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"Pinóquio" atualiza contexto do desenho clássico em aventura barata

Por Guilherme Cândido


Estamos na Era dos Remakes há tanto tempo que já não adianta mais reclamarmos. A própria Disney, um dos maiores conglomerados de entretenimento do planeta já aderiu à prática das refilmagens ao financiar uma série de adaptações live-action de seus amados clássicos animados. O resultado nem sempre é positivo, vide O Rei Leão e Alice no País das Maravilhas, mas o estúdio já acertou com A Bela e a Fera e Mulan.


Era uma questão de tempo, portanto, que Pinóquio, protagonista do romance publicado pelo escritor italiano Carlo Collodi em 1883 e que ganhou fama internacional ao ser adaptado por Walt Disney em 1940, ganhasse sua própria versão na Casa do Mickey (pois fora dela já tivemos inúmeras outras). Como já apontei no primeiro parágrafo, acho contraproducente apontar uma razão que não seja econômica por trás da ideia de produzir um filme com atores de carne e osso. Já há uma fila de outros clássicos esperando para serem adaptados, afinal, e o retorno financeiro ainda satisfaz os executivos.


A TRAMA


A história é a mesma, com o bondoso Geppetto (Tom Hanks), um entalhador recluso e afeito a invencionices, desejando que o boneco de madeira que acabara de criar ganhe vida, o que acontece graças à intervenção de uma Fada (Cynthia Erivo). Em troca da realização do sonho de se tornar um menino de verdade, Pinóquio (Benjamin Evan Ainsworth, de Flora e Ulisses) promete agir corretamente e ser corajoso, altruísta e verdadeiro.

PONTOS POSITIVOS


Encarregando-se de agradar aos fãs logo de cara, o live-action tem um início quase idêntico ao da animação de 1940, destacando-se a casa/loja de Geppetto, cujo design de produção teve o imenso cuidado ao replicá-lo, mas guardando várias surpresas para os caçadores de easter eggs (não deixe de reparar nos relógios).


Assim que Pinóquio toma o rumo da escola, porém, o roteiro escrito pelo diretor Robert Zemeckis (Convenção das Bruxas) em parceria com Chris Weitz, que ajudou a adaptar Cinderela e assinou o script de Rogue One: Uma História Star Wars, promove uma série de mudanças, algumas benéficas, outras nem tanto.

Se o desenho apresentava alguns problemas para justificar, por exemplo, Geppetto ter ido parar no estômago de uma baleia, ou a ajuda pontual da Fada e a evolução repentina de Pinóquio, a nova versão faz questão de amarrar essas pontas soltas: seja por meio da adição de Sofia (voz de Lorraine Bracco, de Os Bons Companheiros), gaivota que serve como uma espécie de mensageira para Geppetto, ou pela elipse que sugere uma passagem maior de tempo entre o despertar de Pinóquio (repare que suas primeiras palavras são meras repetições) e a primeira vez em que sai de casa (estreitando os laços com Geppetto, Fígaro e Cléo), a produção demonstra imensa preocupação com os detalhes.


Profissionais experientes, Zemeckis e Weitz abusam do foreshadowing (o fogo no palco que é lembrado ao final, o cascalho) e até concebem um background para Geppetto e o Grilo Falante (mais adiante).

PONTOS NEGATIVOS


Os roteiristas, por outro lado, pesam a mão ao articularem as metáforas contidas na jornada de Pinóquio, como na desnecessária sequência da escola ou o decepcionante bloco que envolve a "Ilha dos Prazeres", quando as tentações mencionadas pela Fada no desenho animado ganham representações literais nas atrações do que se tornou um tipo de parque de diversões (“pegue e furte”, “insulte à vontade”). Além disso, se o discurso que celebra as diferenças já havia sido introduzido sem a menor sutileza através do supracitado momento escolar, a subtrama de Fabiana (vivida pela estreante Kyanne Lamaya) soa redundante.

PERSONAGENS


Tom Hanks, um dos atores mais carismáticos, queridos e talentosos em atividade, encarna Geppetto como um homem simples e extremamente bondoso, driblando eventuais dificuldades nas sequências musicais ao exalar ternura. Geppetto, vale ressaltar, ganha algumas camadas que o enriquecem dramaticamente. Até seus relógios recebem um significado, ligando-o à sua amada, cuja ausência o transformou numa pessoa reclusa e carente de alguém para transmitir o seu amor. Nesses momentos mais dramáticos, Hanks brilha e transforma Geppetto na figura mais fascinante da obra.

Mais até do que o Grilo Falante, dublado originalmente por Joseph Gordon-Levitt (o Robin de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge), que aqui ganha motivações e personalidade mais complexas, indo além da apresentação como (autointitulado) boêmio. Adotando uma postura vocal semelhante ao de Woody Allen, o Grilo de Gordon-Levitt também serve como um recurso narrativo irreverente e eficaz ao quebrar a quarta parede diversas vezes.

FOCO NA AVENTURA


Se a contratação de um cineasta do calibre de Robert Zemeckis (de clássicos como a trilogia De Volta Para o Futuro, Uma Cilada Para Roger Rabbit, Forrest Gump, Náufrago e O Expresso Polar), para exercer a mera função de replicar os momentos-chave da animação original, já havia sido controversa, ao menos ele teve liberdade para elaborar as sequências de ação (especialmente a da Montanha de Açúcar), conduzidas com perfeição e que elevam o patamar da produção ao valorizarem sua especialidade: a aventura.

VISUAL


Infelizmente, o ponto fraco da produção reside justamente no que costumar ser o carro-chefe das produções Disney. Escancarando a natureza barata do projeto (que contou com um orçamento menor do que o habitual por não ter sido lançado nos cinemas), Pinóquio falha em quase todos os momentos em que a computação gráfica domina a tela.


O destaque negativo fica por conta da sequência que se passa no mar e que não consegue esconder a artificialidade do cenário, tornando visível a discrepância na iluminação entre o fundo (tela verde) e Tom Hanks. Nessa mesma passagem, aliás, mal temos a noção de que o barco de Geppetto está de fato em movimento (e a textura da água também não ajuda).


No geral, em contrapartida, o filme faz o possível para captar a essência da obra original, como os figurinos de Geppetto e do Grilo Falante e o design de Pinóquio, extremamente fiel à sua versão desenhada. Já os animais, todos em CGI, jamais convencem plenamente, causando estranheza particular sempre que interagem com Geppetto.

CANÇÕES


Responsável por embalar a atual vinheta da Disney, a canção-tema vencedora do Oscar, dessa vez, não é cantada por Geppetto, e sim pela Fada, aproveitando os dotes musicais de Cynthia Erivo (Mundo em Caos) em uma participação especial que em nada deixa a desejar ao clássico momento do desenho de 1940.


Composta pelo mestre Alan Silvestri (colaborador frequente do diretor e em alta graças ao tema da franquia Vingadores), a trilha sonora jamais compromete a experiência, conseguindo evocar a nostalgia tão esperada pelos fãs, mas carece de maior inspiração nas novas faixas, compostas originalmente para este novo filme e que empalidecem diante do tradicional padrão de qualidade do estúdio do Mickey.

DISCURSO


Embora tropece ao exagerar no didatismo da clássica mensagem do longa de 1940, o roteiro é bem-sucedido ao desenvolver um discurso que utiliza Pinóquio como um símbolo da ode às diferenças resultando num final que vai ao encontro da proposta inicial, trazendo os valores da obra para a atualidade, numa atitude corajosa justamente por desafiar o espectador a deixar a zona de conforto da nostalgia vazia como um fim em si mesma e assumir o risco de desagradar uma parcela dos fãs.

RESUMO DA ÓPERA


Como era de se esperar, esta versão de Pinóquio, embora longe de ser ruim, não chega nem perto de repetir a experiência encantadora do desenho original, tendo dificuldade para manter até o final a boa impressão causada nos fãs mais velhos durante o seu primeiro ato. Ao menos deverá despertar nos mais jovens o interesse pelo clássico.


NOTA 5


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