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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #18: 007 O Amanhã Nunca Morre (1997)

007 O Amanhã Nunca Morre

(Tomorrow Never Dies, 1997)


Se ao rever 007 Contra GoldenEye acabei por não achá-lo tão bom quanto da primeira vez, com 007 O Amanhã Nunca Morre a situação curiosamente se inverte, pois é bem melhor do que eu lembrava. Com Pierce Brosnan bem mais seguro e uma trama que bebe generosamente da fonte dos filmes originais, pendendo mais para as aventuras com Sean Connery do que para aquelas estreladas por Roger Moore (ao contrário do filme anterior) e contando com quase o dobro do orçamento de GoldenEye (52 milhões a mais), seria uma proeza caso as coisas dessem errado, por mais turbulentas que tenham sido as filmagens.


Primeiro filme da série sem ter sido produzido por Albert Broccoli, falecido pouco antes do início da pré-produção, vítima de um ataque cardíaco aos 87 anos, 007 O Amanhã Nunca Morre dá prosseguimento ao resgate da identidade da série iniciado em GoldenEye. Assim, a produção tem início com a clássica cena de Bond aos beijos com uma mulher enquanto recebe a ligação do Serviço Secreto convocando-o. Da mesma forma, temos a retomada do tradicional capanga, com o alemão Götz Otto interpretando uma versão mais realista do que o padrão estabelecido pela série, com um visual que remete ao Grant de Robert Shaw em Moscou Contra 007.

Já o grande vilão viria a ser interpretado por Anthony Hopkins, que assinou contrato, mas acabou abandonando o projeto por achar a produção “caótica demais”, optando por estrelar A Máscara do Zorro (curiosamente dirigido por Martin Campbell, que comandou 007 Contra GoldenEye). Elliot Carver, então, foi parar nas mãos de Jonathan Pryce, que se inspirou no magnata das notícias Rupert Murdoch para construir seu personagem. Ao contrário de seus antecessores, mais realistas e contidos, Pryce interpreta um legítimo megalomaníaco, como rege a longa tradição da série, mas com uma motivação que parecia prever o atual cenário das fake news.

Pois Carver deseja aumentar sua audiência criando notícias e executa um engenhoso plano para deflagrar a Terceira Guerra Mundial, o que levaria a ter em primeira mão todas as informações. Em vários momentos, o vilão faz discursos que infelizmente ainda são atuais, explorando o potencial da desinformação como tantos veículos de comunicação e políticos fazem atualmente. Exibindo um visual a la Steve Jobs e com maneirismos afetados, Pryce não chega a ser o mais memorável dos vilões, mas impõe-se com facilidade e serve como uma ameaça à altura de James Bond.

Que por sua vez ganha sequências de ação ainda mais espetaculares, com direito a uma perseguição de moto estupenda pelas ruas de Saigon (na verdade, as cenas foram gravadas na Tailândia, já que o governo do Vietnã recusou a solicitação da produção), uma batalha aérea logo nos primeiros minutos e um clímax repleto de tensão e adrenalina. Muito do êxito da ação do filme também se deve à presença da malaia Michelle Yeoh, vencedora do Oscar recentemente por Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Na pele de Wai Lin, Yeoh é mais do que uma mera bond girl, pois se beneficia do fato de a agente secreta possuir recursos suficientes para atuar lado a lado com Bond, firmando uma parceria que brilha na tela através da ótima química com o Bond de Brosnan. Carismática, ágil e extremamente talentosa, Yeoh é uma das poucas bond girls que deixam o espectador pedindo bis e se coloca fortemente na disputa com Pussy Galore pelo título de melhor parceira de James Bond (sim, pois ela faz muito mais do que se colocar em perigo para ser resgatada pelo espião).

Já o script de Bruce Feirstein (que teve a ajuda de um numeroso grupo de roteiristas que acabaram de fora dos créditos) soa corrido demais em vários momentos, especialmente por conta do prazo apertado imposto pela trama (Bond e Lin possuem menos de 48 horas para cumprirem a missão), mas isso não justifica a fraca presença de Teri Hatcher como Paris Carver, a esposa do vilão que já se envolveu com Bond, mas que tem tão pouco tempo que jamais chega a construir um laço com o espectador. O tiro acaba saindo pela culatra quando fica evidente que o roteiro quis ecoar o impacto emocional de 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade, impondo uma subtrama vingativa tão artificial que mal sentimos quando é abandonada.

Da mesma forma, a canção-tema interpretada por Sheryl Crow gerou uma imensa dor de cabeça à produção. Inicialmente, John Barry faria seu retorno triunfal como composito, mas com o cronograma apertadíssimo, os produtores impuseram uma música ao veterano, que se sentiu desprestigiado já que sempre participou da criação dos temas de abertura da série, recusando o convite, mas recomendando a contratação de David Arnold, que apesar de também ficar descontente por ter de trabalhar com um material previamente definido, conseguiu emplacar uma outra versão, que acabou embalando os créditos finais e cuja melodia foi usada durante o filme. Enquanto isso, “Tomorrow Never Dies” até conquistou indicações a prêmios importantes na época, como o Grammy e o Globo de Ouro, mas é considerada pelos fãs como uma das piores da série. E concordo plenamente.

Apesar de superar nas bilheterias o sucesso estrondoso de 007 Contra GoldenEye, 007 O Amanhã Nunca Morre foi o único filme da Fase Pierce Brosnan a não ter estreado em primeiro lugar, já que os produtores tiveram a brilhante ideia de subestimar o potencial de Titanic, colocando-o para debutar aos cinemas no mesmo dia que a obra-prima de James Cameron, que não deu chance a Bond, permanecendo como o filme mais visto do mundo por vários meses (se tornou a maior bilheteria de todos os tempos até ser superado por Avatar doze anos depois, ambos de James Cameron).

Sei que vou na contramão da opinião dos fãs quando considero O Amanhã Nunca Morre um aprimoramento em relação a GoldenEye, mas acho que todos concordaremos que este foi o último acerto sob o comando de Pierce Brosnan, cuja queda vertiginosa começou em 007 O Mundo Não é o Bastante, o capítulo seguinte da série.


NOTA 7,5


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