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CRÍTICA | "A Morte de Robin Hood"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 10 minutos
  • 4 min de leitura

Durante a ausência de Ricardo Coração de Leão, que partiu para lutar na Terceira Cruzada (1189-1192), um carismático fora-da-lei chamado Robin Hood se destacou por seus feitos nobres, desafiando um sistema corrupto e tirânico. Ao lado de companheiros célebres como João Pequeno e Frei Tuck, Robin realizava pequenos assaltos e saques, sempre seguindo a ideologia de roubar dos ricos para dar aos pobres. Escondido na floresta de Sherwood, onde cantava e dançava com os fracos e oprimidos ao lado da amada Lady Marian, sua lenda inspirou gerações, rendendo também incontáveis produções audiovisuais.


No Cinema, por exemplo, sua primeira aparição oficial aconteceu em 1908 no curta-metragem mudo Robin Hood and His Merry Men, além de ter sido representado por grandes astros de Hollywood como Kevin Costner, Russell Crowe e até Errol Flynn, cuja caracterização charmosa e divertida inspirou uma versão produzida pelo estúdio de Walt Disney em 1973 e que segue sendo minha favorita até hoje.

Desta vez, é o australiano Hugh Jackman o encarregado de dar vida a esse personagem do folclore inglês há mais de 700 anos presente no imaginário popular e que é recontada de forma surpreendente pelo estadunidense Michael Sarnoski. Se você espera ver aquele arqueiro bon vivant e jovial vivendo para diminuir as desigualdades de seu povo, pode esquecer.

Sarnoski propõe a seguinte reviravolta: e se todas aquelas lendas que ouvimos sobre Robin Hood fossem mentiras contadas pelo combalido povo britânico na tentativa de alçá-lo à personificação da esperança, ou uma espécie de idealização da Igualdade? E se Robin fosse, na verdade, um bandido sem qualquer escrúpulo, movido apenas pelo desejo de se manter vivo? Um monstro cruel e sanguinário capaz de decapitar figuras de autoridade, cegar crianças e assassinar mulheres?

Em A Morte de Robin Hood, que chega aos cinemas brasileiros nesse final de semana, sai o jovem aventureiro espirituoso e entra uma figura envelhecida, atormentada pelo passado e cansado de lutar para sobreviver, tanto que seu maior desejo é simplesmente morrer com dignidade. Quem assistiu a Pig: A Vingança (2021), filme anterior de Sarnoski, vai notar semelhanças imediatas principalmente em relação ao tom atmosférico da narrativa, mas a escalação de Hugh Jackman acaba ecoando outra obra.

Pois, tal qual no ótimo Logan (2017), Jackman novamente encarna uma figura (supostamente) heróica envelhecida, fisicamente debilitada e confrontada pelo legado de violência que deixou para trás. Mas Sarnoski leva essa ideia ainda mais longe, porque seu Robin não é exatamente um herói que perdeu a fé. O filme questiona se ele algum dia foi de fato o herói que as histórias dizem que existiu.


É uma provocação instigante que acaba funcionando melhor no papel, pois, na prática, rende um filme desequilibrado.

Na primeira hora de projeção, somos apresentados a um ambiente que reconstrói a Idade Média com uma cortante verossimilhança. Não há espaço para romantismo ou cores, aqui o mundo está constantemente nublado, ao ponto de a luz se tornar um artigo de luxo. Os personagens estão sempre sujos e desgrenhados e a névoa intermitente borra o horizonte, impedindo personagens de anteciparem a chegada do inimigo. E quando o fazem, os confrontos são tão inevitáveis quanto brutais, com direito a imagens gráficas potencialmente chocantes (como a de uma criança caminhando com uma flecha atravessada no olho). Robin é um homem repleto de cicatrizes físicas e psicológicas, mas a narrativa também nos permite vê-lo adquirindo novas. Esse universo depressivo e opressor se torna ainda mais claustrofóbico com a razão de aspecto 2.4:1, mas que dá lugar ao 1.66:1.

Essa mudança visual é um reflexo da própria narrativa, que radicalmente abandona o fluxo ininterrupto de violência para abraçar um tom mais contemplativo quando Robin é resgatado por uma freira. O figurino inicialmente preto, se torna branco. As sequências antes majoritariamente noturnas, agora são diurnas. Os planos, mais longos. E o protagonista que costumava mais grunhir do que falar, se vê obrigado a expiar seus pecados antes da redenção final.


Essa troca de marcha pode e deve ser sentida com estranheza e não me surpreenderia caso alguém classificasse o restante da projeção como moroso.

Mas a ousadia de Michael Sarnoski em substituir o espetáculo faceiro, por um estudo de personagem com fortes traços de Os Imperdoáveis (1992), é recompensado não apenas pela fotografia de Pat Scola, mas também pela atuação estupenda de Hugh Jackman. Esses dois elementos são os únicos pontos de equilíbrio entre duas metades tão dissonantes. O trabalho exuberante de Scola jamais abandona a coerência narrativa, pois se mantém fiel à ideia de refletir o próprio protagonista. Que por sua vez é encarnado com a energia e o talento habitual de Jackman. Os modos enrijecidos, o olhar triste e a fala cansada lembram o velho Wolverine de Logan, mas há uma camada adicional que remete ao Jean Valjean de Os Miseráveis (2012), pelo qual foi indicado pela primeira e única vez ao Oscar.

Para aqueles que forem fisgados pela visão ousada de Sarnoski, A Morte de Robin Hood vai provocar o tipo de fascínio que os fãs das aventuras cheias de ação já protagonizadas pelo personagem jamais poderão usufruir. Que o departamento de marketing seja honesto com os espectadores.


NOTA 7,5

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