CRÍTICA | "Ponto Sem Retorno"
- Guilherme Cândido

- há 12 minutos
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Recentemente, numa entrevista para o The Times of London, Ridley Scott bradou ser um cineasta que “jamais se repete”. Talvez, mas repete o que se tornou convencional, o que acaba gerando contradição quando ele se diz também ser um realizador a frente do seu tempo, um “influencer”, mas não do tipo que faz sucesso nas redes e, sim, do que provoca tendências ou é “repetido” por outros, para ficar num termo que ele gostou de usar.
O britânico sempre foi chegado a aspas fortes, fazendo a alegria dos tabloides sempre que confrontado, como na época em que foi (justamente) questionado a respeito de incongruências históricas no excelente Gladiador (2000). A atitude de rockstar, dando de ombros (ou o dedo do meio) para qualquer opinião contrária, parece deslocada vinda do quase nonagenário responsável por este Ponto Sem Retorno, produção estrelada por alguns dos nomes mais quentes de Hollywood e que não poderia ser mais derivativo, embora agradável de acompanhar.

The Dog Stars, no original, é baseado no romance homônimo de Peter Heller e adaptado ao Cinema pelo veterano Christopher Wilkinson (indicado ao Oscar por Nixon, de 1995) e por Mark L. Smith (mais conhecido pelo trabalho em O Regresso, de 2015). A trama estabelece uma ambientação num futuro distópico (2035, para ser mais preciso), na qual, um cataclisma misterioso ceifou milhões de vida e provocou o colapso da civilização como conhecemos. Entre os que sobraram estão Bangley (Josh Brolin), um militar veterano que se adapta às novas condições graças ao jeitão de sobrevivencialista e o ex-piloto Hig (Jacob Elordi), parceiro de apocalipse irremediavelmente enlutado pela morte da esposa, dedicando o tempo extraordinariamente livre a ajudar uma comunidade de crianças carentes, além de garantir a própria subsistência.

A dinâmica entre os dois é facilitada pela camaradagem animalesca inerente às relações entre homens. Bangley, mais velho e calejado, é vivido por Brolin como uma mistura entre o rabugento rigoroso e o guerreiro cansado e bonachão, agora confortável na situação precária para o qual sempre esteve preparado e que é encarada como um luxo pelo qual vale a pena lutar ao lado de Hig, por sua vez, um otimista incorrigível, capaz de valorizar qualquer vida. Para aplacar a amargura, o jovem sobrevoa de avião as paisagens vazias do centro da Itália (que serve de dublê para o oeste norte-americano) ao lado do inseparável Jasper, seu amigo de quatro patas.

Já o texto pode até ser raso (não vemos a escala da hecatombe e sabemos quase nada sobre sua origem além do que poderia ser considerado um spoiler aqui, bem como desdobramentos imediatos), episódico (não me surpreenderia se cada set-piece tivesse englobado um capítulo de uma série antes de o projeto ter virado um filme) e contar com conveniências açucaradas (com o núcleo liderado por Guy Pearce e na primeira reviravolta envolvendo Bangley), mas é sincero no discurso construído sobre o luto e a depressão. Em termos práticos, se a ação troca a complexidade por uma execução precisa, o texto substitui profundidade por emoções, dilemas e reflexões universais que são valorizadas pelo elenco, principalmente Elordi, cuja franca evolução como ator ficou marcada pela (justa) indicação ao Oscar que recebeu por Frankenstein. O australiano dribla a pieguice eventual do roteiro para construir uma figura com quem jamais deixamos de nos importar.

Já Ridley Scott nunca foi um realizador cerebral. Aliás, quase todas as vezes em que tentou sair da curva, especialmente nos últimos 30 anos, acabou saindo da pista e se estrepando nas próprias limitações. Mas ele sabe, como poucos, fazer aquele arroz com feijão que, se bem temperado com bons ingredientes narrativos, pode alimentar uma família pouco exigente num domingo chuvoso e sem inspiração. A grife criada em torno do vencedor do Oscar por Gladiador e responsável por clássicos da ficção científica como Blade Runner e Alien fazem o restante do trabalho sujo.

Não que Ponto Sem Retorno seja o tipo de superprodução complexa e cheia de efeitos visuais embasbacantes, mas na hora de filmar uma sequência de ação, por menos superlativa que seja, Scott está lá para garantir que esta seja, no mínimo, compreensível e esteticamente bem arranjada. É o que acontece em toda a projeção e acaba servindo como um reflexo de todo o filme.
Que apesar de soar como uma mistura de elementos explorados por filmes melhores, conta com a expertise de um profissional que dá dignidade ao que é visto e oferece uma experiência cujo magnetismo reside justamente na simplicidade.
NOTA 7









