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CRÍTICA | "O Sorveteiro"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 17 horas
  • 3 min de leitura

Eli Roth ganhou certa fama no início dos anos 2000 ao dirigir filmes como Cabana do Inferno e O Albergue, que inclusive fez sucesso ao ponto de se tornar uma franquia e posicionar o cineasta como um expoente do chamado “torture porn”. Nada contra quem aprecia ver personagens sendo desmembrados para um suposto entretenimento, mas quando analisamos a carreira de Roth, o que sobra? O pavoroso Bata Antes de Entrar? A razoável refilmagem de Desejo de Matar? Talvez a colaboração com Robert Rodriguez e Quentin Tarantino (Grindhouse)? Aliás, seu melhor momento no Cinema, ironicamente, não foi como diretor, mas sim interpretando o sanguinário Urso Judeu do ótimo Bastardos Inglórios de Tarantino. De lá para cá, a lembrança mais fresca que temos de Eli Roth é como o responsável pela bomba Borderlands, o que diz muito sobre os rumos de uma carreira que, na verdade, passou por mais baixos do que altos.

 

O Sorveteiro, seu mais novo projeto, poderia ser encarado como uma homenagem aos filmes trash, do tipo que fazia sucesso nas locadoras, mas que acaba se tornando um longa-metragem artificial, preguiçoso e, o mais grave: entediante.

A trama escrita pelo próprio Roth imagina um sorveteiro misterioso (Ari Millen) chegando a uma cidadezinha norte-americana apenas para transformar as crianças locais em assassinas brutais, graças a uma espécie de feitiço que só quem toma o sorvete oferecido por ele está suscetível. As últimas esperanças dos adultos acabam depositadas numa jovem com fortes traços de anorexia e um pré-adolescente intolerante a lactose.

 

Sim, é nesse nível.

O maior problema do longa-metragem não é a estrutura frágil do roteiro, as inúmeras conveniências, o panfletarismo descarado ou a estranhíssima sequência em que Roth, no papel de um pai de família, faz uma piada de cunho sexual envolvendo a amiga adolescente de um dos filhos. O problema é não ser ruim o batante para ao menos podermos nos divertir com isso, como num legítimo filme B.

Os assassinatos, chocantes nos primeiros momentos, vão se banalizando à medida que a estratégia de Roth se repete, às vezes trocando apenas a arma utilizada para brutalizar adultos, que aparecem de um em um com o mero propósito de serem abatidos. Não há o trabalho sequer de diversificar a correria do trio principal, apenas fazendo pequenos interlúdios para mostrar a escala das repetições.

Dessa forma, o impacto rapidamente se dissipa e a ausência de uma mínima construção de tensão acaba inevitavelmente atirando o espectador num tédio que dura aproximadamente uma hora e vinte e seis minutos. E fica pior quando o roteiro resolve empurrar goela abaixo uma desnecessária montagem dando conta da origem do Sorveteiro que interrompe a história principal para regurgitar clichês tentando referenciar Freddy Krueger.

Tecnicamente, o filme ainda consegue a proeza de ser polêmico ao abraçar o uso de IA para ajustar um visual já artificial e pasteurizado. Diferente de David Robert Mitchell, que estilizou o subúrbio para fazer um comentário específico em O Fim da Rua, Roth, através do diretor de fotografia Simon Shohet, investe num visual lavado, de cores fortes, mas sem embasamento narrativo. Nem mesmo a ideia de ter crianças sinistras perambulando por um bairro idílico (como no largamente superior A Hora do Mal) é aproveitada para se integrar a um discurso.

E quando se dispõe a falar sério, o resultado beira o ofensivo, como no momento em que uma personagem insinua ter idade suficiente para ser anoréxica. A verdade é que Eli Roth não tem o que dizer e seu filme, um amontoado redundante de sequências sanguinolentas em que a violência é um fim em si mesma, não vai além de uma categoria de entretenimento que depende demais de habilidades que ele claramente não possui nesse momento.


Nem mesmo a reviravolta dos minutos finais é capaz de amenizar os danos causados por essa mais nova bomba cinematográfica comandada por Eli Roth.


NOTA 2,5

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