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CRÍTICA | "Muito Prazer"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Os filmes de Jorge Furtado geralmente florescem a partir de situações que começam simples, como ao de lidar com um problema solúvel, mas acabam escalando até descambar para o completo absurdo. Foi assim no meu favorito de sua filmografia, Saneamento Básico - O Filme (2007), por exemplo, com o grupo de cidadãos preocupados desprendendo-se da ideia banal de fazer uma obra audiovisual apenas para ter acesso a uma verba do governo e abraçando o absurdo de investir mais do que o previsto para produzir algo digno de nota. É justamente durante essa escalada que o texto do mestre gaúcho normalmente colhe os melhores frutos, em termos dramáticos. Um Cinema de tiradas divertidas e inteligentes, mas calcadas na empatia. Muito Prazer chega para corroborar essa tese, com uma ideia aparentemente inocente aos poucos dando lugar ao absurdo que engole os personagens, mas jamais lhes tirando aquele sentimento tão caro a Furtado e inegociável em suas criações: a empatia.

Na trama, Rubem (Daniel de Oliveira) é um motorista de aplicativo sem muitas pretensões na vida que acaba herdando um motel supostamente abandonado. Supostamente, pois logo ele descobre que lá vive Grace (Luísa Arraes), ex-funcionária que mora no imóvel para saldar dívidas trabalhistas. Aliás, dívida é o que não falta para o tal motel, mas os dois resolvem reativar o estabelecimento e colocar em prática um plano inusitado não apenas para atrair clientes e colocar o empreendimento nos trilhos, mas também para garantir o futuro de ambos.

Ou seja, a história começa com dois trabalhadores endividados investindo num negócio difícil e termina com uma trama mirabolante visando um lucro até então inatingível. Qualquer semelhança com o já citado Saneamento Básico – O Filme e O Homem Que Copiava (2003) não são mera coincidência.

Além dos diálogos rápidos “problematizando” questões que divertidamente fogem do assunto (marca registrada de Furtado), o filme constrói com cuidado o relacionamento entre Rubem e Grace, surfando convenções sem jamais entregar algo que não tenha prometido. Os mais jovens talvez apontem o potencial “cringe” de determinadas situações, por outro lado, os desprovidos de juventude identificarão paralelos com comédias românticas de sucesso. A estrutura pode não resistir a meia dúzia de dúvidas por parte dos espectadores mais atentos, mas Furtado usa o lúdico para tentar ampliar o escopo do público, levando a discussão a outros campos, mas deixemos esse tópico para mais tarde.

Porque o que salta aos olhos imediatamente é como o diretor e roteirista ainda demonstra pleno domínio da comédia e sem precisar apelar. Aliás, aqui vale um elogio especial à forma com que Jorge Furtado aborda o sexo dispensando a vulgaridade. Fazendo troça de situações banais sem recorrer a nudez ou até mesmo o sexo em si, o que não deixa de ser uma proeza das mais elegantes.

Mas além das já esperadas piadas de cunho sexual, que apesar de tratar de fetiches (como animes e... coelhos) e outros prazeres da carne, o texto contempla questões contemporâneas, divertindo com conceitos envolvendo Inteligência Artificial, por exemplo, e as problemáticas referentes ao uso do deep fake. E outra marca registrada de Furtado presente na obra é trazer essas gags quase sempre acompanhadas de dados precisos, claramente frutos de pesquisa. Pense no número específico de vídeos pornográficos com pessoas usando camisa do Flamengo, ou envolvendo bicicletas amarelas, por exemplo. Com Jorge Furtado, o tabu não tem vez, é possível brincar com sexo sem ser vulgar. Nesse ponto, até os jovens deverão se divertir com a menção a um certo “Brazino”.

Daniel de Oliveira, Luísa Arraes e Samantha Jones exibem uma química irretocável em cena, talvez pela impressão de estarem se divertindo a valer, principalmente quando surge a voluptuosa Deusa Coelha acompanhada do sedutor Homem-Cenoura. Oliveira e Arraes, inclusive, parecem tão confortáveis com o estilo do diretor que até nos esquecemos que esse é o primeiro trabalho deles juntos.

Por isso, quando a trilha de Maurício Nader se revela excessiva, uma dupla de antagonistas simplesmente (aparece e) desaparece da história ou quando o final apresenta um flashback desnecessário e meloso, não nos incomodamos tanto, pois temos motivos de sobra para nos lembrar do privilégio de ver Jorge Furtado ainda dominando a arte de fazer rir.


E mal posso esperar pelo Especial de Páscoa da Deusa Coelha com o Homem-Cenoura.


NOTA 7,5

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