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CRÍTICA | "A Odisseia

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Depois de Oppenheimer, Christopher Nolan ganhou carta branca da Universal para tirar do papel o projeto que quisesse, uma atitude respaldada não só pelos sete Oscars que conquistou (incluindo os de Direção e Filme), mas também pela bilheteria quase bilionária arrecadada por um estudo de personagem com quase três horas de duração e rodado parcialmente em preto e branco. Uma proeza ainda mais impressionante quando lembramos que não se tratava de uma franquia e nem havia um super-herói para alavancar o marketing, esse, sim, potencializado pelo fenômeno Barbenheimer.


Podendo fazer qualquer filme, o britânico não seria julgado caso optasse por uma produção menor, mas estamos falando de um realizador movido a desafios e é difícil imaginar um maior do que adaptar A Odisseia, obra milenar e seminal de Homero que influencia até hoje não apenas a Literatura, mas também o Cinema. E a adaptação que estreia mundialmente nos cinemas esse final de semana é mais uma proeza de Nolan, com todas as marcas registradas que definiram sua carreira. Para o bem e para o mal.

Apesar de não sentirmos as quase três horas de projeção, méritos especialmente da montadora Jennifer Lame (também oscarizada por Oppenheimer), o texto carece de refino a ponto de as engrenagens narrativas ficarem expostas para quem quiser notar, a começar pela estrutura episódica (e repetitiva) ancorada em quatro ou cinco set-pieces que dão conta dos embates de Odisseu e sua tropa com figuras mitológicas como o Ciclope e uma bruxa, aliás, os pontos altos da produção.

A criatura supracitada, inclusive, é fruto do comprometimento irredutível de Nolan com o realismo, surgindo numa combinação de efeitos práticos que potencializa o impacto do público. A textura da pele, o design do rosto (note como o olho e o nariz são posicionados), a movimentação e até a interação com os guerreiros são meticulosamente pensados para funcionarem numa sequência que flerta com o terror. Ao passo que o encontro com a Circe da inspiradíssima Samantha Morton ganha ares de pesadelo ao abusar novamente dos efeitos práticos para enfatizar o aspecto grotesco de uma sequência que demorará a sair da cabeça do espectador.

O problema é que esses episódios nem sempre são bem costurados com a trama política do núcleo capitaneado pelo Telêmaco de Tom Holland, cujo excesso de personagens (todos interpretados por grandes estrelas de Hollywood) remete às obras recentes de Wes Anderson, como ao trazer Mia Goth para pronunciar duas frases. Mas isso não incomoda tanto quanto a tradicional dificuldade de Nolan para escrever papéis femininos e a Penélope de Anne Hathaway é mais uma vítima, surgindo passiva e monocórdica na tela quando, no texto original, é muito mais que isso. Curiosamente, os diálogos didáticos, outra assinatura famigerada dos textos assinados pelo britânico, são menos frequentes, chegando ao ponto de incomodar apenas no final, quando alguém resolve aparecer apenas para verbalizar a moral da história. A “Lei de Zeus” também vira uma muleta de roteiro utilizada convenientemente para solucionar problemas. Mas falando em soluções, é preciso tirar o chapéu para a forma inventiva encontrada por Nolan para encaixar os deuses em sua proposta realista, dando uma camada a mais para a tal odisseia.

Que por sua vez deixa de ser o épico fantasioso imaginado por Homero, para se tornar um grande filme de ação nas mãos de Christopher Nolan, que toma a liberdade de fazer alterações com o intuito de transformar A Odisseia num típico blockbuster hollywoodiano palatável para todos os gostos, o primeiro a ser gravado inteiramente em película IMAX. E o resultado não é menos do que espetacular.

O escolhido para comandar essa já histórica direção de fotografia não poderia ser outro senão Hoyte Van Hoytema, cuja parceria com Christopher Nolan começou em Interestelar e foi reconhecida pela Academia em Oppenheimer. o suíço é inteligente ao utilizar as colossais câmeras IMAX não para criar imagens grandiloquentes, mas para expressar e o isolamento e os traumas de Odisseu através das paisagens. Seguindo essa lógica, nem mesmo a Grécia escapa desse olhar rigoroso e pesado: seja nos planos internos de Ítaca, pautados pela baixa luminosidade que reforça o tom sombrio da situação enfrentada pela mítica ilha, ou nas amplas tomadas durante as viagens de Odisseu (com uso ostensivo de névoa para refletir o desconhecido), o trabalho de Hoytema exerce uma função quase psicológica na construção visual do filme.

As sequências de ação, embora repetitivas como a estrutura narrativa (repare como a maioria termina em fuga desesperada), evidenciam a evolução de Nolan, um cineasta que no passado exibia dificuldades especialmente com a mise-en-scène desses momentos específicos (vide a trilogia Batman). As boas coreografias são captadas com objetividade, mas não são o centro desses marcos climáticos, servindo a propósitos mais complexos. Mais do que ilustrar as habilidades de Odisseu, os combates deixam transparecer traços da personalidade do sujeito no que tange à estratégia. A contradição de um caçador que se nega a atacar sua presa por trás, mas não hesita ao emboscar covardemente o Ciclope, por exemplo, traz nuance ao debate interno do protagonista sobre as diferenças entre lutas e caçadas.

Dessa forma, Matt Damon tem a oportunidade de oferecer uma das atuações mais cincunspectivas de sua trajetória como intérprete, obtendo êxito não só ao retratar o lado vigoroso do protagonista nos campos de batalha, mas principalmente ao evocar os dilemas éticos e morais consequentes de seus atos, mesmo que o roteiro se negue a esmiucá-los (em dado momento, descobrimos que ele fez coisas das quais não se orgulha, mas jamais as vemos de fato). Ao invés de se aprofundar no peso carregado por Odisseu, Christopher Nolan usa a culpa como base de seu discurso sobre a Guerra, por mais paradoxal que seja dentro de um filme de guerra. E não deixemos de registrar a irreverente quebra de paradigma ao vermos um personagem de Damon voltar para casa com as próprias pernas ao invés de ser resgatado pela enésima vez.

Mal acostumado a papeis sem grandes demandas dramáticas (a exceção fica por conta de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa), Tom Holland é outro a usufruir da chance de construir um personagem mais complexo, surgindo numa composição sóbria e que dá conta do arco dramático de Telêmaco. Já Robert Pattinson se destaca ao abarcar toda a profundidade do vilão, sem precisar recorrer a rompantes histriônicos (pelo contrário). Antínoo é apenas mais uma prova do talento de Pattinson, que tem sido presenteado nos últimos anos com papéis mais desafiadores.

Adjetivo obrigatório ao abordar A Odisseia, "desafiador" também pode ser empregado para definir o trabalho do compositor sueco Ludwig Göransson, que consegue transitar com perfeição entre o intimismo e a grandiosidade sem utilizar orquestra e o resultado o aproxima do quarto Oscar. Que também deve consagrar o departamento de som e justifica a ida a um cinema com o melhor sistema sonoro disponível. Como quase todo filme de Christopher Nolan, A Odisseia pode até equivaler a um ataque poderoso aos sentidos, mas para além da precisão cirúrgica em sequências como o confronto com o monstro Cila, as tempestades marítimas ou os baile de flechas, também merece elogios pelos momentos mais taciturnos, em que o silêncio vira uma ferramenta valiosíssima, o que se constata na caverna do Ciclope, no interior do Cavalo de Troia e na praia de Calipso.

Se é insuficiente ao estudar as imperfeições que fazem de Odisseu um herói tão fascinante (ou anti-herói, dada a gravidade de seus atos), Christopher Nolan supera com louvor não apenas o desafio de adaptar um clássico anteriormente considerado inadaptável, mas em transformá-lo no mais novo filme-evento a ratificar o cinema como palco de experiências sensoriais incomparáveis.


NOTA 7,5

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