número de categorias, mas não a principal da noite (vencida por “12 Anos de Escravidão”). Quis o destino (leia-se: os membros da Academia), que o palco recebesse o reencontro de Ford com Ke Huy Quan, o intérprete de Short Round em “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. O 95º Oscar também consagrou a produtora A24, que além de ter se tornado o primeiro estúdio a vencer todos os prêmios principais, foi também o mais premiado da noite. Já em relação ao streaming, a AppleTV+, vencedora do Oscar de Melhor Filme no ano passado com “No Ritmo do Coração”, levou apenas o prêmio de Melhor Animação em Curta-Metragem (“O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo”) e viu a Netflix sagrar-se vencedora em seis categorias, ficando atrás apenas da supracitada A24 com nove.

A predileção dos votantes do Oscar por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” não é fortuita, pois além das notórias qualidades apresentadas, a obra permitiu à Academia mostrar que segue empenhada em aumentar a diversidade de sua premiação e se aproximar do público jovem, duas diretrizes tratadas com urgência (a boa e velha cajadada sobre dois coelhos), especialmente após o movimento #OscarSoWhite e a queda na audiência. De acordo com dados da A.M.P.A.S. (sigla em inglês da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas), cerca de 47% dos mais de 9.400 membros votantes foram convidados nos últimos sete anos, refletindo essa busca por renovação e que já vem mostrando resultados (antes de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, “Parasita” ganhou em 2020). Isso sem contar a fracassada tentativa de implementar uma categoria de “Filme Popular”.


A verdade é que faz tempo que a Academia já não é comandada por “velhinhos” e a preferência por filmes cada vez mais alinhados a uma crença de modernidade é uma tendência que veio para ficar.


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