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CRÍTICA | "O Convite"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 5 horas
  • 5 min de leitura

Muitos conheceram Olivia Wilde como a Thirteen da série médica House (2004-2012), a mais vista do planeta por duas temporadas consecutivas. Outros tantos acompanharam sua ascensão frustrada ao Cinema, quando embarcou numa sequência de fracassos que inclui Cowboys e Aliens, Eu Queria Ter a Sua Vida e O Preço do Amanhã. O fato de os três estrearem em sequência no ano de 2011 foi a cereja mórbida do bolo azarado preparado pela atriz novaiorquina.


Felizmente, esse período prolífico, mas infame, a preparou para outra transição, desta vez para a cadeira de diretora. A estreia não poderia ter sido melhor, com o vibrante, cáustico e copiosamente hilário Fora de Série (2019). Pena que o prestígio durou apenas até o segundo trabalho como diretora, o decepcionante Não Se Preocupe, Querida (2022), cujos bastidores conturbados (que comentei aqui) colocaram a cineasta no centro de tabloides e ameaçaram a consolidação de sua nova fase profissional. Foram necessários quatro anos para a poeira baixar e a ex-queridinha de Hollywood poder voltar aos trabalhos como diretora. Sabemos o quão frágeis podem ser as carreiras e suas respectivas reputações na Indústria, mas o resultado desta vez é tão sólido, que o retorno tem tudo para ser definitivo.

Não por acaso, O Convite foi disputado quase a tapas por estúdios e distribuidoras após ser aclamado no Festival de Sundance. Neon, Netflix, Warner Bros. e Sony foram apenas alguns dos participantes do verdadeiro leilão que se formou para adquirir a produção que custou “míseros” cinco milhões de dólares para ser produzido e acabou adquirido por mais de doze milhões pela A24.

Na trama, Joe (Seth Rogen) e Angela (a própria Olivia Wilde) vivem o desgaste de um casamento que sucumbiu à rotina. As coisas não melhoram quando ele, chegando do trabalho, é surpreendido pela informação de que os inconvenientes vizinhos do andar de cima (vividos por Edward Norton e Penélope Cruz) não apenas foram convidados para jantar, como já estão prestes a chegar. Obviamente, uma acalorada discussão toma conta do ambiente, pois Joe vive reclamando do barulho feito pelos vindouros comensais. Mas afinal, quem são essas pessoas e qual o motivo por trás de tantos ruídos noturnos?

Não bastasse a trama simples, que por sua vez é derivada do longa espanhol Sentimental (2020), o formato “filme de câmara” (narrativas ambientadas praticamente num só cenário) traz à memória exercícios similares que vão de clássicos incontestes como Festim Diabólico (1948) e Doze Homens e Uma Sentença (1957) a obras modernas como The Humans (2021) e Deus da Carnificina (2011). O filme de Roman Polanski, aliás, é o que guarda mais semelhanças com o texto adaptado por Rashida Jones e o vencedor do Oscar Will McCormack (pelo belíssimo curta animado Se Algo Acontecer... Te Amo).

O que a dupla faz de melhor, no entanto, é estabelecer a animosidade dos diálogos como uma espécie de última conexão num relacionamento claramente por um fio. Nesse sentido, Rogen e Wilde se entregam de corpo e alma a diálogos tão rápidos quanto afiados numa sintonia que justifica o planejamento rigoroso da produção, filmada em ordem cronológica após uma longa bateria de ensaios. As brigas surgem como o subterfúgio perfeito para metralhar informações importantes a respeito do casal, mas sobretudo sobre a personalidade de cada um.

Falando nisso, o design de produção é utilizado com perfeição para complementar a construção dos personagens, desde o quarto sem vida dividido pelos protagonistas, passando pelo escritório caloroso, mas bagunçado de Joe e culminando na escura sala de música trancada e praticamente esquecida nos fundos do apartamento, servindo ao mesmo tempo como metáfora para os sonhos apaixonados do sujeito e resposta para sua respectiva amargura.

E é impossível falar de subtexto visual sem mencionar a direção absolutamente estupenda de Wilde. Repare, por exemplo, como a realizadora, ao lado do diretor de fotografia Adam Newport-Berra (de Amores à Parte), mantém Angela e Joe inicialmente sempre nas extremidades do quadro ou “separados” por janelas e soleiras. Os espelhos também são utilizados como forma de ilustrar, inclusive, a mudança na proximidade entre outros personagens (note Edward Norton “invadindo” uma cena após aparecer num reflexo).

Outra demonstração do absoluto controle de mise-en-scène são as diversas tomadas em que alguém, no meio de uma cena, sai do iluminado primeiro plano para marcar posição no fundo obscurecido, refletindo mais uma alteração-chave. Mas ela também se dá ao luxo de brincar com as convenções, como na sequência em que Seth Rogen caminha até um abajur para contar uma história com o rosto iluminado do mesmo jeito que alguém faria utilizando uma lanterna para amedrontar um grupo sentado ao redor de uma fogueira. Dessa forma, Olivia Wilde demonstra repertório para driblar o que poderia soar como um teatro filmado, transformando O Convite num sofisticado e divertido exercício cinematográfico.

Se por um lado ela exibe talentos admiráveis atrás das câmeras, como atriz revela ter evoluído pouco ou mesmo involuído, ao substituir a troca de olhares do início por um excesso desconfortável de caras e bocas que a posiciona ao menos um degrau abaixo de seus colegas de elenco. Já Seth Rogen, que tem a oportunidade de explorar seus conhecidos dotes cômicos logo nos minutos iniciais, aproveita para mostrar que Os Fabelmans (2022) não foi uma exceção: ao invés de usar o histrionismo para pautar as reações de Joe, o canadense se permite sutilezas que sugerem sentimentos complexos com simples mudanças de expressão ou do olhar.

Rogen se sai tão bem nessa composição tragicômica que em alguns momentos chega a encurtar a longa distância estabelecida por Edward Norton (Asteroid City) e Penélope Cruz, as verdadeiras estrelas do espetáculo. Discreto na primeira metade, o ator precisa de apenas um monólogo para mostrar porque já foi quatro vezes indicado ao Oscar, ao passo que Penélope Cruz (A Noiva!) percorre todas as nuances de sua personagem: por ser terapeuta, Piña é utilizada para traçar um perfil certeiro de Joe (“o caos da bagunça é sinal de criatividade, pois mostra que o bagunceiro mantém o foco no que realmente importa”), mas também protagoniza uma alternância de poder que é fruto da direção brilhante de Wilde, ressignificando o casamento dos protagonistas numa passagem crucial. Divertida e sedutora, mas também perigosamente manipuladora, a mulher passa uma sensação intermitente de imprevisibilidade.

Que acaba sendo por tabela a tônica de toda a narrativa, que apesar de possuir um segundo ato mais lento, troca de marcha e acelera até o final enfileirando surpresas com potencial para provocarem risos ininterruptos, mesmo que sejam de nervoso. Em outras palavras, ao misturar comédia e drama com a precisão de um relógio suíço (como se Woody Allen dirigisse uma versão de O Drama sem a polêmica do roteiro), O Convite oferece uma das experiências cinematográficas mais inesperadamente recompensadoras do ano até o momento.


NOTA 8

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