Festival do Rio 2026 | Abertura: "A Bola Preta"


Fazer um filme de histórias cruzadas pode ser mais difícil do que se pensa e não me refiro apenas àquelas de natureza episódica, mas de produções que planejam cada transição e ponto de convergência. Ao seu próprio modo (e sem dar spoilers), Christopher Nolan fez isso em A Origem e o resultado, arrisco a dizer, foi tão espetacular quanto neste A Bola Preta, cujas tramas separadas no tempo se conectam espetacularmente e completam um quebra-cabeça catártico. Mas se o filme de 2009 dividiu seus personagens em camadas oníricas, os espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo espalham homens gays através da História, começando por um trompetista (o popstar local Guitarricadelafuente) que durante a Guerra Civil Espanhola vê a própria aldeia ser dizimada por uma esquadrilha supostamente aliada. É um forma ousada de começar a história, contrariando expectativas e atirando o espectador nos horrores da Guerra sem dó nem piedade.

Depois disso, voltamos algumas casas no tabuleiro do tempo para acompanhar um jovem tímido sendo rejeitado pela comissão de um cassino sob a "suspeita" de ser homossexual, um “delito” grave para quem quer fazer parte de um grupo seleto respeitado pela Sociedade. É o pai de Carlos (Milo Quifes) quem incentiva o rapaz, encorajando-o a negar quaisquer acusações sobre sua sexualidade. A votação do grupo é feita por meio de pequenas esferas e se a branca representa a aprovação, o título do filme é uma boa pista para o veredicto.

Logo menos somos arrastados de volta ao século XXI, mais precisamente 2017, em que Alberto (Carlos González), um historiador e dramaturgo, descobre que o avô (supostamente morto há anos), na verdade acabara de falecer. O relacionamento tenso com a mãe, expondo fricções da própria atualidade, não o impedem de reclamar sua herança: um documento extremamente valioso.

Antes de levar o espectador a experimentar o Nirvana cinéfilo conectando os últimos pontos, os cineastas espanhóis transitam pelo espaço-tempo com uma fluidez digna de costureiros veteranos ligando tramas. Algumas transições, como o uso do som proveniente do encontro de bolas brancas e pretas durante o escrutínio, adicionam uma camada de poesia ao já extremamente lírico longa-metragem, chegando ao ápice na sequência em que Carlos deixa-se levar por uma melodia flamenca e é captado dançando numa longa e enervante tomada.

A narrativa tríptica, todavia, não é formada por histórias, mas por núcleos que se revelam de forma tão complexa quanto bela. Pois apesar de toda a dureza da narrativa, a dupla realizadora alcança uma leveza melancólica que equilibra a balança tonal da narrativa e encontra representatividade na simbólica sequência de um soldado escalando uma imensa estátua de mármore caída e cravejada de flechas.

Para além das sofisticadas engrenagens narrativas, o duo Los Javis oferece ao público um épico sobre o que significa ser queer independentemente da época, sempre prestando reverência aos que vieram antes e tiveram de marcar posição numa época ainda mais dura. A coragem de ser quem realmente é e desafiar as percepções de uma sociedade que julga sua existência, é intrínseca ao discurso do duo hispânico, assim como a Arte representa a forma de comunicação não apenas entre passado e futuro, mas entre indivíduos, principalmente aqueles que a usam para extravasar sentimentos que seriam impossíveis de serem demonstrados de forma mais direta. Nesse aspecto, Penélope Cruz tem participação curta, mas memorável como a cantora burlesca Nené, responsável por ajudar um personagem em seu despertar queer. Glenn Close, falando espanhol, é outro chamariz, embora menos reluzente do que Cruz.

Exibindo uma reconstituição de época minuciosa, A Bola Preta encantou Cannes ao ponto de receber uma ovação histórica e está pronto para tomar de assalto também o Festival do Rio, antes de alçar voo rumo ao Oscar 2027.
NOTA 8,5









