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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Elementos": O retrocesso criativo por parte de um estúdio que já foi inovador


Hoje um estúdio consolidado e parte do conglomerado Disney, a trajetória da Pixar começou como uma mera divisão de computação gráfica da Lucasfilm (empresa de George Lucas, criador de Star Wars e Indiana Jones) encarregada de desenvolver tecnologias de animação computadorizada. No entanto, foi somente em 1986, com o investimento do empresário Steve Jobs (sim, o ícone da Apple), que a Pixar conseguiu se tornar uma empresa independente. Com o tempo, a equipe de artistas da Pixar começou a explorar o potencial da animação e em 1995 lançou Toy Story, o primeiro longa-metragem inteiramente feito por computação gráfica. O sucesso foi tanto, que o recém-inaugurado estúdio se sentiu encorajado a continuar investindo em longas-metragens para os cinemas, gerando alguns dos maiores clássicos da história das animações, como Monstros S.A., Os Incríveis e Procurando Nemo.

A marca registrada da Pixar, além do pioneirismo, sempre foi utilizar a tecnologia em prol de histórias cativantes, nunca o contrário, fazendo com que o estúdio se estabelecesse como sinônimo de inovação e excelência num cenário até então dominado pela Disney que, não por acaso, desembolsou quase 7.5 bilhões de dólares para adquiri-lo em 2006. Essa fusão não afetou a qualidade das produções da Pixar, que emendou duas obras-primas em sequência: Ratatouille (2007) e Wall*E (2008). Três anos depois, no entanto, a Disney/Pixar tropeçaria pela primeira vez, com Carros 2 sinalizando o esgotamento da fonte de ideias, embora as bilheterias permanecessem lucrativas.

A década de 2010 ficou marcada como um período irregular na história da Pixar, com apenas dois vislumbres de sua era de ouro (Divertida Mente e Viva: A Vida é uma Festa) alternando com filmes originais abaixo da média (Valente e O Bom Dinossauro) e sequências absolutamente terríveis (Universidade Monstros e Carros 3). Em 2019, porém, Toy Story 4 veio para estancar a sangria e iniciar uma fase mais consistente, recolocando o estúdio no topo com histórias menos vanguardistas, mas com a magia de artistas que sempre souberam cativar o público, com Soul e Luca despontando nessa retomada. É uma pena que Elementos, novo longa-metragem da Disney/Pixar, não consiga manter o viés de alta do estúdio, representando um retrocesso criativo que seria inimaginável vinte anos atrás. Isso porque a história regurgita componentes de outras obras (detalharei mais adiante) e os aglutina numa estrutura de comédia romântica que entra em conflito com o discurso do roteiro.

No filme, a Cidade Elemento é uma metrópole cujos habitantes são criaturas que fazem alusão aos quatro elementos (Fogo, Água, Terra e Ar) e que precisam conviver em sociedade. No entanto, as características físicas desses seres impedem que se misturem (um mero aperto de mão entre fogo e água pode ser fatal), fazendo-os dividirem-se em setores com o mínimo contato possível. Contrariando todas as recomendações, Faísca (uma “Pessoa Fogo”) e Gota (uma “Pessoa Água”) começam a se relacionar e acabam se apaixonando, desafiando as convenções sociais. Não é difícil de enxergar a “mensagem” transmitida pelo roteiro, que constrói alegorias nada sutis sobre preconceito e miscigenação para promover uma celebração das diferenças.

Filho de imigrantes coreanos, o cineasta Peter Sohn (dublador de Emile em Ratatouille e diretor de O Bom Dinossauro) não deixa dúvidas de que é a pessoa certa para comandar o projeto, ainda mais quando se traz à tona o fato de que cresceu em Nova York, cidade que nunca tentou esconder sua natureza fragmentada, algo brilhantemente retratado em Os Selvagens da Noite (1979), cuja história apresentava cada bairro como uma tribo. Em Elementos, a lógica é a mesma: Quando um elemento resolve entrar no território do outro, a estranheza é instantânea e o desconforto reflete a crença tão anacrônica quanto verossímil de que a mistura não é algo positivo. Tão básica quanto parece, quando essa premissa é exposta, o roteiro trata de adentrar no campo da comédia romântica, aproveitando tropos intuitivos enquanto estabelece Faísca e Gota como os clássicos opostos que se atraem.

Ainda que Sohn exiba o mesmo talento que a Pixar tem valorizado em seus quase trinta anos de produções cinematográficas, conferindo carisma e doçura à narrativa, parece que o realizador e sua equipe de roteiristas identificaram a simplicidade excessiva do fio condutor, mas acabaram adicionando (com o perdão do trocadilho) elementos demais, dilatando a narrativa com subtramas e alegorias que além de diluírem o impacto do discurso aos olhos dos adultos, tenderá a perder de vista os espectadores mais jovens, por mais nobres que sejam as intenções.

O romance estilo Romeu e Julieta (ou Orgulho e Preconceito, de acordo com uma referência explícita quando os personagens passam pela fachada de um cinema) divide espaço com o dilema da protagonista (viver o sonho dos pais ou perseguir o seu próprio?) e suas respectivas consequências (todas previsíveis) e ainda tem de permitir o manuseio de tópicos sensíveis que envolvem diferenças de classes (esses trabalhados com algum cuidado). A obviedade que acompanha o desenvolvimento da trama é tristemente refletida na forma nada original com que o universo de Elementos é concebido: não bastasse a semelhança com o vastamente superior Divertida Mente (as quatro emoções humanas são substituídas pelos quatro elementos), a Cidade Elemento é uma versão menos inspirada daquela vista no excelente Zootopia, trocando as fissuras entre os animais (predadores/presas) pelas diferenças aparentemente irreconciliáveis entre os Elementos.

Exibindo arranha-céus metálicos em seu centro nervoso (com direito a monotrilho semelhante ao de Zootopia) e edificações rústicas em seus bairros periféricos, espelhando a Nova York da realidade, a Cidade-Elemento não é pulsante como se espera de uma produção da Pixar, além de não exalar a mesma criatividade das obras citadas no início desse texto. Por outro lado, é fascinante perceber como a atenção aos detalhes continua intacta e basta perceber a movimentação fluida das “Pessoas Água” (caminhando de forma trôpega como se fossem colchões d’água), ou a textura detalhada dos transeuntes que se avolumam no segundo plano, para constatar que estamos de fato assistindo a um filme produzido pela Pixar.

Igualmente elogiável é a trilha sonora do sempre excepcional Thomas Newman, compositor quinze vezes indicado ao Oscar, sendo três por filmes da Pixar, cuja parceria foi herdada do pai, o lendário Randy Newman, vencedor do Oscar por Toy Story 3 e Monstros S.A. e autor da versão original da inesquecível “Amigo, Estou Aqui”. Newman compõe uma melodia que foge da costumeira insistência de seus colegas de profissão em buscar acordes grandiosos para acompanharem o movimento das histórias, optando por uma trilha simplificada que ecoa a atmosfera reconfortante que permeia a narrativa, além de estar fadada a se instalar na cabeça do espectador por muito tempo. É dele também a canção-tema “Steal The Show”, co-escrita pelo músico Lauv (também intérprete) e que pode aparecer na temporada de premiações.

No meio dessa profusão de temas desajeitadamente conduzidos, a experiência oferecida por Elementos é salva graças a alguns lampejos da magia Pixar, quando Sohn consegue lembrar dos motivos que levaram o estúdio a reinar soberano por mais de uma década no cenário das animações, resultando em momentos que combinam humanidade e criatividade, características que ficam escancaradas, por exemplo, na cena em que Faisca visita Wade para conhecer sua família. As “Pessoas Água”, afinal, são seres de modos mais refinados e sensíveis, ocupando a parte nobre da cidade (ao contrário das marginalizadas "Pessoas Fogo"), composta por apartamentos luxuosos. A cena em questão ressalta a facilidade com que Wade e seus familiares se emocionam, entregando-se a lágrimas que colocam Faísca sob o risco de apagar. Outro momento, esse mais dramático e próximo do desfecho, envolve um diálogo entre Faísca e o pai (“a loja nunca foi meu sonho... você era o meu sonho!”, diz o personagem dublado por André Mattos na versão brasileira).

Exibindo furos pontuais como ao trazer um personagem indo ao resgate de Gota sem tê-lo visto entrar no recinto e ao convenientemente impedir que Faísca queime papéis importantes, Elementos é uma produção mediana que carrega em sua estética o selo Pixar de qualidade, mas que esbarra num roteiro que falha em conciliar as ambições de seu discurso ao modelo naturalmente despretensioso do subgênero no qual se encaixa.


Obs: Um curta-metragem envolvendo dois personagens queridos é exibido antes.


NOTA 6

1件のコメント


ゲスト
2023年6月22日

Como sempre, li suas Críticas e vou assistir .

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