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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Sharper - Uma Vida de Trapaças" aposta em trama repleta de reviravoltas


Hollywood sempre foi fascinada por vigaristas. De Golpe de Mestre a Prenda-me Se For Capaz, histórias repletas de surpresas protagonizadas por malandros charmosos já são contadas há décadas. Algumas mais bem sucedidas do que outras, tratam-se de produções desafiadoras, pois buscam contrariar mais do que as expectativas do público: suas percepções. Para aproveitar o máximo que esses filmes oferecem, o ideal é assistí-los sabendo o mínimo possível e é por isso que evitarei dar maiores detalhes sobre a trama deste Sharper – Uma Vida de Trapaças, novo original AppleTV+.


Os roteiristas Brian Gatewood e Alessandro Tanaka (da série Superstore) apostam numa estrutura dividida em capítulos, mas desenvolvida de forma pouco convencional. Truncada, a história segue uma dinâmica que lembra inicialmente o brilhante Amnésia (contada de trás para frente), apresentando segmentos dedicados a cada um dos quatro personagens principais, mas que se encerram quase sempre com um gancho para o seguinte, por sua vez um flashback mostrando os acontecimentos que levaram ao instante anterior.

Com isso, Personagem D é enganado por Personagem C, mas como o Personagem C chegou ao Personagem D? Apresenta-se, então, o Personagem B que ao final é enganado pelo personagem A, gerando expectativa para o próximo capítulo que terminará... Num ponto completamente diferente, já que a dupla de roteiristas subitamente abandona essa estratégia para seguir numa direção distinta, bagunçando a cronologia com o intuito de permitir o entrelaçamento dos personagens, criando uma rede de intrigas.

Assim, a quebra do ritmo, que estava sendo compensada pela estrutura pautada por reviravoltas, é sentida de forma ainda mais pungente à medida que percebemos a anarquia imposta por essa montagem rocambolesca. Além disso, Sharper cria uma arapuca para si ao empilhar plot twists, acostumando o espectador a aguardar pelo momento em que eles surgirão. A partir da metade da projeção, já aprendemos a questionar tudo o que vemos, procurando detalhes que possam antecipar o instante em que o trambique será consumado. O que não deixa de ser curioso, pois filmes sobre golpistas, dada a necessidade de surpreender o espectador, muitas vezes são seduzidos pela ideia de trapaceá-lo, exatamente o que matou Golpe Duplo (com Will Smith e Margot Robbie), por exemplo. Sharper, no entanto, funciona de maneira inversa, pois ao invés de nos enganar, se mostra honesto até demais.

No meio desse caos narrativo (reforçado pela trilha babélica de Clint Mansell), a direção de Benjamin Caron, famoso por assinar vários episódios de The Crown, premiada série da concorrente Netflix, ao menos evita chamar atenção para si, construindo uma atmosfera aprazível e realista, deixando todos os holofotes para suas estrelas. Protagonizando o primeiro capítulo, Justice Smith (aquele da voz estranha em Observadores) encarna um personagem que faz um paralelo imediato com o que viveu em Por Lugares Incríveis (onde teve sua melhor atuação), ao lidar com temas como depressão e tentativa de suicídio, mas acaba acompanhando a “regressão” da trama. Algo semelhante acontece com Sebastian Stan, que faz de Max uma versão alternativa do vilão que interpretou em Fresh. E por mais que Briana Middleton (Bar Doce Lar) ofereça uma performance carismática e desfrute do benefício de ser a única a ter algo mais próximo de um arco dramático, é mesmo Julianne Moore quem acaba se destacando, ao exibir o talento de sempre como uma figura imprevisível, fria e calculista, lembrando (demais, inclusive) a Wendy Byrd da série Ozark. Já o excelente John Lithgow, é desperdiçado num papel que mais parece uma ponta.

A maior surpresa do roteiro, por outro lado, não reside numa de suas reviravoltas, mas sim no fato de possuir um terceiro ato tão desastroso: Previsível pela já citada armadilha de ter treinado o público para esperar por revelações (e nos minutos finais elas se multiplicam), o filme é acometido por um surto repentino de estupidez, fazendo com que personagens supostamente inteligentes passem a agir como verdadeiros imbecis. Além de caírem em ciladas tão óbvias que até o espectador é capaz de antecipar com longa antecedência, alguns agem de forma ilógica para facilitarem o desenrolar da narrativa (entrar em contato com um(a) golpista que foi sua vítima nunca foi tão fácil).

Fazendo de Nova York uma legítima personagem, aproveitando para tecer um sutil comentário sobre gentrificação, Sharper – Uma Vida de Trapaças é um thriller que almeja ser Uma Saída de Mestre, mas que no máximo consegue superar Golpe Duplo, ficando num meio-termo que, se oferece uma experiência divertida e instigante durante boa parte do tempo, ao final se revela um passatempo puramente esquecível.


NOTA 6


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