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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Um Pequeno Favor" é eficiente ao narrar suspense com pitadas de humor

Stephanie (Anna Kendrick) é uma mãe impecável que além de viver humildemente no subúrbio, mantém um vlog onde compartilha suas melhores dicas. Já Emily (Blake Lively) é aquele tipo de mãe que não tem muito tempo para cuidar do filho, passando mais tempo viajando do que em sua estonteante mansão. Como é possível notar, o único elemento em comum entre as duas é o fato de serem mães, mas é justamente através de seus filhos que elas acabarão tendo suas vidas cruzadas.


Escrito por Jessica Sharzer (do bacaninha Nerve: Um Jogo Sem Regras), a partir do livro homônimo de Darcey Bell, o roteiro deixa bem claro desde o início que estamos diante de personagens contrastantes, como ao apresentar Stephanie de forma singela por meio de um de seus vídeos e reservar uma sequência em câmera lenta e envolta em mistério para introduzir Emily.


Claro que não demora muito até que o próprio script justifique o título da produção, ao colocar Emily numa situação onde precisará recorrer à sua mais nova amiga para cuidar de seu pequeno Nicky (Ian Ho). E não se preocupe, pois o tal favor é solicitado ainda no primeiro ato, o que o descaracteriza como spoiler, certo?


Pois bem, assim que a trama passa por seu primeiro ponto de virada, Um Pequeno Favor vai gradativamente ganhando tons cada vez mais sombrios, o que fica patente na chegada das autoridades para investigar aquele que passa a ser o mistério central da narrativa. O problema é que enquanto a história vai caminhando com as próprias pernas pelo caminho do neo-noir, o cineasta Paul Feig (de comédias como Missão Madrinha de Casamento e Caça-Fantasmas) parece sempre atraído pelo humor, como se não conseguisse entregar-se de vez ao soturno.


Essa imposição cômica ao script rende alívios cômicos exagerados como Darren (Andrew Rannells, de Um Senhor Estagiário) e as mães que insistem em comentar sobre a vida das protagonistas, denunciando uma curiosa insegurança do próprio Feig, que parece não confiar na dinâmica entre Kendrick e Lively, o que é uma pena já que, apesar do show de palavrões, a dupla constrói uma química em cena que só facilita quando as piadas surgem (brotherfucker talvez seja a tirada mais divertida).


Stephanie cai como uma luva a Anna Kendrick, uma atriz famosa pelos tipos meigos e inocentes. A indicada ao Oscar (por Amor Sem Escalas em 2010) não demonstra a menor dificuldade em imprimir doçura e pureza à mulher, fazendo com que o espectador não duvide da ‘santidade’ tão frequentemente atribuída a ela (embora imediatamente negada). Méritos também para os ótimos figurinos de Renee Ehrlich Kalfus (Estrelas Além do Tempo), que reforçam a personalidade de Stephanie por meio de peças sempre conservadoras e que fazem dela a ‘certinha’ da história.


Por outro lado, Blake Lively é exatamente o oposto, ostentando modelos sempre sofisticados e que combinam com a arquitetura arrojada de sua casa. Lively, aliás, volta a transmitir segurança, seguindo a ótima fase de sua carreira iniciada por Café Society. Aqui, embora não vá muito longe do padrão de suas encarnações recentes, ela consegue fazer de Emily uma figura sedutora, mas sem abandonar aquele ar de mistério que sugere perigo.


Caindo em suas próprias artimanhas, Um Pequeno Favor acaba sendo engolido pelas próprias ambições já que, ao adotar uma estrutura de reviravoltas apoiadas em jogadas supostamente sagazes, o roteiro cria uma armadilha para si mesmo ao permitir que o espectador sempre questione a veracidade do que está na tela. Com isso, alguns artifícios soam simples demais para acreditarmos (uma câmera oculta? Sério?). Já outros são pouco honestos mesmo (e não revelarei para evitar spoilers). Em contrapartida, as sequências em que vemos flashbacks desmentindo os relatos de determinados personagens em tempo real, são particularmente eficazes.


Minado pela visão de um diretor que não resiste à sua verve cômica, Um Pequeno Favor é, de fato, uma experiência divertida e moderadamente arrojada, mas que jamais tem a coragem de abraçar sua natureza anárquica. Numa analogia improvisada, o cineasta Paul Feig seria como um piloto de helicóptero que ao invés de alçar voo e cruzar os céus, insiste em permanecer no chão e percorrer estradas.


NOTA 7

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