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CRÍTICA | "Maldição da Múmia"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 16 minutos
  • 3 min de leitura

O produtor Jason Blum passou grande parte da divulgação de Maldição da Múmia tentando desesperadamente desvinculá-lo da franquia noventista estrelada por Brendan Fraser e Rachel Weisz. Não há ligação alguma, é verdade, mas os dois filmes não poderiam ser mais diferentes em tom, estrutura e proposta. Eu ficaria curioso mesmo é para vê-lo tentar diferenciar a nova produção de “inspirações” como O Exorcista, Hereditário e Evil Dead, cujo último filme é do mesmo Lee Cronin contratado por ele para escrever e dirigir seu novo projeto, diga-se de passagem.


Apesar de ser conhecido por produções relativamente baratas, Blum nunca havia economizado no elenco, mas desta vez finalmente parece ter dado o braço a torcer. Jack Reynor, de Midsommar (dirigido pelo mesmo Ari Aster de Hereditário) é um correspondente estadunidense no Cairo. Em meio a reportagens sobre roubo e contrabando de artefatos históricos, ele vive de forma pacata com a esposa e o casal de rebentos, até ver a filha ser raptada diante dos próprios olhos e nada poder fazer. Oito anos se passam até a família receber a notícia de que a menina foi encontrada em estado delicado de saúde e... dentro de um sarcófago, perdido no meio de um oásis após cair de um avião (que o contrabandeava, é claro). Apesar de todos os maus presságios, o sujeito resolve levar a jovem para casa e depois que coisas estranhas começam a acontecer, decide tentar convencer a esposa a internar a coitada, mas sem sucesso. Como em quase todo bom filme de terror, a teimosia costuma cobrar altos preços...

O que talvez tenha motivado a Warner a exigir um embargo dos críticos que compareceram na cabine é a tentativa de esconder que a múmia não é exatamente aquele monstro popularizado pelos filmes da Universal. Sim, há referências como as famosas bandagens (aqui atualizadas de forma perspicaz), tempestades de areia, os supracitados sarcófagos e, lógico, a ambientação no Egito, dando credibilidade a toda uma subtrama de descobertas arqueológicas aterrorizantes.

Mas o que Lee Cronin faz é contar uma clássica história de possessão demoníaca, do tipo que ele fez no já citado Evil Dead, do qual pega emprestado uma série de elementos e conceitos - e quem assistiu ao mais recente capítulo vai notar semelhanças até entre as vilãs. Tumbas sombrias e hordas de escaravelhos? Aqui aparecem como meros easter eggs em duas ou três rápidas passagens. A marca “Múmia” torna-se apenas uma fachada para atrair um nicho maior do que os entusiastas da demonologia cinéfila. Por outro lado, até eles vão concordar que o cenário egípcio é completamente dispensável, pois francamente, uma possessão pode acontecer em qualquer lugar, não é verdade?

Se falta originalidade no conceito e as ideias apresentam desgaste, o realizador acaba tendo de apelar para a nojeira, usando e abusando de sequências em que olhar para a tela se transforma numa prova de resistência. Há gore, mas também bastante escatologia, tudo em prol de um show de horrores cujos efeitos passam longe de serem duradouros. E quando Cronin finalmente se dá conta de que o medo é muito mais poderoso do que jump scares, vômitos na cara e dentes arrancados a sangue frio, infelizmente já estamos no terceiro ato, disparado o melhor justamente por mergulhar o espectador numa atmosfera quase insuportável. O cineasta brilha ao lançar mão de um verdadeiro arsenal de artifícios para causar incômodo, seja ao investir na instabilidade da câmera (consequentemente da imagem), em quadros fechados e escuros ou ao simplesmente deixar os efeitos sonoros brilharem. E quando você pensa que já está diante do pior cenário possível, Cronin faz questão de arrancar o último fiapo de esperança do mais indiferente dos espectadores. O desespero é tão palpável que mal conseguimos continuar assistindo, dada a sensação de que tudo e todos irão pelos ares.

Nos instantes finais, urge a necessidade de provocar um sentimento de conclusão, mas a estapafúrdia sequência que encerra a narrativa faz também uma rima com o início (a música é a mesma), o que ameniza os efeitos colaterais, embora seja insuficiente para apagar a impressão derivativa deixada pelos dois atos anteriores. Derivativo ou não, Maldição da Múmia é um filme eficiente, feito com uma frieza profissional que pode recompensar pouco mais de duas horas investidas, mas que dificilmente voltará à lembrança depois disso.


NOTA 6

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