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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #16: 007 Permissão Para Matar (1989)

007 Permissão Para Matar

(Licence To Kill, 1989)


Marcado como o filme de menor bilheteria da franquia 007, o que pode induzir o espectador ao erro de pensar tratar-se de uma produção de baixa qualidade, 007 Permissão Para Matar também é aquele que conta com o roteiro mais realista, ao menos até James Bond passar a ser interpretado por Daniel Craig. Isso porque a necessidade de reformulação após a saída de Roger Moore e as exigências criativas do protagonista Timothy Dalton, fã confesso dos livros de Ian Fleming, estabeleceram um padrão diferente para esta fase do personagem.


Enquanto o filme anterior, 007 Marcado Para a Morte, hesitava em abraçar completamente as consequências trazidas por essa abordagem mais seca e menos fantasiosa (embananando-se sempre que recorria ao humor), 007 Permissão Para Matar rompe definitivamente com o modelo estabelecido pela série, pois dessa vez James Bond não está a serviço secreto de sua majestade, e sim numa vingança pessoal pelo atentado sofrido pelo amigo Felix Leiter.

O tom mais brutal é sentido justamente na sequência que envolve Leiter nas mãos dos bandidos, jogado aos tubarões (sempre eles...) sem o menor sinal de misericórdia. Isso, claro, enerva o já intenso James Bond de Dalton a ponto deste iniciar uma caçada quase tão implacável quanto aquela vista em 007 Os Diamantes São Eternos, quando o espião vai atrás de Blofeld numa sequência que descamba para o cartunesco, enquanto aqui o diretor John Glen (em seu quinto trabalho na série) é bem mais eficiente graças à energia com que Timothy Dalton retrata a fúria indomável de 007.

Como é possível perceber, Permissão Para Matar é mais uma história de vingança do que uma aventura clássica de Bond, o que talvez explique o afastamento do público, já soterrado por esse tipo de narrativa tão popular na década de 80. O que não impede John Glen de investir em algumas sequências de ação realmente formidáveis, especialmente aquelas que se enfileiram na meia hora final com uma aula de como executar explosões (repare como a câmera treme enquanto vemos as chamas se expandirem até ocuparem toda a extensão do quadro (pena que Michael Bay não deve ter assistido).

Enquanto isso, Timothy Dalton tem a oportunidade de se testar como astro de ação e se não será lembrado como um especialista, ao menos não compromete o resultado, saindo-se melhor, em contrapartida, ao lidar com as inseguranças de Bond (mais humilde dessa vez, não hesitando em pedir ajuda) e ao expressar sua determinação em ir até o fim com os planos de vingar o amigo. Aliás, a diligência com que a trama se desenvolve, acompanhando a cadência de Bond, pode ser algo positivo ou não, a depender da paciência do espectador.

O que vai além de qualquer questionamento é a disposição dos roteiristas em tornarem a história o mais simples possível, demonstrando que aprenderam com os erros cometidos no confuso script do filme anterior. Michael G. Wilson e Richard Maibaum não colocam James Bond viajando pelo mundo ou executando missões pequenas até o surgimento do desafio final, imposto pelo vilão da vez Franz Sanchez (Robert Davi). Dispensando a megalomania de grande parte dos seus antecessores, Sanchez só se interessa por dinheiro, que ele ganha através de um mero esquema envolvendo tráfico de drogas. Sim, isso mesmo: nada de armas a laser, cidades subaquáticas ou viagens interplanetárias, apenas drogas. E Robert Davi é inteligente ao não estilizar sua composição, mantendo Sanchez como um traficante comum. Como curiosidade, o capanga da vez (ainda mais pé no chão) é vivido por Benicio Del Toro, ainda em início de carreira.

Paralelamente, a produção mostra-se um pouco mais aberta na inclusão de bond girls, desta vez exibindo duas (uma a mais que Marcado Para a Morte) e as desenvolvendo com alguma da profundidade que se espera, mas que nem sempre é adotada. Talita Soto explora a gratidão de Lupe por Bond tê-la apontado um caminho para longe da vida com Sanchez, com aparições esporádicas, mas que não visam o mero aproveitamento de um envolvimento amoroso com o agente secreto, ao passo que a Pam Bouvier de Carey Lowell lembra vagamente a força de Pussy Galore ao aliar-se a Bond não por conveniência, mas por ser capaz de salvar o espião quando é necessário (e isso acontece mais de uma vez). E como é bom ver um James Bond focado na missão, resistindo à tentação das distrações amorosas, o que aumenta a tensão sexual com Bouvier e Soto, tornando o relacionamento mais orgânico, mesmo que os roteiristas escorreguem ao explorarem uma tola crise de ciúmes.

Além disso, Q (Desmond Llewelyn em sua 14ª aparição) faz mais do que uma participação especial, divertindo ao ir a campo com Bond e mostrando-se ‘um ótimo agente’ (palavras do espião), utilizando algumas das engenhocas que ele mesmo cria (minha favorita é a vassoura que esconde um comunicador). Outro ponto positivo é a ótima música de abertura, transformada em hit na voz poderosa de Gladys Knight, que abandona a sonoridade popular que tomava conta da série e investe numa melodia mais próxima da tradição estabelecida pelos primeiros filmes.

Entregando-se a um clímax absolutamente eletrizante, 007 Permissão Para Matar encerra bruscamente o que poderia ter sido uma grande fase de James Bond. O contrato de Timothy Dalton ainda incluía um terceiro filme, que acabou não acontecendo por diversas razões. Enquanto alguns dizem que o ator perdeu o interesse após o atraso ocasionado pela briga envolvendo os direitos da franquia (que só voltaria às telonas seis anos mais tarde), há quem aponte a falta de adesão do público como a desculpa utilizada pelos produtores para substituírem o protagonista. De qualquer forma, Dalton deixa um legado positivo, renovando a franquia com um James Bond mais humano e despedindo-se com dois filmes realistas e que se enquadraram no padrão de blockbuster de ação da época em que estrearam.


Também influenciou Daniel Craig e a abordagem de seus filmes, mas não pulemos etapas, pois daqui partiremos para a fase de Pierce Brosnan, com 007 Contra GoldenEye.


NOTA 7,5




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