top of page

CRÍTICA | "Coyote vs. Acme"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Nem o mais virtuoso dos roteiristas seria capaz de escrever uma história como a da trajetória de Coyote vs. Acmeaté chegar aos cinemas. O projeto, desenvolvido inicialmente na Warner, tinha como base uma trama de tribunal aproveitando os personagens clássicos dos Looney Tunes, contando com um elenco que incluía nomes sólidos como Will Forte e John Cena. A estreia programada para 2023 já causava furor no público, empolgado com a ideia, mas por incrível que pareça, acabou cancelada. Nos meses que antecederam a estreia, a Warner passou por um processo de reestruturação após a fusão com a Discovery e acabou mudando de direção. David Zaslav, o novo manda-chuva, optou por encarar algumas produções já concluídas (Batgirl e Scoob!: Um Natal Mal-Assombrado) como “prejuízos fiscais” engavetando-as indefinidamente. Tão óbvia quanto a indignação geral era a atenção chamada para outras empresas de Hollywood, alguém que enxergasse o potencial desprezado por Zaslav. Os anos se passaram e a Ketchup Entertainment arrematou o longa-metragem e nesse final de semana responderá à dúvida sugerida pelo posicionamento do CEO da Warner: Coyote VS. Acme é realmente uma bomba que precisava ser escondida para preservar a imagem do estúdio centenário? A resposta é um sonoro NÃO!

 

O CEO da Warner Bros. Discovery, David Zaslav
O CEO da Warner Bros. Discovery, David Zaslav

Baseado num artigo de Ian Frazier publicado na revista New Yorker em 1990, o roteiro escrito por James Gunn (sim, ele mesmo), Samy Burch e Jeremy Slater parte da seguinte premissa: depois de sofrer incontáveis acidentes usando produtos defeituosos da ACME para tentar capturar o Papa-Léguas, Wile E. Coyote (seu nome legal) decide processar a empresa. Para isso, ele procura a ajuda do modesto advogado Kevin Avery (Will Forte, da série As Quatro Estações), o único a perceber a dificuldade no caso de responsabilizar uma das maiores corporações do mundo, que consequentemente conta com um time jurídico robusto liderado pelo temível Buddy Crane (John Cena).

Inclusive, o fato de seguir a cartilha de Hollywood em demonizar grandes corporações só não supera a genialidade de imaginar a Acme de hoje, enriquecida após décadas de monopólio, como uma espécie de evolução da Apple, comercializando eletrônicos e eletrodomésticos.

Contar mais poderia estragar eventuais surpresas, mas até quem não é fã dos personagens e seus curtas conseguirá se divertir com as sacadas e as referências a clássicos do Cinema, especialmente Todos os Homens do Presidente (1976). Aliás, espere até ver quem assume a identidade do “Garganta Profunda” dessa vez.

 

Todo filme que ousar misturar animação com live-action terá de enfrentar comparações com o representante máximo desse conceito, o inigualável Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988), mas os roteiristas não demonstram a menor intenção de seguir a complexidade tonal da produção dirigida por Robert Zemeckis. Na verdade, o diretor Dave Green, do fraco As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras (2016) até encara com seriedade o mundo concebido para abrigar humanos e desenhos, deixando para os ícones das animações fazerem o trabalho sujo de carregar o humor nas costas. Por outro lado, ao contrário de Roger Rabbit, ele jamais deixa de eleger as crianças como público-alvo, o que explica o didatismo do script.

Isso não impede, porém, que Coyote Vs. Acme acorde a criança adormecida em cada adulto que cresceu vendo bigornas, pianos e bananas de dinamite atrapalharem os sonhos de Wile. E a produção presenteia esse espectador com o mesmo espírito frenético e anárquico presente nos curtas dos Looney Tunes.

 

A ânsia de incluir o maior número possível de personagens (até o injustiçado Pepe Le Pew, cancelado pelos problematizadores profissionais da internet), faz a produção soar mais longa do que deveria, um problema que deveria ter sido previsto considerando a duração padrão dos desenhos animados originais, mas ao menos fará a alegria de quem espera ver determinadas figuras. E acredite, o segundo maior trunfo da narrativa é justamente a forma como as situações se integram ao universo dos desenhos.

O maior trunfo, você deve querer saber, é a relação entre Avery e Coyote, cuja interação (construída na base emotiva dos amigos improváveis) se revela o firmamento de um discurso maior e, pasme, emocionante: a de que ambos são, ao seu próprio modo, personificações da resiliência, da corajosa atitude de jamais desistir, continuar tentando apesar das pancadas recebidas em troca. É difícil não se emocionar com essa brilhante transformação de Coyote, até então um mero vilão que odiávamos ver fracassar, num comovente ícone tragicômico. Até seu relacionamento com o Papa-Léguas ganha um bem-vindo aprofundamento. Tudo isso sem precisar descaracterizá-los.

Por isso, Coyote Vs. Acme é uma proeza que transcende as telonas e acaba representando também um paralelo meta linguístico com a própria situação, em que uma mega corporação tentou silenciá-la. Felizmente, existia um Wile E. Coyote para continuar tentando até finalmente entregá-lo ao público. Independentemente de números de bilheteria, só o lançamento nos cinemas já representa um imenso sucesso. 

 

Um sucesso que cai como uma bigorna na cabeça de David Zaslav.


NOTA 7,5

 

bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0