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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Em "Fim da Estrada", Queen Latifah é sabotada por roteiro nocivo


Cantora de talento chancelado pelo Grammy, Queen Latifah tem uma carreira artística bem diversa. Após brilhar como rapper, ela decidiu migrar para o Cinema, fazendo pequenas participações em Esfera (1998) e O Colecionador de Ossos (1999), até despontar de vez no musical Chicago (2002), pelo qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Em seguida, virou figura fácil em Hollywood, aumentando sua filmografia com obras que nem sempre prezavam pela qualidade, mas que permitiram-na transitar por diversos tipos de comédias, desde a escrachada (A Casa Caiu, de 2003), passando pelo besteirol (Todo Mundo em Pânico 3, de 2004) e até mesmo de ação (Táxi, de 2004).


E mesmo que tenha diminuído sua presença em blockbusters, dedicando-se a projetos televisivos, vem aparecendo esporadicamente em produções menores como o recente Arremessando Alto, com Adam Sandler, lançado há três meses na Netflix. Todavia, por pior que tenham sido Táxi e Loucas Por Amor, Viciadas em Dinheiro (2008), nada em sua carreira se compara a este Fim da Estrada, dirigido por Millicent Shelton após vasta carreira na TV.

Escrito por Christopher J. Moore (estreando no Cinema) e David Loughery (Nurse – A Enfermeira Assassina), a trama acompanha Brenda (Latifah), que após perder a casa financiando o tratamento de seu falecido marido, é obrigada a pegar a estrada com seus filhos e seu irmão (Chris “Ludacris” Bridges, da franquia Velozes e Furiosos), cruzando o sul dos Estados Unidos em busca de um novo lugar para viver. A longa viagem, porém, apresenta uma série de percalços, colocando a pacata família em rota de colisão com um implacável criminoso.

Começando a projeção fazendo um comentário nada sutil sobre as dificuldades enfrentadas por famílias sem plano de saúde, o script dedica todo o primeiro ato a apresentar Brenda como uma mulher determinada a lutar pelo bem-estar de sua família, a ponto de aprender técnicas de defesa pessoal, num esforço dos roteiristas para justificar o que o espectador testemunhará mais adiante. Além disso, ela assume o fardo de ser um exemplo para os filhos, sustentando ideais nobres que constantemente são vistos como conservadores, mas que denotam uma pessoa íntegra e incorruptível. Sendo assim, o filme é competente ao mostrar que estamos diante de pessoas genuinamente legais, potencializando o impacto dos problemas que surgirem.

E se uma ou duas coincidências podem ser relevadas, o roteiro força a barra ao empilhar conveniências que aos poucos fazem o espectador questionar a credibilidade do que está vendo. É como se Fim da Estrada estivesse determinado a testar os limites da suspensão da descrença, como ao colocar a família para se hospedar ao lado de um quarto onde acontece um assassinato brutal, esbarrar com caipiras racistas e se envolver com criminosos de um cartel de drogas. Tudo em sequência.

E não bastassem os absurdos em cena, o roteiro ainda inclui diálogos que parecem terem sido concebidos por uma criança de 8 anos, como a patética tentativa de estabelecer um vilão (“ele é o criminoso mais perigoso do Oeste, tendo matado ao menos 50 pessoas”) e o constrangedor momento em que um racista enfrenta Brenda (“vou te mandar de volta para a África!”). Para piorar, a dupla de roteiristas ainda tem a pachorra de tecer um comentário sobre a repressão policial (“somos pretos, então automaticamente somos suspeitos”).

Esse comentário, vale ressaltar, vai ao encontro de um discurso perigoso justamente pelo maniqueísmo com que é construído, pois ao estabelecer todos os brancos como pessoas ruins ou, na melhor das hipóteses, de caráter dúbio, determinadas a dificultarem a vida dos quatro personagens centrais, únicos negros vistos durante os pouco mais de 90 minutos de projeção, a produção não deixa espaço para o meio-termo, apresentando um grave (e irresponsável) problema de generalização.


Surrupiando elementos de obras infinitamente superiores como Quadrilha de Sádicos (a gangue caipira no meio do deserto) e A Morte Pede Carona (as sequências na estrada), Fim da Estrada ainda comprova a inaptidão da diretora Millicent Shelton (voltando ao Cinema após vasta carreira na TV) para elaborar sequências de ação, seja por abusar da câmera lenta em momentos que já deviam ser embaraçosos antes de saírem do papel (as balas voando pelo carro) ou pela coreografia amadora das lutas corporais.

Prejudicado por um design de produção tão cafona e artificial (repare na iluminação roxa durante as externas do terceiro ato) quanto as transições da montagem (a lua passando pela tela), o filme chega ao final acentuando todos os defeitos que apresentou nos dois primeiros atos, incluindo uma reviravolta absolutamente previsível e que ainda ofende a inteligência do espectador, pois o roteiro faz questão de explicá-la .


Beirando a autoparódia, Fim da Estrada é um filme que pelo menos consegue escapar da indiferença, sentimento mortal para qualquer obra, mesmo que a reação que provoque não seja exatamente a que pretendia.


NOTA 1,5



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