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CRÍTICA | "O Drama"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

Imagine um casal apaixonado, com uma vida estável e dividindo um apartamento confortável há dois anos. Tudo parecia ir bem, ao ponto de Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) resolverem marcar o casamento, mas faltando uma semana para a cerimônia, ela faz uma revelação tão chocante que o faz repensar toda a ideia. Agora a pergunta: você consegue pensar em algo tão grave que abalaria as estruturas de um relacionamento tão sólido?

É a partir dessa premissa que o diretor e roteirista norueguês Kristoffer Borgli não apenas traça um perfil inquietante das relações humanas nos tempos da internet, como usa esse discurso para espelhar a própria sociedade estadunidense e sua cultura, especificamente uma ferida aberta que não revelarei, sob pena de estragar a primeira grande reviravolta da trama e que pauta todo seu desenvolvimento.

Primeiro ele apresenta vários elementos clássicos de uma comédia romântica tradicional. Estão lá o casal apaixonado, os melhores amigos que possibilitam desabafos e oferecem observações bem-humoradas e, claro, uma crise que ameaça o destino dos pombinhos. A grande sacada de Borgli é fazer dessa crise uma oportunidade para não só cutucar, mas jogar pimenta numa ferida que dificilmente cicatrizará entre os norte-americanos. E quando você finalmente descobrir do que se trata, vai perceber a ousadia em abordar um tema considerado um imenso tabu. Essa coragem e/ou disposição em discutir o indiscutível, provavelmente decorre do fato de ser um europeu, característica que inteligentemente compartilhou com o protagonista vivido por Pattinson.

O fato de o personagem não pertencer e sequer compreender completamente a cultura do país no qual é radicado, é precisamente o que permite ao realizador desnudar sem qualquer pudor um país consumido pela polarização, seja esta em termos de discurso ou imagem. Nesse ponto, se temos pena ao invés de ficarmos com raiva de Charlie ao hesitar na hora de confrontar o próprio dilema, é pelo atenuante deste estar, pela primeira vez, envolvido com um elemento bem particular dos estadunidenses, resultando num choque cultural irremediável. E como culpá-lo? Afinal, a revelação de Emma causa o tipo de ruptura capaz de mudar completamente a percepção de alguém, principalmente perante a reação escandalizada da futura madrinha de casamento vivida por Alana Haim (The Mastermind) com uma fúria jamais vista em papéis anteriores. O rapaz se apaixonou por quem Emma era, mas aquela pessoa deixou de existir a partir do momento que a moça resolveu compartilhar seu segredo mais obscuro, não com o passivo noivo, mas com os idealistas melhores amigos.

Especializando-se em encarnar o papel do chamado “macho-beta”, Pattinson constrói Charlie como um homem facilmente influenciável e eu poderia apostar que ele não reagiria de forma tão abrasiva caso fosse o único a ouvir tal revelação. É aí que entra a internet, um ambiente que convida as pessoas a assumirem um personagem, agindo de forma performática em prol de uma imagem supostamente superior à da vida real. Nesse aspecto, se em O Homem dos Sonhos vimos Borgli colocar Nicolas Cage para se transformar num meme ambulante enquanto impactava a vida de outras pessoas, agora são os outros que acabam gerando reverberações na relação dos protagonistas. E o realizador ilustra isso com uma acidez desconcertante, com destaque para uma sequência absolutamente brilhante por transmitir ao espectador todo o desconforto experimentado pelos personagens durante uma sessão de fotos.

Vivemos numa época em que muitos entram no ambiente virtual buscando validação. É o caso de quem só procura ler o que corrobora o próprio pensamento. Uma crítica de cinema, por exemplo, não é feita para legitimar ou descredibilizar uma opinião. Ninguém é estúpido por gostar de um filme com análises negativas, da mesma forma que se alguém detestou um sucesso de crítica, não foi porque “viu errado” ou porque o crítico em questão é ruim. A crítica é um complemento, muitas vezes sendo o pontapé inicial para um debate, oferecendo pontos e contrapontos para embasar uma discussão maior através de um embasamento maior. Mas como explicar isso quando as discussões se resumem a tentativas de desqualificar o interlocutor ao invés de contra-argumentar com ideias?

Situação parecida com a que vive a Emma de Zendaya, execrada impiedosamente antes de qualquer possibilidade de argumentação. E a performance da jovem atriz, finalmente num papel condizente com a própria idade, evoca uma dor intensa que escapa pelo olhar e afeta os trejeitos, refletindo novamente a cultura estadunidense de jogar para baixo do tapete uma sujeira encrostada na sociedade. Chega a ser curioso, mas nada surpreendente, constatar que as mesmas pessoas ávidas por julgarem Emma pelo tal segredo, fazem coisas ainda piores do que o que na verdade não foi feito. E não estou aqui defendendo a personagem, apenas apontando a hiprocrisia alheia, muitas vezes um reflexo da incapacidade de se colocar na pele do outro (algo que o discurso de Charlie aponta com uma precisão cirúrgica ao provar que aquela atitude poderia partir de qualquer um naquele contexto específico (o que talvez faça O Drama ressoar muito menos fora dos Estados Unidos).

De um ponto de vista puramente técnico, a produção se beneficia da ótima trilha sonora de Daniel Pemberton (voltando à boa fase após o trabalho pouco inspirado em Devoradores de Estrelas), utilizando-a para provocar ou acentuar o desconforto, que por sua vez é ratificado pelos planos claustrofóbicos concebidos pelo diretor de fotografia Arseni Khachaturan (excelente em Até os Ossos). Infelizmente, a montagem de Joshua Raymond Lee (da premiada minissérie Ripley) é induzida ao erro pelo diretor Kristoffer Borgli (com quem divide a função), soando ocasionalmente confusa ao introduzir flashes de eventos ora pretéritos, ora imaginados, uma prática que costumava funcionar nas obras anteriores do norueguês.

Extrapolando o humor de constrangimento que tanto dividiu os espectadores da primeira temporada da versão norte-americana de The Office, O Drama é uma produção que já nasce polêmica ao exibir a coragem de um realizador disposto a debater um problema cultural que só poderá ser solucionado caso seja racionalmente discutido. E só pela ousadia de levantar essa questão, Kristoffer Borgli já fez mais do que muitos cidadãos estadunidenses.


NOTA 7,5

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