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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Passageiros desperdiça estrelas em trama tola

O Star System foi um modelo que imperou em Hollywood até o final da década de 40. Nesse sistema, atores e atrizes assinavam contratos onde basicamente abdicavam do controle de suas carreiras, entregando-as aos grandes estúdios, que passavam a exercer total domínio delas. Assim, atores eram obrigados a interpretar o mesmo papel em várias produções, e, até mesmo, eram forçados a simular romances. Tudo em prol de uma imagem a ser vendida para o público. Precisei falar isso, pois foi exatamente o que me veio à cabeça quando fui assistir a este Passageiros, produção da Columbia/Sony protagonizada por duas das maiores estrelas da atualidade. Apesar de toda a roupagem de blockbuster, não se engane, trata-se de um filme feito e pensado à moda antiga.


O fraco roteiro de Jon Spaihts (de Prometheus e Doutor Estranho) parece ter sido feito sob medida para que um casal de atores extremamente populares pudesse explorar o potencial romântico de uma história que jamais se sustenta longe desse pretexto. A própria premissa já é fraca demais para render um longa-metragem, o que acaba abrindo espaço para conflitos óbvios, motivos tolos, e um final que escancara a ideia de agradar. Sim, alguém acordar no meio de uma viagem interestelar pode até ser um ponto de partida interessante. Mas a causa do problema que possibilita tal incidente é simplesmente tolo demais, para não dizer ridículo. Aliás, toda a situação envolvendo os problemas da imensa nave que abriga os passageiros do título é absurda demais, já que fica difícil aceitar que tamanho investimento não iria demandar um cuidado maior por parte dos responsáveis pela tal viagem.


Chris Pratt e Jennifer Lawrence são forçados a funcionarem juntos. Não que a possibilidade de ver o Senhor das Estrelas (ou Owen) namorar a Mística (ou Katniss) não seja curiosa, mas o problema é que a construção desse romance é displicente demais, como se vê-los trocando juras de amor fosse o bastante. De fato, o carisma de ambos é inegável, e Pratt segura o filme sozinho durante boa parte da projeção, sem deixar a peteca cair. A composição canastra do galã, em contrapartida, pode incomodar, embora vá ao encontro das caras e bocas de sua companheira de cena, mais histriônica (e gasguita) do que de costume. Michael Sheen, por outro lado, demonstra o talento habitual, roubando a cena como um barman dotado de uma sinceridade robótica.


Já o diretor norueguês Morten Tyldum, tão competente em O Jogo da Imitação, executa um trabalho majoritariamente burocrático, com apenas alguns lampejos de seu talento, como na cena envolvendo uma piscina em gravidade zero. A montadora Maryann Brandon (de Star Wars: O Despertar da Força) até tenta conferir dinamismo ao filme, empregando alguns belos raccords e dando fluidez, ao passo que a ótima trilha sonora de Thomas Newman (007 Contra Spectre) acaba sendo o maior acerto da produção, o que não chega a ser realmente uma surpresa.


No final das contas, por mais agradável que seja a atmosfera criada pelo filme, é decepcionante demais ver tantas questões interessantes e que poderiam ser exploradas com maior cuidado, serem deixadas de lado em prol de um romance açucarado e esquecível.


Com isso, Passageiros serve como lembrança de um tempo onde os atores não tinham como fugir de estereótipos e romances baratos, numa época em que a imagem era tudo, representando um alívio para nós e para os astros da atualidade, que podem administrar suas carreiras e escolher seus projetos. Que Chris Pratt e Jennifer Lawrence escolham uma produção mais ambiciosa da próxima vez.


NOTA 3,5

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