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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Trivialidade de "O Touro Ferdinando" é contornada por mensagem pacifista

Dono de uma carreira já consolidada em solo norte-americano, o carioca Carlos Saldanha já foi responsável por obras de sucesso como a esticada franquia A Era do Gelo, o subestimado Robôs e os celebrados Rio e Rio 2. Porém, agora sem o respaldo de uma marca pré-estabelecida, Saldanha volta a se concentrar num projeto novo. Ou nem tanto, já que o simpático touro Ferdinando foi criado em 1936 pelo escritor estadunidense Munro Leaf, e cuja adaptação cinematográfica rendeu um Oscar de Melhor Curta-Metragem à Disney.


Ambientada na Espanha, a história acompanha Ferdinando e suas ações incompatíveis com sua natureza, afinal, como um touro poderia preferir a paz de uma fazenda ao invés de uma gloriosa tourada? A verdade é que ele não é um touro comum, pois além de ser sensível o bastante para nutrir uma paixão por flores, carrega dentro de si uma verdadeira ojeriza à violência, o que o distancia de seus semelhantes.


Investindo desde o início num discurso em prol das diferenças (“ser esquisito é normal” é uma das falas do primeiro ato), O Touro Ferdinando é mais uma produção a abraçar o politicamente correto e oferecer o ponto de vista daqueles que são julgados como diferentes, sofrendo com a discriminação. E depois de obras como A Bela e a Fera, Extraordinário e até mesmo o recente Bright, da Netflix, dar voz aos oprimidos passou a ser um clichê, o que acaba dificultando o caminho do filme, mesmo que a mensagem seja nobre e, sobretudo, necessária.


O fato é que o roteiro (escrito a seis mãos), não parece muito interessado em fornecer perspectivas novas sobre um tema tão explorado atualmente e, com isso, a trama passa a depender demais da simpatia e da força de seus personagens, diluindo a densidade dramática de sua história em detrimento a um desenvolvimento mais açucarado. Não chega a ser exatamente algo terrível, apenas demonstra uma aparente preguiça por parte do trio de roteiristas ou, pior, uma preocupante falta de ambição.


De uma forma ou de outra, o novo filme da Blue Sky Studios segue cirurgicamente a cartilha de seus projetos anteriores, tendo consequentemente muito mais atrativos para as crianças do que para os adultos. Assim, o diretor Carlos Saldanha não se furta em incluir uma série de gags rápidas com o intuito de conquistar o público mais jovem, sendo particularmente eficiente naquele em que um gato é surpreendido por um balde d’água. Além disso, Saldanha é inteligente ao salpicar algumas piadas um pouco mais elaboradas (como aquela onde Ferdinando observa uma pedra ser pega por uma ave de rapina) durante a projeção, resgatando aqui e ali a atenção dos mais velhos.


Tecnicamente, O Touro Ferdinando também não se arrisca, como fica evidenciado na burocrática trilha sonora do (bom) compositor John Powell, que limita-se a acordes convencionais para acompanhar os acontecimentos da história, o que não deixa de ser decepcionante ao lembrarmos de seu magnífico trabalho no sucesso Como Treinar o Seu Dragão (e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar). O design de produção de Thomas Cardone também passa longe do brilhantismo de suas obras anteriores, como Hércules e Aladdin.


Já a montagem de Harry Hitner, velho colaborador do cineasta brasileiro, merece elogios pelo dinamismo que confere a determinadas passagens da trama, a começar pela boa sequência que ilustra o crescimento de Ferdinando ao mesmo tempo em que demonstra a evolução de sua amizade com a garotinha Nina. Surpreendente justamente por apresentar um grau de elaboração acima do padrão estabelecido pelo filme, o trabalho de Hitner consegue transitar com leveza entre as várias cenas através de belos raccords, que ajudam com elegância na compreensão do espectador.


Mas o grande destaque de O Touro Ferdinando é mesmo seu personagem-título: dublado na versão brasileira pelo competente Duda Ribeiro (o Ken de Toy Story 3) e no original pelo ex-lutador John Cena (Na Mira do Atirador), Ferdinando é o típico brutamontes com sentimentos, um grandalhão sensível e inocente, que não consegue esconder sua aversão à natureza violenta de sua espécie. Apaixonado por flores, seu maior sonho é escapar da arena de batalha, contrariando seus amigos e causando estranheza. Sem qualquer subtexto malicioso (e que é acertadamente corroborado pelo trabalho vocal de Duda Ribeiro), Ferdinando é apenas alguém que não concorda com a violência. O fato de ser sentimental é apenas um traço de seu caráter multifacetado. Adorável e extremamente carismático, o touro é o destaque incontestável da produção.


Já dos personagens secundários, a espevitada cabra Lupe (voz de Kate McKinnon, no original) é levemente prejudicada por uma performance pouco vigorosa de Thalita Carauta (Duas de Mim), que não consegue acompanhar a energia de sua personagem. E se Maísa Silva (estrela do SBT) faz um bom trabalho ao emprestar sua voz para a jovem Nina, Otaviano Costa (apresentador da Rede Globo) diverte através do forte sotaque empregado na voz do cavalo Hans, ao passo que os três ouriços larápios devem fazer sucesso com a criançada ao roubarem (também) a cena.


“Homenageando” (ou plagiando?) Toy Story 2 ao colocar Ferdinando para convencer um amigo de que sua antiga dona poderá amá-lo, O Touro Ferdinando também dá uma sonora alfinetada nas touradas, condenando a violência praticada contra os animais nesses colossais eventos com o objetivo de entreter (e não deixa de ser irônico constatar que o protagonista é dublado por um lutador profissional). Em tom pacifista, a produção se encerra de forma previsível, mas tresloucada, representando pouco mais de 100 minutos da mais pura diversão escapista.


NOTA 7

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