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CRÍTICA | "Alpha"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 9 horas
  • 2 min de leitura

*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2025


Depois de chocar o mundo do Cinema ao se tornar a segunda mulher a levar a Palma de Ouro, Julia Ducournau, claro, recebe todos os holofotes possíveis no lançamento de seu filme seguinte, este Alpha, com o qual competiu pelo bicampeonato em Cannes. Além do triste componente machista, sua vitória ainda contou com o bônus pelo tipo de filme que dirigiu, o singular Titane (2021). Trabalhando uma rica sucessão de alegorias surreais, o longa-metragem serviu para mostrar a predileção de Ducournau por elementos de body horror, remetendo imediatamente ao mestre David Cronenberg. Em Alpha, o horror corporal está de volta, embora dessa vez seja mais uma ferramenta estético do que propriamente narrativa.


Aliás, ainda que volte a mostrar personalidade e segurança como diretora, infelizmente suas habilidades de roteirista decepcionam quando percebemos a natureza dispersa da narrativa. Entre as tramas brigando pela atenção de Ducournau está um coming of age e uma metáfora escancarada sobre a epidemia de AIDS nos anos 80, por exemplo. Há também drama de relacionamento entre tio e sobrinha, um personagem lutando contra o vício em heroína e uma médica paranóica afetando a vida de sua família.

O que acaba chamando mais atenção, claro, é o tal vírus misterioso: funcionando como a já citada alegoria sobre a AIDS, a condição também oferece um prato cheio para Ducournau explorar sua criatividade. Num exemplo prático de economia narrativa, a artista usa apenas um movimento de câmera, passando por uma ala de infectados, para mostrar vários estágios da doença, exemplificando sua progressão. O ótimo trabalho de maquiagem transforma seres humanos em verdadeiras estátuas de mármore num nível, e deixa a pele com a textura de um solo árido quebradiço em outro, o que rende um dos momentos mais aflitivos da obra quando um infectado é submetido a uma biópsia.

Contando com uma fotografia inteligente que faz uma perfeita distinção entre os flashbacks e o presente (algo fundamental dada a mistura de elementos feita por Ducournau), Alpha infelizmente soa repetitivo ao ilustrar os efeitos da paranóia sobre a protagonista e a reação de suas colegas de escola, invariavelmente incorrendo no bullying. Essas passagens inclusive podem gerar um outro significado, mais condizente ao coming of age e a relação das meninas com o sangue gera uma imagem evocativa envolvendo uma piscina.

Pecando mais clamorosamente em seu desfecho, quando apela para imagens gráficas e gera múltiplos finais, Alpha pode até ser um trabalho irregular de Júlia Ducournau, mas a cineasta tem crédito suficiente para permanecer no radar dos cinéfilos.


NOTA 6,5

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