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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Vidas à Deriva chega aos cinemas buscando lágrimas

“Ela (Shailene Woodley) estrelou A Culpa é das Estrelas. Ele (Sam Claflin), Como Eu Era Antes de Você. Ela já se aventurou pelo território das adaptações literárias juvenis (Divergente). Ele fez sucesso com Jogos Vorazes. Ambos estão em alta. Que tal fazer um filme com os dois como um casal?”


Essas palavras poderiam facilmente ter saído do brainstorm que gerou Vidas à Deriva. E talvez até tenham saído mesmo, mas o fato é que era apenas uma questão de tempo até um produtor enxergar o potencial de um casal formado por Shailene Woodley e Sam Claflin, dois atores extremamente carismáticos e talentosos.


Aqui, Woodley interpreta Tami, uma jovem aventureira que depois de sair de casa aos dezesseis anos, nunca mais voltou, pegando carona em diversos navios e desbravando o mundo até chegar ao Taiti, onde conhece Richard (Claflin), um velejador britânico mais velho e que curte viajar sozinho, alegando que “a sensação de estar velejando é muito mais forte que a solidão”. Claro que essa desculpa para de colar no momento em que os dois se apaixonam e decidem conhecer o mundo. Mas uma vantajosa proposta é oferecida a Richard: Levar um iate até a Califórnia e receber, além do pagamento, duas passagens de volta. Na primeira classe. Uma perfeita viagem romântica pelo oceano é desenhada pelo destino, só que uma grande tempestade surge no caminho, evoluindo, simplesmente, para o maior furacão da história do pacífico, danificando a embarcação e ferindo Richard gravemente, impondo a Tami a difícil tarefa de sobreviver, cuidar de seu namorado e torcer para que o vento e a correnteza a levem para terra firme.


Depois de estabelecer esse cenário, que parece saído diretamente de uma tragédia melodramática dos primórdios do Cinema, o roteiro dá início a uma dinâmica que alterna as sequências de sobrevivência com aquelas em que o casal está se conhecendo, numa estrutura que afunila a trama até o clímax, onde ambas se encontram. E se o ritmo acaba prejudicado (quando finalmente engrena, corta-se para outro núcleo narrativo), pior acontece com a sequência do acidente, já que todo o suspense criado é frustrado pela fragmentação daquele que deveria ser o ponto alto da história, diluindo severamente o seu impacto ao manter a alternância com a história de amor inicial.


Já a tal história de amor, que também acaba prejudicada pelo mesmo motivo, é relativamente compensada pela boa química do casal protagonista, que conduz a narrativa com leveza e simpatia, levando-nos a torcer para que tudo dê certo. Nesse sentido, méritos exclusivos de Shailene Woodley e Sam Claflin. O britânico, já um veterano das produções românticas, encarna o papel do galã solitário com extrema naturalidade, utilizando seu carisma habitual para transformar Richard num dos destaques do projeto, ao passo que Woodley, mesmo abaixo de seus trabalhos anteriores, brilha com sua entrega em cena, investindo numa composição que a permite sustentar boa parte do filme sozinha, ainda que exagere aqui e ali com os gritos roucos (no melhor estilo Jennifer Lawrence).


Menos exagerada, felizmente, é a direção do islandês Baltasar Kormákur, que utiliza a experiência adquirida com dois filmes que envolvem o mar (especialmente o bom Sobrevivente), para conduzir a história de forma correta e sem sobressaltos. Kormákur deixa que seus atores brilhem sozinhos, adotando uma perigosa abordagem que flerta o tempo todo com o burocrático, e é uma pena que o momento em que seu talento finalmente é posto em prática (a sequência do acidente), dure tão pouco, o que não deixa de ser frustrante se observarmos a competência do cineasta em transmitir urgência e estabelecer uma geografia de cena compreensível.


Contando também com efeitos visuais surpreendentes (ainda mais levando em conta seu modesto orçamento) e que convertem o clímax da projeção num evento absolutamente desesperador (com direito a paredão aquático), Vidas à Deriva prefere mesmo é dar espaço para o relacionamento entre Tami e Richard, e isso inclui a ótima fotografia do premiado Robert Richardson (Os Oito Odiados), que investe numa paleta sempre quente nas cenas do casal, enquanto inverte a temperatura nos momentos pós-acidente, sabendo usufruir também das belíssimas paisagens de Fiji.


Em contrapartida, se a trilha sonora de Volker Bertelmann (Lion - Uma Jornada Para Casa) surge apropriadamente triste, aos poucos vai ganhando tons melosos e que insistem em comentar cada passagem relevante da trama, comprovando a mão pesada do compositor alemão. E a cada beijo apaixonado entre Tami e Richard, admito que estava esperando pétalas de rosas caírem do céu e pássaros surgirem cantando, tamanha é a forçada de barra.


Pecando também no terceiro ato, quando o didatismo excessivo revela falta de confiança na inteligência do espectador, Vidas à Deriva assume-se como uma típica experiência feita sob medida para provocar lágrimas, e embora não seja ressonante como busca ser, possui atores bons o bastante para que a atenção do espectador seja facilmente capturada.


NOTA 6


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