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CRÍTICA | "Águas Mortais"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura

Depois de ajudar Tom Hanks a realizar uma amerissagem no bom Sully: O Herói do Rio Hudson (2016), Aaron Eckhart (o Harvey Dent de Batman: O Cavaleiro das Trevas) volta a interpretar um copiloto obrigado a salvar passageiros no meio da água. O que ele não contava é que dessa vez teria de superar também tubarões-tigre famintos.


Outro retorno inesperado, mas aos famigerados filmes de tubarão, é o do veterano Renny Harlin, vinte e sete anos após ter dirigido uma das produções mais cultuadas do subgênero, o divertido e absurdo Do Fundo do Mar (1999). O finlandês, que já comandou grandes filmes de ação como Duro de Matar 2 (1990) e Risco Total (1993), vinha de uma fase conturbada assinando produções desovadas nas locadoras (incluindo uma parceria com o próprio Eckhart) até retornar aos cinemas com a recém-finalizada trilogia de terror Os Estranhos.

Na trama, preparando-se para embarcar num voo de Los Angeles para Xangai, um passageiro omite o fato de estar despachando uma mala contendo um power bank defeituoso dentro. Claro que o dispositivo não só entra em curto, como pega fogo dentro da bagagem, escalando para um incêndio de grandes proporções no porão da aeronave. Até o momento espetaculoso em que nem o piloto vivido por Ben Kingsley (Nosso Amigo Extraordinário) ou o atormentado 2P encarnado por Eckhart, consegue salvar o bimotor lotado de se espatifar no meio do Oceano Pacífico.

A sequência do acidente, aliás, traz os melhores momentos da projeção, com Harlin fazendo questão de captar cada detalhe do desastre, incluindo não só planos-detalhe das fuselagens se rompendo ou dos motores partindo dessa para melhor, mas também sádicas tomadas em câmera lenta esmiuçando (com direito a imagens gráficas) as lesões sofridas pelos pobres passageiros.

Que, por sua vez, não passam de criaturas unidimensionais, isto é, arquétipos definidos por apenas uma característica, para facilitar o reconhecimento na hora de serem devorados: há o jovem apaixonado, os irmãos que não se entendem, o casal fogoso, a senhorinha espirituosa e, claro, o sujeito intragável (mas deglutível). Todos servindo à única e específica função de potenciais vítimas dos tubarões, que deveriam ser as grandes estrelas, mas demoram quase uma hora para entrarem em cena. Os efeitos visuais, pelo menos são até decentes: se fica evidente a natureza digital das criaturas, Renny Harlin é inteligente o bastante para mostrá-los apenas em flashes, valorizando os sustos provenientes de ataques repentinos (na hora de pular da cadeira, ninguém terá tempo de prestar atenção nos efeitos visuais, sejamos honestos).

O problema é ter que esperar tanto tempo para o filme entregar o que o inspirado e ostensivo marketing sempre prometeu. Até lá, somos obrigados a aturar uma galeria de figuras desinteressantes, diálogos rasos e sentimentalismo barato. E pasme: para isso ainda foi necessário reunir uma equipe de nada menos que cinco supostos profissionais para escreverem o roteiro. Dando nome aos bois, Pete Bridges (estreando no Cinema), Damien Power (do razoável Sem Saída), John Kim (de A Isca), Shayne Armstrong e S.P Krause (ambos do deplorável A Escuridão), até esboçam alguns pequenos conflitos e dramas, mas além de serem superficiais, acabam desenvolvidos às pressas. Rivalidades aparecem e subitamente desaparecem, celeumas são resolvidas num par de diálogos motivacionais e personagens se reconciliam do mais absoluto e obscuro nada. Sem envolvimento emocional, como vamos temer pelo destino dos passageiros?

Nem a direção de Harlin salva o dia, já que, por mais que de fato ainda demonstre alguma habilidade para conduzir sequências de ação, quase todas são concebidas de forma burocrática. O único momento realmente memorável acontece lá pelos instantes finais, com um heroico Aaron Eckhart emergindo no último segundo para salvar uma garotinha de ser devorada, disparando um sinalizador na fuça de um tubarão. Não é original, é verdade, mas o restante tampouco. E quando a mediocridade é o padrão, um clímax minimamente empolgante já chama atenção.

Águas Mortais não chega a ser uma catástrofe cinematográfica, mas também não tem brilho suficiente para ser lembrado, ficando a várias milhas náuticas de sucessos relativamente recentes como Águas Rasas (ainda o melhor deste século) e Megatubarão, por exemplo.


NOTA 4,5

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