CRÍTICA | "Pressão"
- Guilherme Cândido

- há 7 horas
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No Cinema, já vimos e ouvimos diversas histórias sobre a Segunda Guerra Mundial. Reconstituições de relatos envolvendo o heroísmo de soldados, claro, mas também o papel crucial de profissionais da medicina, da comunicação, dos transportes, das artes, dos correios, entre outros, na única tarefa de ajudar a derrotar o regime nazista. No entanto, eu lhe desafio a apontar ao menos uma produção que tenha mostrado como a meteorologia também foi importante para vencer a Guerra. E se você não conseguiu, não se preocupe, após a estreia de Pressão, você já terá uma resposta na ponta da língua.
Antes de chegar aos cinemas nessa quinta-feira, a produção idealizada pelo ator e dramaturgo britânico David Haig fez um tremendo sucesso nos palcos do West End em 2018, o que explica a essência teatral desse filme de câmara dirigido por Anthony Maras e adaptado por ele mesmo ao lado de Haig.

O recorte escolhido não poderia ser mais curioso, pois se afasta de praticamente tudo o que poderia se esperar de um filme de guerra tradicional: Ao invés de mostrar batalhas entrecortadas por estratégias militares, a narrativa é confinada nas salas de mogno do quartel-general dos aliados liderado por um Dwight Eisenhower que certamente jamais imaginaria que seu maior inimigo na hora de planejar o Dia D seria a previsão do tempo. Afinal de contas, se ignorado, o clima pode causar a morte de milhares de jovens, mas também pode representar um trunfo se usado com sabedoria, como diz o meteorologista-chefe James Stagg.

É fácil imaginar a história sendo desenvolvida entre quatro paredes, através de diálogos, no entanto, assim como fez em seu primeiro longa-metragem – o inquietante Atentado ao Hotel Taj Mahal – Anthony Maras não tem a menor dificuldade de produzir tensão. O australiano leva o título a sério e mergulha os personagens numa panela de pressão em que as decisões tomadas “apenas” afetarão o destino do mundo.

Tecnicamente, ele tem a ajuda do diretor de fotografia Jamie Ramsay e do designer de produção Daniel Taylor, criando uma lógica visual que reflete os dilemas da trama. As salas que servem de cenário são amplas, mas captadas com uma profundidade de campo sempre reduzida em quadros que dão pouco espaço para o respiro da imagem, o que, aliado ao grande contingente de funcionários, geram uma sensação de sufocamento que permeia a narrativa até o final. A paleta escura da fotografia encontra reflexo no visual amadeirado dos ambientes e que é complementado por figurinos que dão o tom do padrão militar que rege esse tipo de situação.

O que acaba fugindo do padrão é o desempenho expansivo de Brendan Fraser como Ensenhower. Carismático por natureza, o vencedor do Oscar (por A Baleia) domina todas as cenas das quais participa, mas investe numa composição expansiva que esporadicamente extrapola o tom da própria narrativa, escancarando e, consequentemente, prejudicando a estratégia de estabelecer um contraste com o James Stagg vivido por Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos). Aliás, explosões de nervos denotam um ponto negativo que se repete mais do que deveria.

Na verdade, esse tipo de referência se mostra desnecessário quando vemos o irlandês evitar qualquer traço de leveza e/ou simpatia ao construir Stagg. O estoicismo quase absoluto, flui ao encontro da forma fria com que o meteorologista pensa e age, sempre de acordo com as próprias convicções. É o que torna o personagem tão fascinante, pois enquanto seu colega, o Coronel Irving interpretado por Chris Messina, é mais flexível em seus estudos, direcionados a resultados que não interfiram nas decisões do alto comando, Stagg é o único a resistir, mas não sem se resguardar na Ciência para embasar seus argumentos. É um conflito que nasce sedutor (Já imaginou tentar convencer algumas das pessoas mais poderosas do mundo de que elas estão erradas?). A participação bem humorada de Damian Lewis deixa pouco para imaginarmos e ainda serve como alívio cômico.

Ironicamente, é quando o Dia D enfim é encenado que a história perde o fôlego tirado enquanto os maiores embates giravam em torno da previsão do tempo. Nem mesmo a estrutura esquemática do roteiro destoou tanto quanto a convencional, opaca e aparentemente obrigatória sequência do desembarque das tropas aliadas em Omaha Beach. Outra obrigação é cumprida por Kerry Condon, único papel feminino de destaque e que surge em cena apenas para apoiar os homens. Para quem interpretou uma analista de desempenho no sucesso F1: O Filme, chega a ser decepcionante ver uma atriz tão qualificada (foi indicada ao Oscar por Os Banshees de Inisherin) ser desperdiçada numa obra que tanto valoriza o conhecimento.

Em tempos nos quais os estudos acadêmicos e os progressos científicos são cada vez menos valorizados, Pressão tem a ousadia de ser antiquado e o faz da forma mais inesperada possível, revelando-se um tenso e envolvente filme de guerra sem guerra.
NOTA 7,5









