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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"PéPequeno" investe em musical clássico para incentivar o pensamento crítico

Embora seja uma produtora quase centenária, a Warner Bros. só foi lançar seu primeiro filme animado em 2014, com Uma Aventura Lego inaugurando o selo Warner Animation Group (WAG). E mesmo que seja associado aos Looney Tunes, a verdade é que o estúdio apenas distribuía as produções de Pernalonga e cia. Por isso, PéPequeno é apenas o quinto longa-metragem da WAG e o quarto totalmente animado, já que Uma Aventura Lego contou com cenas live action. E depois de estrear (perdoe o trocadilho) com o pé direito, é seguro dizer que a empresa ainda não decepcionou, pois PéPequeno, apesar de não contar com o frescor do filme das peças de encaixar, é bom o bastante para justificar os investimentos do estúdio.


Baseado numa ideia dos cineastas John Requa e Glenn Ficarra (de Amor a Toda Prova), e adaptado do livro de Sergio Pablos, o roteiro de Karey Kirkpatrick (que também assume a direção) e Clare Sera (Juntos e Misturados) narra a história do Yeti, também conhecido por aqui como Abominável Homem das Neves, mas com o inusitado ponto de vista da criatura. Ou “criaturas”, já que o filme é ambientado na própria vila dos Yetis, que vivem pacificamente no topo do Himalaia e longe dos olhos humanos que, por sinal, são encarados como meros monstros imaginários.


O protagonista é Migo, um simpático Pé Grande responsável por auxiliar seu pai a tocar o gongo que “desperta” o Sol, trazendo luz a toda a comunidade. Sonhando ser o próximo tocador oficial do gongo, ele está sempre animado para praticar a função com o pai, mas, num belo dia, Migo acidentalmente é arremessado para fora da comunidade.


Não bastasse ter de fazer todo o caminho de volta, o Pé Grande ainda presencia um acidente de avião que o coloca em contato direto com um humano, que acaba conseguindo fugir. Ainda em estado de choque ele tenta alertar seus conterrâneos sobre a veracidade da lenda, mas é prontamente ignorado, visto que está escrito nas pedras sagradas que humanos não existem. Como é de se imaginar, Migo não descansa até encontrar outro humano e provar que estava falando a verdade, nem que para isso tenha que descer a montanha.


Essa questão das pedras sagradas, como é possível deduzir, funciona como uma metáfora à crença cega na tradição estabelecida e é trabalhada pela produção como uma forma de negar aos Yetis o direito ao questionamento. Afinal, o povo sempre recebe os conselhos do Guardião das Pedras como a verdade absoluta, como se uma pequena rocha fosse capaz de determinar o que alguém deve ou não fazer.


E essa mensagem pró-questionamento é o que de melhor PéPequeno tem a oferecer, principalmente aos mais novos, que são incentivados a procurar a verdade independente de quem (supostamente) a propaga. Até mesmo os mais velhos têm o que extrair dos ensinamentos do longa, ainda mais em tempos de fake news. É evidente, por outro lado, que a tentação pelo texto motivacional acaba sendo forte demais (sempre acredite em você mesmo), mas a nobre intenção de estimular o esclarecimento dos mais jovens é recompensadora demais para ser ignorada.


Reforçando a acidez do subtexto ao atribuir banimento àquele que ousa duvidar das pedras, o longa também é capaz de divertir, utilizando a narrativa clássica para construir uma história repleta de gags das mais variadas, com destaque para o humor pastelão, tão popular entre as crianças. Porém, como uma animação clássica, é claro que PéPequeno inclui diversas sequências musicais. Com nove números, a produção infelizmente tem dificuldades de manter a boa qualidade de “Wonderful Life” (interpretada por Jullie na versão brasileira), desde já candidata a uma indicação ao Oscar de Melhor Canção Original, que empolga ao combinar melodia agradável e letra edificante.


Em contrapartida, a paródia de "Under Pressure" é um tiro que sai pela culatra, destoando das outras músicas ao surgir repentinamente e de forma desconexa, isso para não mencionar a letra pedestre (note a dificuldade ao encaixar o refrão). Felizmente, a maioria segue à risca a cartilha do gênero, com sequências que alternam momentos vibrantes (como a que abre a projeção) com aqueles mais intimistas (a outra versão de "Wonderful Life").


Como já era de se esperar, a dublagem brasileira, a cargo da excepcional Delart Rio, faz mais um grande trabalho, trazendo nomes consagrados como Marcelo Garcia (Migo), Luiz Carlos Persy (Guardião das Pedras), o grande Guilherme Briggs (Gwangie) e até mesmo Wellington Muniz, ou Ceará, (Thorp), que não decepciona. Com uma paleta de cores tomada pelo branco e com leves toques de azul (lábios, mãos e pés) graças às paisagens e os Yetis, a produção faz o que pode para incluir algum elemento colorido, o que fica a cargo dos inventivos caracóis que servem como fonte de iluminação para a vila.


Outro ponto a se destacar fica por conta da trilha do guitarrista brasileiro Heitor Pereira (Angry Birds: O Filme) que combina os estilos de John Debney, John Powell e Christoph Beck para compor um tema orquestrado que lembra muito também aqueles que costumam embalar as animações Disney.


É uma pena, portanto, que o roteiro não consiga construir personagens à altura de seu discurso, pois por mais agradáveis que sejam Migo, Meechee e sua turma, todos empalidecem diante de ícones recentes do gênero, o que impede PéPequeno de se estabelecer. Mesclando piadas bem sacadas, como ao sugerir tons graves e agudos para justificar a falha de comunicação entre Yetis e Humanos, ou a breve sequência em que um urso desabafa ao ser incomodado em sua caverna, a animação alcança seu melhor momento ao focar uma perseguição através de um plano aéreo que homenageia Pac-Man e que certamente provocará bons sentimentos tanto em crianças, como em adultos.


Assumindo-se como uma história infantil com um forte ensinamento, PéPequeno automaticamente conquista o público mais velho, que certamente entenderá as analogias feitas e que, mesmo que sutis, constroem um retrato fiel de nossa realidade, mostrando que até peças sagradas e milenares estão sujeitas à obsolescência conforme nossa sociedade evolui. E para bom entendedor, meia palavra basta.


Obs : Há uma cena adicional durante os créditos.


NOTA 6,5

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