CRÍTICA | "Oasis: Don't Look Back in Anger"


Criada em 1991 nos arredores de Manchester, a banda Oasis alcançou o estrelato de forma tão acachapante ao ponto de gerar comparações com os Beatles, mas o relacionamento entre seus criadores, os irmãos Liam e Noel Galagher, pôs tudo a perder justamente no auge. E você pode até não gostar deles e tentar negar sua importância para a Música no final do século XX, especialmente dentro do Rock, mas o legado deles é forte o bastante para manter uma base invejável de fãs mesmo depois de seu fim há cerca de quinze anos.
Tão surpreendente quanto seu retorno no ano passado é constatar que Oasis: Don’t Look Back Anger não se encaixa no formato padrão dos chamados “filme-concerto”, pois é inteligentemente concebido para atingir princípios e evocar sentimentos que são universais. Não é exagero dizer que a produção que chega aos cinemas nesse final de semana é menos sobre o retorno improvável de um ícone do Rock moderno e mais sobre como a Música não só é capaz de construir uma comunidade, como também curar feridas, por mais profundas que possam parecer.

De forma hábil, a narrativa entrelaça a trajetória do Oasis com histórias de seus fãs, o que possibilita construir um mosaico que aos poucos ilustra o tamanho da conexão entre eles ao redor do mundo. As letras compostas por Noel Gallagher ajudaram a enfrentar momentos difíceis, mas também já foram entoadas até como cânticos em estádios de futebol, seja em Manchester ou na Argentina (os torcedores do San Lorenzo cantam uma variação de Wonderwall até hoje).

Assim, até quem não simpatiza com os Gallagher e seu trabalho, está sujeito a se identificar com o potencial reparador da Arte. E quem já é fã, terá um verdadeiro banquete pela frente, com imagens de arquivo, bastidores de shows, registros de ensaios e, claro, trechos generosos de performances ao vivo dos maiores sucessos da banda, um luxo se considerarmos que nenhuma emissora foi autorizada a transmitir os concertos. Aliás, vale alertar, os fãs que forem aos cinemas buscando alguma luz sobre o futuro do Oasis terão de esperar até os momentos finais, quando finalmente vemos Noel e Liam abordando as questões que provocaram a cisão entre eles e como a relação foi afetada pela turnê.

Nesse ínterim, alguns detalhes chamam atenção e dão um toque refinado à linguagem empregada, como a incorporação do aquecimento do baterista Chris Sharrock para alimentar o suspense sobre a chegada de Liam Gallagher no primeiro dia de ensaios. Ou a tensão que toma conta da coxia quando, há poucos minutos do início do show e sem avisar, Noel resolve voltar ao camarim para buscar algo. São pequenos instantes que engrossam a atmosfera e dizem muito a respeito dos músicos sem precisar verbalizar, mesmo que não haja a menor intenção de suavizar a personalidade de Liam, o que também torna tudo mais divertido.

E mesmo quando o roteirista indicado ao Oscar Steven Knight (criador da série Peaky Blinders e responsável pelo próximo 007) escorrega no melodrama (com exceção do inspirado paralelo entre um sermão cristão e a relação religiosa do público com a banda), o design de som e a fotografia fazem questão de compensar, criando registros que tiram ótimo proveito do potencial das salas de cinema (apesar da razão de aspecto quadrada, para abrigar as filmagens de arquivo).

Mas por trás de todo esse brilhantismo técnico, está a humanidade, que sustenta o longa-metragem com a mesma firmeza que sustentou (e ainda sustenta) banda e fãs ao longo dos anos. E essa é a maior força de Don’t Look Back in Anger: Mais do que um filme-concerto bem construído, mostra como a Música também pode servir como um belo e comovente subterfúgio em prol do perdão e da união.
Filme e música não dividem esse título por acaso.
NOTA 8









