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CRÍTICA | "Futuro Futuro"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 19 horas
  • 3 min de leitura

Há uma certa tradição no Cinema de gênero em utilizar estilos e convenções como matéria-prima de uma alegoria maior, a base de um discurso a ser apresentado. No caso da ficção científica, especialmente esta dirigida pelo gaúcho Davi Pretto é menos complicado tecer reflexões sobre o abismo que costuma separar ricos e pobres. Na distopia imaginada por Pretto, uma cidade é dividida em duas áreas isoladas, uma povoada por pessoas que não precisam trabalhar porque já possuem dinheiro, outra com a classe operária, desprovida de riqueza material, num aceno direto a Metrópolis (1927).

 

Nesse cenário está o protagonista vivido por Zé Maria Pescador, sujeito desmemoriado que perambula pela zona empobrecida sem saber quem é, movido apenas por flashes mentais justamente do paraíso idílico usufruído pelos mais abastados (ecos de O Expresso do Amanhã, de Bong Joon-Ho). Por isso, ele não hesita em se matricular num curso sobre Inteligência Artificial, que ceifou o ganha-pão da população, mas oferece uma máquina (obsoleta) capaz de resgatar imagens “presas” na mente de quem a utiliza, servindo como uma ferramenta perfeita para ajudar nosso bravo andarilho.

Lá ele se conecta a outros infelizes, principalmente um senhor de trato melancólico (vivido por João Carlos Castanha), mas alma generosa, que lhe dá não apenas casa e comida, mas também um nome, ou quase isso. K, como passa a ser chamado em referência ao formato da cicatriz que carrega no ombro esquerdo, permanece atormentado pela sensação de estar num lugar ao qual não pertence. Ele quer voltar para casa, mas onde exatamente?

Essa busca por pertencimento acaba levando Futuro Futuro a fazer uma reflexão impiedosa, mas excessivamente didática sobre os rumos que a desigualdade social não só pode, como tende a tomar. O caráter alegórico acaba descaracterizado pelo impulso insistente de verbalizar cada intenção, exemplificar cada raciocínio e, em última instância, mastigar cada etapa do desenvolvimento narrativo.

Com a perda de impacto do texto, também assinado por Pretto, o longa-metragem encontra equilíbrio no visual, esse sim construído com mais segurança. Tudo começa no contraste estabelecido entre os dois lugares, não só em termos cênicos, mas também fílmicos. Basta notar como, além das óbvias distinções visuais, o cineasta adota planos mais fechados, quase claustrofóbicos para retratar o cotidiano opressivo dos mais humildes, ao passo que abusa de quadros mais amplos para ilustrar a opulência desfrutada pelos ricos. Aliás, vale um destaque para a específica tomada em que K visita a parte supostamente nobre e a câmera se afasta até percebemos como ele é insignificante perto das torres luxuosas do lugar.

Da mesma forma, a fotografia adota uma paleta mais saturada para reforçar as cores de uma vida de privilégios, enquanto os mais necessitados se espremem em edificações desgastadas, sujas, com iluminação precária e uma predominância de cinza (das paredes sem pintura, às calçadas e aos pisos, passando pelo céu sem vida). E para reforçar a desconexão de K, o vermelho surge para pontuar suas visões e note como ele sempre “sonha” com o outro lado, independentemente de onde está.

Ironicamente, apesar de passar a maior parte da enxuta projeção dando pouca margem para interpretações, Davi Pretto encerra seu conto de advertência sem enxergar a necessidade de oferecer um desfecho para a jornada de seu protagonista. Nem mesmo as fortes imagens provenientes de um competente trabalho visual, recebem a mesma sustentação oferecida nos terços anteriores.

 

De uma forma de outra, não só a construção de mundo é irrepreensível em sua sutileza (repare nas placas oferecendo serviços em troca de cigarro ou comida, por exemplo), como serve de subterfúgio para uma elucubração de forte assinatura estilística, mostrando que Davi Pretto consegue transitar entre dois mundos (assim como K), faltando apenas alcançar um equilíbrio para quem sabe conectá-los (tal qual sua distopia).


NOTA 7,5

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