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CRÍTICA | "Verity"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 7 horas
4 min de leitura

A texana Colleen Hoover está caminhando a passos largos para se tornar a mais nova queridinha de Hollywood. Isso porque, depois de emplacar vários livros no topo da lista de best-sellers do New York Times (ela chegou a ocupar, simultaneamente, seis das dez primeiras posições em 2022), Hoover já tem no currículo uma adaptação cinematográfica de grande sucesso. Afinal, não é para qualquer um transformar em fenômeno de bilheteria uma produção tão conturbada (que rende conteúdos sensacionalistas até hoje) e com um resultado artístico tão questionável (leia minha crítica aqui) quanto É Assim Que Acaba. O orçamento de míseros 25 milhões de dólares foi coberto com sobras só em território norte-americano e já no final de semana de estreia (50 milhões), além de ter concluído o circuito com quase 350 milhões de dólares ao redor do mundo. A julgar pela abarrotada cabine de imprensa em que estive presente, Verity tem tudo para seguir o mesmo caminho, não só em bilheteria, mas também em termos narrativos.

Trocando em miúdos, o longa-metragem que estreia amanhã nos cinemas brasileiros não consegue o feito de ser pior que a problemática adaptação produzida e estrelada por Blake Lively, mas quando consideramos o potencial do material de origem, a decepção talvez seja ainda maior. Mesmo que adaptada de outra fonte, toda obra deve funcionar por si própria, de forma independente, mas até quem não leu o livro consegue detectar virtudes que não foram potencializadas no Cinema.

Após supostamente sofrer um acidente de carro e não ter condições de terminar os dois livros que faltam para cumprir um milionário contrato literário, a famosa best-seller Verity Crawford (Anne Hathaway) é representada pelo marido Jeremy (Josh Hartnett) na busca por uma autora talentosa e que tenha afinidade com sua obra. A ideia é oferecer não apenas um pagamento voluptuoso, mas todas as condições imagináveis para que o trabalho atinja o melhor resultado possível, incluindo uma estadia ilimitada na mansão ao lado da família Crawford. Lowen Ashleigh (Dakota Johnson) até pensa duas vezes, mas acaba não resistindo após considerar a própria crise financeira e emocional eclodida com a morte da mãe. Parecia o negócio perfeito até Lowen descobrir um manuscrito secretamente assinado por Verity.

O interessante é que desde o início o diretor Michael Showalter não demonstra a menor intenção de esconder que Verity é um filme b, do tipo que passará no Supercine em alguns anos. A trilha sonora exagerada do alemão vencedor do Oscar Volker Bertelmann (Nada de Novo no Front) capta com perfeição essa atmosfera de sessão da meia-noite. Isso só se torna um problema quando o roteirista exagera e demonstra insegurança quanto suas escolhas.

O exagero da narração, que deixa de ser uma opção narrativa para espelhar a linguagem literária e se torna uma muleta dramática (ao ponto de encher a tela com páginas do tal manuscrito sendo lido em voz alta) é só a ponta do iceberg de um roteiro (assinado por Nick Antosca, da minissérie Cabo do Medo) que se recusa a preparar o terreno adequadamente para a enxurrada de reviravoltas que tomará a narrativa de assalto até o final. Literalmente, pois a última cena do filme é um plot twist explicado na íntegra.

Chega a ser lamentável ver a talentosíssima Anne Hathaway com tão pouco tempo de tela se prestando ao papel de porta-voz de um roteirista tão inseguro. O famigerado frame final usurpa a credibilidade da atriz para forçar um desfecho em aberto, quando o próprio desenvolvimento já pendia para um dos lados da história (os famosos “team manuscrito” e “team carta”). Não seria mal caso a trama abraçasse o camp para se valer do choque barato de suas surpresas, mas quando nos é implorado para sustentar uma hipótese desenvolvida em centenas de páginas, mas atirada em poucos minutos de projeção, não há suspensão de descrença que resolva.

Josh Hartnett, inclusive, é quem melhor entende essa natureza do projeto, com destaque para a sequência em que claramente finge estar chorando. O físico improvável de Jeremy, cuja ocupação é um mistério e só serve para justificar sua ausência em casa, é outro ponto em comum com obras como Garotas Selvagens e outros sucessos das noites de sábado na maior emissora do país.

Por outro lado, Dakota Johnson, que já mostrou habilidades dramáticas em A Filha Perdida e, principalmente, no emocionante The Friend, regride ao modo Anastasia Steele, adotando a “boca semiaberta” da cartilha de Megan Fox, realizando tarefas banais em câmera lenta e apertando os lábios como se isso fosse suficiente para seduzir parte do público. Johnson sequer dá o benefício da dúvida à Lowen e despreza qualquer traço de nuance que pudesse aprofundar a personagem e alimentar o suspense tão almejado pela produção.

Para piorar, na ânsia de tornar o final aberto, o filme deliberadamente ignora questões, como a frase “eu posso explicar”, dita por um personagem. Ora, se é sabido que alguém teve acesso a uma informação importante, como explicar a reação de ambos ao final? E a tal explicação? Isso para não mencionar a artificialidade das sequências oníricas, que parecem feito sob medida para aproveitarem o apelo sexual das atrizes principais.


Mesmo com todas essas ressalvas, Verity nunca é enfadonho e é exatamente por isso que é lamentável a falta de coragem dos realizadores, que ficam no meio do caminho entre e o camp e o macabro sob o medo de desagradar aos fãs do livro.


NOTA 5

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