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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Royalteen" é mais um romance teen previsível e descartável da Netflix


Quando observamos as maravilhas que o Cinema Norueguês nos proporcionou nos últimos anos, como Thelma, Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega e o excepcional A Pior Pessoa do Mundo, fica difícil imaginar um grande tropeço em meio a essa grande fase. Mas a Netflix, claro, não tem limites: como uma plataforma especialista em apostar no intragável, determinada a financiar os renegados do audiovisual contemporâneo mundial com a intenção de rechear seu catálogo, conseguiu a proeza de lançar uma bomba nórdica.


De longe, Royalteen parece ser aquela típica produção teen recheada de clichês e convenções que buscam os caminhos mais fáceis rumo às diretrizes do algoritmo da gigante do streaming. De perto, porém, parece estar de longe, pois o roteiro de Ester Marie Grenersen em parceria com o diretor Per-Olav Sørensen, por sua vez adaptado do romance homônimo de Randi Fuglehaug e Gunn Halvorsen, enfileira acontecimentos desconexos, gerando uma perpétua expectativa de que algo aparecerá para trazer sentido ao que estamos testemunhando (não aparece).

Lena (Ines Høysæter Asserson) é uma estudante colegial que, por motivos obscuros, acabou de se mudar com os pais de uma cidade do interior para a capital Oslo. Em seu primeiro dia na nova escola, ela acaba conhecendo Kalle (Mathias Storhøi), príncipe bon-vivant que mal parece se dar conta de que em breve será rei. É claro que o príncipe e a plebeia acabarão se envolvendo e a paixão fugaz que os consumirão irá repercutir e gerar intrigas alimentadas por coadjuvantes malvadas, enquanto os adultos, como sempre, serão um oásis de serenidade e sabedoria em meio ao deserto de imaturidade no qual estão mergulhados os personagens centrais.


E a direção de Per-Olav Sørensen não faz a menor questão de conferir personalidade à história, fazendo com que seja difícil para o espectador distinguir Royalteen das várias outras obras com quem dividirá a seção teen da Netflix. Como se tentasse seguir uma cartilha de elementos típicos de filmes adolescentes, Sorensen inclui mensagens de texto sobrepostas na tela, jovens se entregando a bebedeiras em festas à beira mar e em volta de piscinas, fofocas ao pé de armários, barracos nos corredores e por aí vai. O diretor/roteirista dá um check em cada clichê.

O elenco, simpático, se esforça em cena para estimular algum grau de envolvimento por parte do espectador, entretanto, por mais que Asserson esteja adorável, a produção faz de tudo para colocar em dúvida o caráter de Lena, abusando de momentos em que outros personagens a insultam, exaltando o lado obscuro da moça que é jogado à revelia durante a narrativa. Os inúmeros flashbacks seguem a máxima do saudoso Chacrinha, chegando muito mais para confundir do que para explicar os conflitos de Lena.


Mathias Storhøi, contrastando o olhar de pateta com a voz grave e o penteado rebelde, faz de tudo para encarnar o tradicional aspirante a Don Juan, fazendo de Kalle um playboy cujo estilo hedonista e inconsequente jamais se mostra atraente o bastante para os roteiristas, que ignoram suas consequências em detrimento de uma “chocante” e “inédita” problemática envolvendo a virgindade do rapaz.

Eles, aliás, optam por celeumas repetitivas e inoportunas, desenvolvidas sem refino. Repare, por exemplo, na quantidade de coadjuvantes que sofrem de problemas de saúde e a forma como estes são apresentados e você constatará a preguiça em estado puro. Para a dupla, basta exibir alguém mencionando a doença ou tossindo para que se sintam satisfeitos o suficiente a fim de seguirem em frente e resgatarem o tema ao final, que aliás, promove um breve momento de apreensão antes de ser abandonado completamente.


Tecnicamente, a produção também não vai longe. A montagem de Wibecke Rønseth exagera naquelas transições em que um plano aéreo é acompanhado por uma música dançante enquanto busca valorizar as paisagens (estas sim, espetaculares). O ritmo, claudicante, provoca bocejos pela forma previsível e morosa com que os beats evoluem, tornando-se um verdadeiro terror para os espectadores mais atentos que sofrem de ansiedade. Já a fotografia de Håvard Andre Byrkjeland limita-se a tons quentes e cores saturadas com o claro intuito de refletir a natureza efervescente de seus personagens.

Contando ainda com uma trilha sonora absolutamente genérica e excessivamente melosa, Royalteen ainda debocha do espectador com um final que soa mais ofensivo do que pretensamente aberto, num aleatório gancho para uma continuação (que encaro mais como uma ameaça do que como uma promessa). Em suma, trata-se de mais uma besteira descartável, previsível e entediante a entrar para a futura lista de recomendações a quem tiver o infortúnio de passar pela seção de romances adolescentes.


NOTA 1


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