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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Zumbilândia 2" diverte tanto quanto o anterior

Quando Zumbilândia estreou, há longínquos 10 anos atrás, o mundo ainda não havia sido invadido pelos zumbis que, embora hoje já não estejam mais no auge, chegaram a dominar quase todas as mídias, com séries de TV, filmes, quadrinhos, e toda a sorte de produtos pop. Um dos grandes responsáveis pela renovação da popularidade dos mortos-vivos, Zumbilândia se destacou justamente por adotar uma abordagem diferente. Inventivo e sempre irreverente, o resultado foi um sucesso surpreendente ao redor do mundo, aos poucos conquistando o status de filme cult necessário para viabilizar uma (aguardada) continuação 10 anos depois.


O que fez de Zumbilândia um sopro de ar fresco para um subgênero há décadas saturado, foi a linguagem debochada e descolada dos roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick (cujas carreiras decolaram), o que, aliado a um quarteto carismático liderado por um ensandecido Woody Harrelson, fez com que a produção rapidamente caísse nas graças do público, que pedia desesperadamente por uma continuação. Ela, enfim, chegou. E com o retorno não só do elenco e de boa parte da equipe técnica, como principalmente de Reese e Wernick, hoje roteiristas disputados pela indústria e responsáveis pela recente adaptação de Deadpool. Pois a boa notícia é que Zumbilândia: Atire Duas Vezes é hábil ao resgatar o espírito sacana e juvenil de seu antecessor. A má é que fica nítido ao espectador a dificuldade dos roteiristas em dar um sentido a esse novo e desejado reencontro.


Abrindo a narrativa com a mesma ironia que caracterizou o original, Reese e Wernick são inteligentes o bastante para não ignorarem a óbvia passagem do tempo e as consequentes mudanças que o mundo do entretenimento experimentou, especialmente o retorno dos zumbis à popularidade. “Obrigado pela preferência”, agradece Columbus (Jesse Eisenberg) em sua narração inicial, reconhecendo a farta gama de produtos estrelados por mortos-vivos. Isso, claro, torna-se um prato cheio para a dupla brincar com referências a The Walking Dead, por exemplo, carro-chefe do subgênero atualmente.


Além disso, a dupla volta a esbanjar criatividade ao retratar a evolução dos zumbis, como as hilárias descrições feitas pelos protagonistas e que citam desde Os Simpsons até O Exterminador do Futuro. Este último, vale destacar, ganha bastante espaço no roteiro, o que certamente empolgará os fãs (como eu). Por falar em fãs, é inevitável reconhecer que Zumbilândia 2 só chegou de fato às telonas graças ao empenho e ao amor de seu público, tão ativo nas redes sociais. A recompensa é refletida diretamente no script, incapaz de resistir ao impulso de incluir referências ao filme de 2009.


O que começa com lembranças divertidas, vai evoluindo para uma preocupação quase desesperada de agradar ao seu público. Aqueles que lembram dos acontecimentos de Zumbilândia, mas sem tanto apego emocional podem se incomodar com a quantidade espantosa de easter eggs. Portanto, caro leitor, se você ainda não assistiu ao primeiro filme, mas nutre curiosidade pela sua sequência, saiba que estará diante de um filme produzido com foco absoluto nos fãs da franquia.


Dando continuidade aos eventos de 2009, Zumbilândia: Atire Duas Vezes mostra, logo de cara, que o grupo adquiriu experiência, migrando de local para local sem muita dificuldade para eliminar os comedores de cérebros. Por outro lado, os personagens ficaram mais velhos e suas necessidades também sofreram mudanças. Enquanto Columbus e Wichita (Emma Stone) alimentam um relacionamento estável, Little Rock (Abigail Breslin) já deixou de ser uma garotinha, procurando espaço para crescer já que Tallahassee (Woody Harrelson) aparentemente a sufoca com seu comportamento paternal. Depois de um longo período de tranquilidade, os problemas começam a aparecer quando Little Rock resolve fugir com Berkeley (Avan Jogia) um músico farsante que vive numa espécie de comunidade hippie.


Diferentemente do original, que não demonstrava interesse em aprofundar seus personagens, Zumbilândia 2 mostra uma clara intenção de criar pequenos arcos para seus protagonistas, diluindo parcialmente aquela aura descompromissada que tanto funcionou no original. Jamais nos convencemos das motivações paternais de Tallahassee, por exemplo, um papel que funciona muito mais exatamente por sabermos apenas o suficiente sobre sua personalidade.


Já o conflito entre Wichita e Columbus funciona apenas para mostrar que o último, felizmente, não faz o tipo de namorado capacho, demonstrando personalidade ao defender seus pontos de vista. Wichita, por outro lado, é pouco aproveitada nesse sentido, ainda que jamais deixe de funcionar, em função do talento e do carisma de Emma Stone, cujo timing impecável eleva a química com Jesse Eisenberg. E enquanto Woody Harrelson segue divertindo (e divertindo-se) a valer com Tallahassee, Abigail Breslin é levemente desperdiçada numa subtrama pouco inspirada e que jamais faz jus ao talento da atriz.


Demorando a engrenar, os roteiristas parecem não saber muito o que fazer durante o primeiro ato, esforçando-se para preencher o caminho até a mudança para o segundo ato, quando o museu de Elvis Presley é introduzido. Mesmo que jamais deixe de divertir, essa irregularidade empalidece diante do ótimo ritmo do primeiro filme. Aliás, é exatamente nesse ponto (museu do Elvis) que Zumbilândia 2 começa de fato a encorpar, com direito a um ótimo plano-sequência com a câmera revelando vários confrontos físicos enquanto passeia pelos cômodos do local. Fruto do orçamento mais robusto, a produção exibe um número maior de sequências de ação, brindando o espectador com criatividade e, claro, efeitos visuais satisfatórios.


Aqui e ali deixando furos pelo caminho (como uma busca que é encerrada antes mesmo de visitar um local), mas fornecendo explicações bem-vindas e pontuais, como a razão para a energia elétrica ainda não ter acabado, Zumbilândia 2 é sempre espetacularmente bem sucedido quando se concentra na interação de seus personagens, elevando o nível da produção através de diálogos afiados e que muitas vezes refletem o talento de seus intérpretes para o improviso (repare na brincadeira com Thor durante o terceiro ato).


E mesmo que fique abaixo do filme de 2009 – cujo nível de divertimento alcançado impressiona até hoje – Zumbilândia - Atire Duas Vezes ainda se coloca acima da média, demonstrando afinidade com seu público mesmo depois de uma década. E se ainda apreciamos visitar Zumbilândia é porque, definitivamente, nos importamos com seus personagens. Nesse caso, que Tallahassee, Columbus, Wichita e Little Rock não demorem outros 10 anos para se reunirem nas telonas.


NOTA 7

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