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CRÍTICA | "Homem-Aranha: Um Novo Dia"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 53 minutos
  • 6 min de leitura

Mais de um quarto de século se passou desde que o Homem-Aranha estreou no Cinema e muita coisa aconteceu nesse período. Claro, muitos vão se lembrar imediatamente dos diferentes atores que vestiram o manto do sexagenário personagem, mas quando ampliamos o escopo, vemos uma franquia que passou pelas mãos de diferentes empresas. A Columbia foi quem venceu a batalha pelos direitos de adaptação das histórias em quadrinhos lá pelos idos de 1999, quando a Marvel travava sua própria batalha para evitar a falência e ainda nem cogitava se aventurar na produção de filmes. Quem acabou fazendo isso foi a Sony, quando comprou o centenário estúdio das mãos da Coca-Cola, veja só, num revezamento corporativo mais comum do que se imagina em Hollywood.


Falando em revezamento, depois de provar ao mundo ser possível (ou melhor, lucrativo) transportar um super-herói às telonas, indo na contramão das probabilidades sob as rédeas de Sam Raimi, até então um cineasta especialista em misturar terror e comédia, o Homem-Aranha deixou de ser interpretado por Tobey Maguire para ganhar o rosto rejuvenescido de Andrew Garfield, numa mudança brusca não só pela rusga exposta publicamente durante as negociações frustradas por um quarto filme, mas principalmente por impor um reboot completo num intervalo de cinco anos a uma franquia já consolidada.

Por melhor ator que seja (as posteriores duas indicações ao Oscar falam por si), Garfield não conseguiu evitar o naufrágio desse novo projeto, capitaneado por um Mark Webb que acabou engolido pelas engrenagens corporativas. O Frankenstein cinematográfico representado por O Espetacular Homem-Aranha sequer chegou a ganhar uma terceira parte e coube à Marvel, agora também um estúdio, aparecer para ajudar a Sony/Columbia a resgatar o personagem, cooptando-o para seu bem-sucedido Universo Cinematográfico em co-produção. 

Extrapolando a metalinguagem ao reinaugurar a franquia sob o título “De Volta ao Lar”, a chamada “Casa das Ideias” podia ter pouca experiência no Cinema, mas conhecia o personagem como ninguém, o que acabou prevalecendo. O resultado foi mais um reboot completo, dessa vez optando por um rejuvenescimento radical que gera brincadeiras até hoje a respeito da Tia May deixar de ser uma simpática velhinha para ganhar as feições de um sex symbol como a oscarizada Marisa Tomei. E por falar na maior premiação do Cinema, nesse ínterim, Homem-Aranha no Aranhaverso fez história ao trazer para a marca o prêmio de Melhor Animação, mas esse é um capítulo à parte, que conto melhor aqui.

Voltando ao live-action, finalmente tivemos um Peter Parker com aparência adolescente, com o jeito puro e juvenil de Tom Holland colocando-o à altura dos intérpretes anteriores. Mais do que isso, o britânico simbolizou o retorno da franquia aos eixos, tornando-se o rosto de uma fase bem-sucedida, a mais celebrada desde a gênese em 2002. E longe de acabar, pois apesar de encerrar a trilogia com um estouro, unindo as três encarnações do personagem, a Marvel deu a Holland o que a Sony/Columbia não foi capaz de dar a Maguire: um quarto filme, fazendo do atual Homem-Aranha o mais longevo e o que apareceu em mais produções (sete, se contabilizarmos as participações como coadjuvante entre os Vingadores). E com mais por vir, como sugerem os créditos de sua mais nova aventura.

Entretanto, Homem-Aranha: Um Novo Dia, que chega aos cinemas nessa semana, passa longe de ser um terceiro reboot completo. Assim como o título sugere, trata-se de uma nova etapa na vida de Parker, mas mantendo o elenco principal e o espírito da saga recém-finalizada, levando a sério os desdobramentos do impactante desfecho de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa. O herói agora tem de lidar com a solidão, fardo adquirido após apagar a própria existência da memória coletiva, o que inclui o melhor amigo Ned (Jacob Batalon) e a namorada MJ (Zendaya). Era o único jeito de solucionar os problemas multiversais que causou.

Mas a vida como super-herói segue a mesma. Na verdade, rastrear e capturar bandidos vira uma forma de preencher o vazio deixado pela vida pregressa. Restando apenas uma conexão distante com a policial DeWolff (Liza Colón-Zayas), aos poucos o corpo e a mente de Parker cobram o preço por essa rotina melancólica e desgastante, justamente quando uma ameaça aporta em Nova York.

É bem-vinda a intenção dos habituais roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers de se aprofundar no tumulto interno do protagonista, investigando a humanidade por trás do super-herói, algo pelo qual a trilogia de Sam Raimi se destacou. Há um resgate, por exemplo, da ideia de que os poderes de Peter Parker estão diretamente ligados ao seu bem-estar emocional. No caso deste novo filme, o rapaz passa por uma espécie de segunda puberdade ao lidar de forma dramática com a transição para a vida adulta. Uma crise existencial que inicialmente sugere até um flerte com o horror corporal, incluindo sutis referências à obra de David Cronenberg (A Mosca, majoritariamente). Mas nem Peter Parker seria tão ingênuo ao ponto de esperar coragem da narrativa de uma produção Marvel.

Assim como faz em relação às manifestações físicas da crise psicológica vivida pelo personagem, Um Novo Dia também planta conflitos com potencial de alto impacto, jamais encontrando tempo para a colheita. O principal problema do script, vale dizer é o excesso de subtramas: além de toda a trama envolvendo o estado mental do protagonista, o roteiro encaixa a já citada ameaça, um novo departamento para lidar com os vilões, a relação de Peter com Ned e MJ além, claro, da obrigatória tarefa de preparar terreno para o futuro do MCU.

Como se não bastasse tudo isso, ainda há a presença de Sadie Sink como uma personagem que obviamente não revelarei (seguindo as recomendações do vídeo de bastidores que abre a sessão), mas que ao ser introduzida faz os rumos narrativos mudarem completamente. É como se um filme terminasse para outro, focado na moça, começar de fato. São muitos eventos e conflitos para desenvolver e nem as mais de duas horas e vinte minutos de projeção são suficientes.

Um dos efeitos colaterais, por exemplo, é sentido na pele pelo Bruce Banner/Hulk de Mark Ruffalo: se entra na história de forma orgânica, atendendo ao pedido de ajuda de Peter, sai de forma abrupta, quase literalmente arremessado para fora do filme. Outro personagem que sofre, mas por outro motivo, é o Justiceiro vivido por Jon Bernthal, levemente descaracterizado para se adequar ao espírito irreverente do Homem-Aranha e que acaba contagiando toda a narrativa. Não que a dinâmica de buddy comedy entre eles não funcione, pois rende boas gargalhadas, mas não deixa de causar estranhamento a proposta de rir com um personagem tão essencialmente sombrio e atormentado, como a própria personagem de Sink observa em determinado momento.

Por outro lado, o impacto dessas imperfeições narrativas é amenizado pela direção de Destin Daniel Cretton. Assim como já havia ficado claro no razoável Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, Cretton tem um olhar estiloso para as sequências de ação, adotando a câmera lenta não só para reforçar momentos importantes, mas também para construir imagens que parecem saídas diretamente dos quadrinhos. Substituindo o limitado Jon Watts, que comandou os três filmes anteriores, o cineasta havaiano mantém o foco das lutas nos movimentos acrobáticos do Homem-Aranha, adotando planos sempre abertos que permitem ao espectador admirar as ótimas coreografias, sem deixar de entender o que está acontecendo.  

Outro ponto positivo é a preocupação em tornar ainda mais realistas os momentos em que o super-herói está usando a teia para se deslocar entre os arranha-céus novaiorquinos. Para isso ele emprega uma série de artifícios que vão desde o plano para reforçar a vibração do traje em atrito com o ar, passando pelo design de som que torna audível o sibilar do vento durante a movimentação, até a posição da câmera, quase sempre muito próxima de Tom Holland.

E o bom de ver alguém interpretar um personagem por tanto tempo, é poder constatar sua evolução. Apesar de não ter uma demanda emocional tão forte como no longa anterior e flertar com o excesso de caretas, o ator, sempre carismático, transita com fluidez entre as passagens mais contemplativas e aquelas mais físicas. No entanto, é a parceria com Zendaya (esposa fora das telas) que acaba elevando o nível da produção, com as melhores cenas sendo justamente aquelas compartilhadas por eles.

Contando com várias participações especiais que nem sempre se fazem necessárias (o Hulk talvez seja a principal), Homem-Aranha: Um Novo Dia é o recomeço que a franquia precisava e encontra em Destin Daniel Cretton a liderança perfeita para conduzir essa fase mais madura do personagem, pena que o mesmo não possa ser dito sobre a dupla de roteiristas.


Observação: Há uma cena extra após os créditos finais.


NOTA 7

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