CRÍTICA | "Refém Por Um Fio"
- Guilherme Cândido

- há 11 minutos
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É uma prática comum das distribuidoras brasileiras farejar filmes que exalem o feromônio das grandes premiações. Produções que provavelmente passariam batido pelo espectador médio, mas que acabam entrando no radar de completistas e curiosos de plantão. Ora, quem não gostaria de ofertar ao público exatamente o que se quer ver, afinal? Também há casos em que o tiro sai pela culatra, vide Ferrari (2023), Priscilla (2023) e Sorry, Baby (2025), só para ficar nos mais recentes. Mas até esses acabam pegando carona na repercussão dos primos mais ricos, entrando como alternativa nos multiplexes. E finalmente sobram aqueles preteridos por Oscars, BAFTAs e Globos de Ouro da vida e, consequentemente, pelas distribuidoras, como aconteceu com este Refém Por Um Fio, que estreou sob elogios no Festival de Veneza, mas demorou quase um ano para enfim chegar aos cinemas brasileiros, simplesmente por jamais ter entrado firme na disputa por prêmios.

Arrisco dizer que, não fosse pela direção de Gus Van Sant, o longa-metragem provavelmente seria lançado diretamente no streaming, assim como aconteceu com outras obras estreladas por Bill Skarsgard, como Vilões (2019), Justiça Além do Sistema (2021) e Queime Todas as Minhas Cartas (2022), por exemplo.

Na trama, baseada num evento real acontecido em 1977 na cidade norte-americana de Indianápolis, o ator sueco interpreta Tony Kiritsis, empresário convencido de ter sido enganado por uma corretora de hipotecas. Numa mistura entre Um Dia de Cão (1975) e Um Dia de Fúria (1993), o homem resolve tomar medidas drásticas para se fazer ouvir e garantir, no mínimo, uma satisfação da parte dos donos da corporação. Para isso, arma a arapuca presente no título original e que éconhecida como “Dead Man’s Wire” (ou “fio do homem moro, em tradução livre”), uma espécie de arame amarrado entre ele e a vítima que, caso separados, puxa imediatamente o gatilho de uma escopeta de cano serrado apontada para o pescoço do sequestrado, no caso Richard Hall, o prestativo filho do chefão da Meridian Mortgage (este vivido por Al Pacino)

É o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Van Sant desde o ótimo A Pé Ele Não Vai Longe (2018), que nos últimos sete anos se dedicou a projetos televisivos, como a premiada série Feud (2017-2024) e o reality Ouverture of Something that Never Ended (2020). Tanto tempo afastado acabou enferrujando o cineasta que se revelou ao mundo com Drugstore Cowboy (1992) e alcançou o panteão com o clássico Gênio Indomável (1997). Se por um lado Refém Por Um Fio nem de longe demonstra aquela volúpia libertina que deu personalidade a outros grandes filmes como Elefante (2003) e Paranoid Park (2007), por outro, traz o humor negro típico do cineasta e que estranhamente se acomoda à narrativa de forma a transformá-la numa experiência que jamais se torna enfadonha.

Parte dos créditos devem ser compartilhados com Bill Skarsgård, que evoca uma mistura latente de emoções, transitando entre a loucura e a intimidação sem deixar de comover. Aliás, até o humor faz parte da composição, provocando risos nervosos que aliviam o clima de tensão. É o tipo de atuação capaz de afastar quem insiste enxergar no caçula dosSkarsgård um intéprete capaz de encarnar apenas monstros do terror. Convenhamos, por pior que seja a atitude tomada por Kiritsis, suas motivações não deixam de ser compreensíveis.

Até porque, o roteirista Austin Kolodney está claramente mais interessado nas complexidades do sequestrador do que no drama da vítima, ironicamente corroborando o discurso que parece combater, o da espetacularização do caso por parte da mídia, aqui capitaneado pela fictícia Linda Page (Myha’la), uma ambiciosa repórter que não mede esforços para garantir o furo que catapultará a própria carreira. Roteirista e diretor estão encantados demais com Kiritsis, ao ponto de não enxergarem as decorrências do trauma vivido por Hall, interpretado com surpreendente disciplina pelo normalmente limitado Dacre Montgomery (de Power Rangers e Stranger Things).

Ao menos esse circo ao redor de Kiritsis é impecavelmente montado, com uma reconstituição de época que extrapola vestimentas, carros e penteados e é sublinhada por uma trilha de hits cujas letras dialogam com os desdobramentos narrativos, conferindo a Refém Por um Fio uma roupagem instigante o bastante para seguirmos compelidos a acompanhá-lo até seu desfecho, tal qual um crime chocante exibido em tempo real na TV.
NOTA 7









