CRÍTICA | "Caso 137"
- Guilherme Cândido
- há 3 dias
- 3 min de leitura
*Crítica publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2025

Quem conhece a filmografia do cineasta alemão Dominik Moll, sabe de seu fascínio pelos meandros investigativos, o que, nesse aspecto, faz este Dossiê 137 parecer até uma continuação de A Noite do Dia 12 (2022), seu ótimo filme anterior. O que esses procedurais (isto é, histórias centradas em procedimentos, sejam policiais ou não) têm que outros tantos não, é um detalhamento minucioso de aspectos que normalmente ficam de fora das telas. Além dos tradicionais interrogatórios e das perseguições, os filmes de Moll costumam trazer policiais redigindo, de fato, a própria papelada. Relatórios, por exemplo, ocupam espaço privilegiado, sendo narrados até pelos protagonistas, no caso, Bastien Bouillon no filme de 2022 e Léa Drucker na produção que chega ao Festival do Rio após competir pela Palma de Ouro no início do ano.

Novamente responsável pelo roteiro ao lado de Gilles Marchand, a história baseada em fatos acompanha Stéphanie Bertrand (Drucker), inspetora do IGPN, departamento da polícia nacional focado em infrações cometidas por membros da própria corporação. O ano é 2018, época em que os manifestantes conhecidos por “coletes amarelos” se mobilizaram intensamente pelas ruas de Paris reivindicando melhorias sociais. Um deles, o jovem Guillaume Girard (Côme Péronnet), mesmo desarmado e batendo em retirada, é atingido na cabeça por uma bala de borracha e acaba internado em estado grave. Para descobrir quem efetuou o disparo e aplicar as devidas punições, Stéphanie inicia um longo processo.

Para começar, a escalação da experiente Léa Drucker (do excepcional Close) como a inspetora é um acerto crucial para a eficácia da trama, pois a francesa consegue transmitir os níveis exatos de segurança e credibilidade demandados pelo papel. Com isso, não temos a menor dúvida da capacidade da mulher, muito menos de sua ética profissional. Acostumada a interpretar figuras de autoridade, Drucker demonstra naturalidade ao conduzir os vários interrogatórios, merecendo elogios por compor Stéphanie como uma pessoa calma e ponderada mesmo perante depoentes claramente ardilosos.

Curiosamente, o timing da produção se revela uma maldição justamente por ser perfeito. Afinal, vivemos tempos inflamados, numa sociedade cada vez mais inquieta e a polícia passa longe de contar com o apoio da população. Aliás a péssima relação da força policial para com cidadãos é um fenômeno mundial, com relatos de repressão e manifestações pipocando em todas as partes do globo terrestre. Por isso, é frustrante perceber o distanciamento que o roteiro resolve tomar de questões potencialmente espinhosas, optando por focar nas especificidades do caso ao invés de expandir o escopo. O mesmo vale para o outro lado da história, pois Moll e Marchand jamais se aprofundam nas motivações das manifestações, atendo-se a justificativas genéricas.

Os roteiristas trocam o aprofundamento político por um desenvolvimento mais sólido da protagonista, cuja vida fora do trabalho é abordada com extremo interesse especialmente da direção. Além de vermos Stéphanie em momentos de descontração ao lado dos colegas, ficamos a par de seu relacionamento com o ex-marido e com o filho, que por tabela oferecem a oportunidade para Moll e Marchand tecerem comentários sobre a opinião pública em relação aos policiais.

Ainda mais promissor do que A Noite do Dia 12 ao fornecer um volume maior de matéria-prima para conflitos e questionamentos, Dossiê 137 acaba limitando seu próprio alcance, que não é baixo, mas fica aquém do seu potencial.
NOTA 7,5






