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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Por Trás dos Seus Olhos" desafia expectativas do espectador

Desde que despontou com o impactante A Última Ceia (que rendeu o Oscar a Halle Berry), o cineasta alemão Marc Forster vem demonstrando uma versatilidade admirável. Não à toa, seu projeto seguinte foi o delicado Em Busca da Terra do Nunca, indicado a 7 Oscars. Logo depois, Forster foi ainda mais fundo, comandando quatro filmes que não poderiam ser mais distintos entre si: o suspense A Passagem, a subestimada comédia Mais Estranho que a Ficção, a adaptação de O Caçador de Pipas e 007 Quantum of Solace, seu primeiro blockbuster.


Como é possível perceber, Marc Forster é um cineasta que não tem medo de arriscar, experimentando novas linguagens sem o peso de revolucioná-las. E depois de cinco anos desde a estreia de seu último filme (o tumultuado, mas bem sucedido, Guerra Mundial Z), Forster volta ao Cinema com este Por Trás dos Seus Olhos, onde mergulha de cabeça na experimentação, investindo numa linguagem que, se não chega a ser inovadora, ao menos proporciona uma experiência curiosa ao espectador, mostrando como é o mundo ‘visto’ por uma pessoa cega. Só há vultos e borrões? Ela apenas enxerga um denso véu branco? Pois essa produção é especialmente competente ao sugerir essas respostas.


Escrita pelo próprio diretor em parceria com Sean Conway (roteirista da série Ray Donovan), a trama acompanha o casal Gina (Blake Lively, de Águas Rasas) e James (Jason Clarke, do recente A Maldição da Casa Winchester) que muda-se para a tranquila Tailândia após uma suposta oferta profissional. Gina, por outro lado, ficou cega após um misterioso acidente e atualmente vive sob os cuidados do marido, que não esconde sua devoção à esposa.


Porém, depois de recuperar a visão de um dos olhos através de uma sofisticada cirurgia, Gina não só submete-se a uma guinada em sua vida, como tem sua relação com James modificada inteiramente pela nova rotina. Vendo o distanciamento de sua esposa, agora totalmente independente e segura de si, James aos poucos vai percebendo que seu relacionamento jamais voltará ao que era, o que promove uma nova fase na vida do casal.


Com essa premissa, o roteiro poderia traçar vários caminhos sem sacrificar a coerência. Felizmente, assim como Steven Soderbergh e seu inteligente Terapia de Risco, os roteiristas brincam com as expectativas do espectador, subvertendo-as em prol de frequentes correções de rumo, o que possibilita à trama transitar por vários gêneros diferentes.


Mas essa atmosfera de incertezas é apenas a ponta de um delicioso iceberg que transforma a produção numa das mais interessantes do ano, tornando inexplicável sua falta de prestígio e seu lançamento direto no mercado de vídeo norte-americano. Pois ao não lançar o filme nos cinemas, os produtores praticamente extirparam dos espectadores estadunidenses sensações que dificilmente serão alcançadas fora da sala de projeção. Azar deles, sorte dos brasileiros.


E comentar sobre o visual de Por Trás dos Seus Olhos requer uma análise de seu caráter indiscutivelmente experimental: aqui, o cineasta Marc Forster não demonstra o menor interesse em contar a história de um jeito convencional, permitindo-se criar imagens que impressionam. Ao posicionar sua câmera rente ao chão e evitar, ao máximo, focar o rosto de seus atores, Forster deixa claro desde o início suas intenções, concebendo um universo estranho que chega ao ápice quando a sugestão do ponto de vista de Gina é extrapolada.


Com imagens que beiram o psicodélico, Por Trás dos Seus Olhos deixa a próspera câmera subjetiva, para compor quadros que a todo momento tentam emular as sensações experimentadas por sua protagonista, que, acostumada a simplesmente não enxergar, é bombardeada por um mundo muito mais colorido do que imaginara. O apogeu dessa experimentação é a brilhante sequência de dança que gradualmente se converte num verdadeiro mosaico de cores em movimento, ganhando energia com o posicionamento perfeito da câmera (em plongée), oferecendo um momento onírico que dificilmente será superado.


Mas Forster vai além, chegando ao ponto de colocar sua câmera ‘dentro’ de um aquário, ao observar de longe seus personagens (e, por falar nisso, o longa-metragem deve ter quebrado o recorde de planos-detalhe consecutivos). Não bastassem os ângulos inusitados e as composições lúdicas, o design de produção acompanha o espetáculo cromático investindo em cores como o rosa e o roxo para estabelecer uma lógica interna e vetar o caos absoluto.


Já a belíssima trilha é mais um acerto da carreira do pouco conhecido Marc Streitenfeld (Prometheus): inicialmente empregando acordes suaves através do piano, Streitenfeld aos poucos vai adotando novos tons, refletindo as mudanças climáticas do roteiro e abusando da variedade de instrumentos, destacando-se a arrojada melodia tocada ao violino.


A essa altura, já deve ter ficado evidente que as maiores virtudes de Por Trás dos Seus Olhos residem em sua estética. O roteiro, claro, é completamente eclipsado pela técnica narrativa, mas após o primeiro ato, quando a história volta a ser a protagonista, fica óbvio que Marc Forster e Sean Conway também querem oferecer um trabalho desafiador.


Nesse ponto, a dupla merece aplausos pela coragem com que conduzem o desenvolvimento narrativo, deixando para que o espectador tire suas próprias conclusões. E mesmo que aqui e ali algumas lacunas surjam sem perspectiva de preenchimento, o resultado é mais que satisfatório: é prazeroso. Às vezes, o fato de não responder suas próprias questões pode evidenciar um roteiro que esconde sua falta de substância, mas aqui o oposto é o que ocorre. E quando um longa-metragem confia na inteligência de quem o assiste, a equação dificilmente dá errado.


E o cineasta, ciente disso, apenas solta pistas, permitindo que o espectador trilhe seu próprio caminho com a ajuda de uma pavimentação rica de conteúdo, que oferece uma gama de conclusões que poderá consumir horas deliciosas de debate. Se há um vilão ou uma vítima, caberá ao espectador decidir, ligando os pontos e construindo sua interpretação ao complementar o que acabou de ver.


Com boas atuações, principalmente da carismática Blake Lively (que está demonstrando uma evolução contundente), a película ainda derrapa ao introduzir alguns personagens que parecem existir apenas para cumprir a função de… serem esquisitos, alimentando uma subtrama mambembe através de um conflito bobo. Além disso, o abandono da câmera subjetiva em alguns momentos acaba diluindo a lógica interna do filme, o que é estranhamente refletido pela insistência em colocar Gina para testemunhar pessoas fazendo sexo e que jamais é fundamentada pelo roteiro.


Terminando abruptamente, Por Trás dos Seus Olhos é uma experiência que, a rigor, existe em função dos anseios revigorados de seu diretor, ávido por contar uma história não só brilhante esteticamente como desafiadora dramaticamente. Que Marc Forster não demore novamente a lançar seu próximo filme…


Observação: O filme possui uma canção intitulada All I See Is You, numa alusão ao seu título original, que é prejudicada pela tradução brasileira. Sacrifica-se o sentido da letra (mostrar a relação de Gina com James) em prol da manutenção do ‘Por Trás dos Seus Olhos’ que nomeia a versão brasileira.


NOTA 7,5



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