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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Sorria" é o início promissor de uma nova franquia de terror


Um filme de terror ser construído como uma alegoria sobre traumas não é nenhuma novidade, convenhamos. Agora, um longa-metragem de qualquer gênero subverter a ideia que temos do sorriso, essa expressão ao mesmo tempo tão simples e poderosa, é algo no mínimo instigante. Esses dois conceitos, aliás, são precisamente o ponto de partida e a razão de ser de Sorria, novo filme da Paramount Pictures, estúdio que há muito tempo não tinha uma temporada tão lucrativa como esta de 2022, na qual lidera a bilheteria global graças ao fenômeno Top Gun: Maverick.


Escrito e dirigido pelo estreante Parker Finn, Smile (no original) acompanha alguns dias na vida da Dra. Rose Cotter (Sosie Bacon, filha de Kevin Bacon), psiquiatra que trabalha na ala emergencial de um grande hospital em Nova Jersey. Num dia aparentemente comum, ela é direcionada para tratar Laura (Caitlin Stasey, que estampa o cartaz da produção) uma estudante universitária que alega estar sendo perturbada por visões de uma estranha entidade. Antes de ter alguma chance de tratá-la, porém, Rose é surpreendida com a moça cometendo suicídio bem na sua frente, mas com um detalhe: ela está ostentando um largo sorriso. E como desgraça pouca é bobagem, a psiquiatra passa a sofrer com visões semelhantes àquelas narradas por Laura.

Ultimamente, franquias consagradas do Terror voltaram repaginadas como metáforas sobre os efeitos psicológicos de eventos traumáticos, como Pânico e a recém-finalizada trilogia Halloween, então não chega a ser uma surpresa constatar que o diretor/roteirista Parker Finn pega carona nessa tendência. O curioso é que Finn construiu um argumento sólido abordando temas tradicionalmente difíceis como depressão e suicídio, mas se viu numa encruzilhada diante da necessidade de embalá-los numa estrutura de gênero. Independente da possibilidade de os executivos da Paramount terem interferido no roteiro, a verdade é que Sorria, provavelmente, teria se beneficiado da decisão criativa de prosseguir no campo do drama.

Não que a produção fracasse como terror, pois Parker Finn se apresenta como um cineasta promissor. Além de criativo na elaboração de jump scares (o meu favorito é aquele envolvendo um arquivo de áudio), Finn é habilidoso ao traduzir visualmente a confusão mental que aos poucos toma conta da protagonista, graças a um trabalho de câmera inspirado que lança mão de ângulos inclinados e até invertidos, sugerindo ao espectador que algo não está certo.

O diretor também merece elogios pela sutileza com que passa informações importantes: assim como o brilhante travelling que abriu De Volta Para o Futuro, um simples movimento de câmera revela elementos importantes sobre uma personagem logo no início da projeção. Além disso, Finn é competente ao empregar o olho de pássaro (vista aérea) para se dirigir ao consultório da Dra. Rose, reservando o canto do enquadramento para mostrar a turbulenta chegada de Laura.

O problema é que não demora a ficar claro que Sorria não possui muito material para sustentar uma narrativa de cento e vinte minutos, fazendo com que a montagem se desdobre para conferir um ritmo suficientemente ágil, mas que não escapa incólume da estratégia equivocada de enfileirar sustos com o óbvio intuito de distrair o espectador enquanto o filme dá voltas em sua trama. E nem mesmo a inclusão do tradicional clichê envolvendo um animal de estimação (qualquer fã de terror será capaz de antecipar o destino do gato Bigode) serve como atenuante para a falta de conexão entre Rose e os conflitos com a irmã, que só existem mesmo para possibilitarem uma virada trabalhada pelo roteiro desde o primeiro ato.

Enquanto isso, Sosie Bacon, figurinha carimbada na TV com participações em programas como Scream, 13 Reasons Why e, recentemente, Mare of Easttown, faz um trabalho elogiável ao ilustrar a degradação física e psicológica de Rose, beneficiando-se do drama familiar da personagem que, infelizmente, é posto em segundo plano. Do elenco coadjuvante, Kyle Gallner, que roubou a cena na série Smallville, mas demorou demais a se desvencilhar da imagem adolescente, surge carismático e desperta a simpatia do público, mesmo diante de um papel mal desenvolvido pelo roteiro (assim como o lado investigativo da história).

Com um final que manda pelos ares (literalmente) a última chance de amarrar as pontas dramáticas salpicadas durante a projeção, em prol de uma reviravolta eficiente, mas que sepulta a seriedade sugerida por um momento específico dentro de uma casa abandonada, Sorria é claramente um projeto concebido para funcionar como o início de uma franquia, sendo sua maior surpresa o fato de não possuir uma cena pós-créditos.


NOTA 6,5

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